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O bem que faz fazer o bem: Voluntariado cresce na pandemia

O bem que faz fazer o bem: Voluntariado cresce na pandemiaFoto: Arquivo pessoal

Voluntários se desdobram para, em meio à pandemia, ajudar a quem precisa. E, no Natal, criam ações solidárias e vivem o verdadeiro sentido da data: solidariedade e renascimento

Por Ailim Cabral - Correio Braziliense - 20/12/2020 - 15:26:55

Em 2020, o ano para sempre marcado pela pandemia do novo coronavírus, muitas pessoas optaram por colocar planos em pausa e adiar objetivos — alguns brincam que vão “pular” o ano e fingir que ele nunca aconteceu. Mas enquanto empreendimentos, estudos e viagens podem ser adiados, a necessidade básica de sobrevivência não pode esperar. Pessoas em situação de rua, trabalhadores informais, famílias carentes, crianças, jovens e idosos que vivem em abrigos ficaram desassistidos no momento em que a maior parte da população se isolava em seus lares.

Cientes das necessidades dessas pessoas e impedidos de continuar com trabalhos sociais coordenados por instituições religiosas e ONGs, pausados para evitar aglomerações e riscos de contaminação, moradores de Brasília tomaram à frente de iniciativas particulares ou adaptaram antigos trabalhos para ajudar a quem precisa.

Assim como as necessidades, o auxílio também cresceu em 2020. Segundo dados da empresa de serviços financeiros Nubank, este ano houve um aumento de 295% no número de pessoas que fizeram doações ou alguma outra forma de filantropia. Foram levantados mais de R$ 64,6 milhões em relação às cifras do ano passado.

E no Natal, data marcada pela solidariedade e pelo renascimento, não será diferente. Os projetos adaptados e as novas iniciativas estão se preparando — e recebendo ajuda — para levar uma celebração especial aos que precisam de amor e, por que não, um pouco de magia. A Revista apresenta algumas dessas iniciativas.

Sanduíches que mudam vidas

Há alguns anos, a cantora e designer Thaís Fread, 42 anos, participa de trabalhos sociais da Comunhão Espírita de Brasília, especialmente na distribuição de sopa. Alguns meses antes da pandemia, por questões de saúde, ela precisou se ausentar do trabalho e, quando se preparava para voltar, a pandemia interrompeu tudo.

A voluntária, que estava sentindo falta de participar das ações, pensou que, com todas as iniciativas que conhecia paradas devido ao isolamento e com a quantidade de pessoas nas ruas reduzida, um problema que sempre existiu ficaria ainda pior. “Foi aí que resolvi fazer alguma coisa dentro do que era possível e seguro”, conta.

Na primeira semana, Thaís comprou os ingredientes sozinha, preparou 110 sanduíches e chamou dois amigos, Márcia Ribeiro Braga e Walter Júnior, para ajudar na distribuição, no Setor Comercial Sul. Em menos de 15 minutos, todos os sanduíches acabaram. “Foi muito rápido. Ali, eu vi que não poderíamos parar. Aquele sanduíche tinha sido a única refeição do dia de várias daquelas pessoas. Mas como eu ia viabilizar isso? Sozinha não ia conseguir bancar tudo”, lembra.

Para levantar verbas, ela sorteou um kit com cinco peças de sua marca, a Thaís Fread Acessórios, e usou o valor arrecadado no projeto. A divulgação do sorteio acabou atraindo amigos que se voluntariaram para ajudar na doação, preparação e distribuição. Assim nasceu o Sanduíche solidário. O grupo cresceu rápido e a distribuição tornou-se semanal no Setor Comercial Sul e na Rodoviária do Plano Piloto.

Desde março, toda quinta-feira os amigos se equipam com máscaras, luvas, face shields e inúmeros frascos de álcool em gel para distribuir sanduíches, sucos, refrigerantes, brigadeiros e paçoquinhas, kits de higiene pessoal e máscaras de proteção. Quando recebem doações de roupas, calçados e cobertores, os itens também entram na roda.

Cerca de 30 pessoas trabalham na produção e na distribuição. Tantos outros, que não podem se expor por ser grupo de risco, ou que querem ajudar mas não se sentem seguros ao sair de casa, ajudam com doações. Thaís ressalta que toda contribuição feita em dinheiro tem prestação de contas, e as pessoas podem conferir o resultado de suas doações nas imagens divulgadas no Instagram do projeto.

Além dos alimentos, Thaís ressalta o valor de doar amor e atenção. “As pessoas não são carentes só de alimento, mas de acolhimento. Querem conversar, contar alguma coisa do dia delas, desabafar. A doação de tempo e afeto tem um valor muito grande.”

Ação natalina

Para a ação de Natