Documentário expõe monetização da misoginia e 'machosfera'
Fernanda Mena São Paulo, Sp (folhapress) - 29/03/2026 17:54:31 | Foto: Gisele Alves Santana era soldado da Polícia Militar • Reprodução CNN
FERNANDA MENA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa: com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa."
A frase, enviada por mensagem de texto pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto a sua mulher, a soldado Gisele Alves Santana, antecipa em linguagem crua uma gramática de poder que atravessou o relacionamento do casal e culminou com um feminicídio, segundo indicam os investigadores.
Preso, o policial nega a autoria do crime. Sua defesa afirma que houve divulgação de informações de sua vida privada "por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida".
Nas trocas de mensagens com Gisele, Neto também descreveu a si mesmo como "rei" e "soberano", numa sequência de mensagens em que cobrava "amor, carinho, atenção, dedicação e sexo" em troca do seu investimento financeiro na vida do casal.
Mais do que um detalhe retórico, o uso do termo "macho alfa" revela a circulação contemporânea de um vocabulário que mistura biologia mal interpretada, autoajuda masculina e ideologias de dominação de gênero para legitimar práticas violentas como algo natural.
A expressão tem origem em estudos de comportamento animal, sobretudo com lobos e primatas. Popularizada a partir da década de 1970, a acepção do termo foi posteriormente revista por cientistas.
O biólogo norte-americano David Mech, por exemplo, reconheceu que a ideia de hierarquias rígidas entre "machos alfa" e suas matilhas de lobos era fruto de observações em cativeiro, não aplicáveis à vida selvagem, onde os grupos são estruturados como famílias.
Na primatologia, o termo também foi usado para designar o indivíduo de maior status, mas não necessariamente o mais agressivo. O primatologista holandês Frans de Waal destacava que a liderança entre chimpanzés envolve alianças e habilidades sociais, e não apenas força física. Esta nuance, dizia Waal, que é, em geral, apagada quando o conceito é transposto para humanos.
"O macho alfa não tem nada a ver com a experiência humana e tem a ver com uma liderança das famílias de animais. Mas se tornou uma expressão da cultura machista", afirma o psicólogo Benedito Medrado, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo Feminista de Pesquisas sobre Gênero e Masculinidades (Gema). Para ele, a apropriação do termo revela menos sobre ciência e mais sobre a persistência de valores patriarcais.
Segundo Medrado, a retórica da dominância masculina atualiza velhos dispositivos de poder. Ele cita a tese da "legítima defesa da honra", usada até os anos 1990 para absolver homens que matavam parceiras supostamente para defender o que entendiam como honra. "Equiparava-se a honra de um homem à vida de uma mulher. Os termos às vezes parecem novos, mas são a mesma roupa com outros adereços", diz.
A embalagem contemporânea desse imaginário encontrou na internet um ambiente fértil. Influenciadores como o ex-campeão de kickboxing Andrew Tate, que se apresenta como empresário bem-sucedido, difundem uma versão do "macho alfa" associada a riqueza, controle emocional e dominação nas relações.
Em seu livro "Alpha: How to Be an Alpha Male Who Does Not Give a Fuck" ("Como ser um macho alfa que não está nem aí", em tradução livre), ele difunde uma abordagem violenta da masculinidade e defende que homens exerçam autoridade sobre mulheres.
Esse tipo de discurso, segundo o psicólogo Adriano Beiras, professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), integra a chamada masculinidade idealizada e hegemônica. "A ideia de macho alfa representa o homem no controle e no poder sobre outros homens, chamados de betas, e, principalmente, sobre as mulheres", afirma ele, que coordena o Grupo Margens, de pesquisa sobre masculinidades. "É um termo usado por homens cuja masculinidade se estrutura na contraposição e dominação do feminino."
Beiras aponta que a popularização dessa retórica é uma reação de parcela dos homens aos avanços na reivindicação de direitos por mulheres e pela população LGBT. "É uma masculinidade ressentida que quer o retorno do status de domínio do homem", diz.
Em redes sociais e fóruns online, esse discurso se organiza em comunidades que oferecem explicações simplificadas para frustrações afetivas, sexuais e profissionais, frequentemente culpando mulheres e sua emancipação pela suposta perda de poder masculino.
Nesses ambientes, categorias como "alfa", "beta" e "incel" estruturam uma visão hierárquica das relações. Homens seriam classificados conforme atributos físicos, financeiros e comportamentais, numa lógica que transforma vínculos afetivos em disputas por status. "É um discurso muito perigoso porque legitima a violência e atitudes misóginas", afirma Beiras.
No caso investigado em São Paulo, as mensagens atribuídas ao tenente-coronel combinam essa retórica com práticas descritas pela acusação como controle e intimidação. Segundo relatório da Corregedoria da PM, Neto utilizava sua posição hierárquica para constranger a mulher no ambiente de trabalho.
Beiras, que há anos trabalha com grupos reflexivos e responsabilizantes para homens autores de violência, afirma que "muita gente ainda entende a violência como algo inerente ao masculino". "O trabalho é mostrar que não é assim, que ser homem não significa ser violento, e que a violência é uma escolha." Segundo ele, há também grupos de homens incomodados com essa masculinidade hegemônica e que buscam formas plurais de ser homem no mundo.
No mais novo documentário, "Pode Dentro da Machosfera" (Netflix), o jornalista britânico Louis Theroux mergulha no universo de influenciadores como Tate, que pregam submissão das mulheres a um modelo idealizado de homem (provedor, bem-sucedido, forte e dominador) em vídeos e cursos em que dizem ensinar "homens a serem homens".
Numa cena, Andrew Tate ilustra essa lógica ao dizer que "um homem que não é perigoso não será visto como bem-sucedido". Em outra, um influencer da machosfera apresenta sua namorada a Theroux chamando-a de "minha máquina de lavar" e "minha faxineira". E há ainda um corte em que outro influencer diz: "se sua namorada for para a boate mesmo quando você não deixou, você ferra com a vida dela".
A persistência e a atualização desses discursos ajudam a explicar por que, mesmo com avanços legais como a Lei Maria da Penha, casos de feminicídio seguem ocorrendo. Entre mensagens que evocam hierarquias, o vocabulário do "macho alfa" deixa de ser apenas uma metáfora equivocada desde sua matriz para se tornar uma chave de interpretação de relações marcadas por submissão e por riscos.
Documentário expõe monetização da misoginia e 'machosfera'
A abertura em cortes rápidos de "Por Dentro da Machosfera", novo documentário do jornalista britânico Louis Theroux para a Netflix, funciona como um aviso: o que vem a seguir não é exceção. É método.
Em sequência, desfilam vídeos de influencers da tal machosfera, um ecossistema de perfis, podcasts e programas que vendem uma masculinidade baseada em força, riqueza e submissão feminina, embalada como se fosse um forma de resistência a um suposto "sistema" que lhes empurra subempregos e igualdade de gênero goela abaixo. Eles têm milhões de seguidores.
"São homens contra mulheres", diz um. "Somos a última barreira", convoca outro. Em um vídeo, um terceiro aconselha punir a parceira que desobedece. Em outro, adolescentes cercam um influencer na rua, gritam "mulher é lixo" e "todo gay tem que morrer" enquanto posam para selfies. O influencer ri, entre o constrangimento e o orgulho.
Theroux é um especialista em acessar universos fechados –de supremacistas brancos a clínicas psiquiátricas- nos quais também mantém um método: curiosidade, humor seco e uma presença que desarma e que o celebrizou como heróis contemporaneo do jornalismo gonzo.
No filme, ele acompanha quatro nomes da machosfera anglófona. Um deles, o britânico Harrison Sullivan, exibe luxo, malhação e mulheres objeto, em geral seminuas. Ele admite que este tipo de conteúdo serve para capturar atenção e monetizar a audiência.
A engrenagem aparece com nitidez. O empresário Justin Waller, ligado aos irmãos Andrew e Tristan Tate, acusados de violência sexual e de tráfico de mulheres na Romênia, promove uma "universidade" chamada O Mundo Real, que ensina "homens a serem homens".
A referência à teoria red pill é direta: uma metáfora do filme "Matrix" em que a pílula vermelha promove o despertar de um sistema que oprime o poder e a força masculinos enquanto favorece as mulheres e dar a volta por cima.
No centro desta narrativa está a promessa de uma hierarquia de gênero restaurada: homens mandam, mulheres obedecem. O podcaster Amrou Fudl, que atua sob o nome Myron Gaines, afirma que mulheres "nascem com valor" (que ele resume assim: "vocês nasceram com peitos e vaginas") e homens precisam construí-lo –argumento que oferece sentido pronto para homens ressentidos com suas frustrações afetivas e profissionais. Em seus vídeos, ele também defende que o homem decide quando e como terá sexo, independentemente da vontade da parceira, numa espécie de pregação do estupro para ampla audiência.
Theroux vai além da superfície misógina e encontra um pacote maior: teorias conspiratórias que envolvem de alienígenas a judeus, e trajetórias marcadas, em alguns casos, pela ausência de referências masculinas próximas. Mas o documentário evita explicações fáceis. O que emerge é menos um desvio individual e mais um mecanismo digital de recompensa do discurso extremo com visibilidade e dinheiro.
No fim, o que aqueles cortes iniciais já anunciavam se confirma: não se trata apenas de vídeos virais ou bravatas online. É um vocabulário que organiza relações, molda expectativas e legitima uma violência que extrapola o ambiente digital para fazer vítimas também no mundo analógico. Um idioma em que a ideia do que é "ser homem" precisa incluir até a forma como se vai ao banheiro, como declara um dos entrevistados: "Louis Theroux é tão woke que a esposa obriga ele a mijar sentado (risos)."
Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera
Onde: Netflix
Classificação: 16 anos
Avaliação: Muito bom
Comentários para "Macho alfa é termo que evoca retórica de domínio e aparece em caso de ten-coronel réu por feminicídio":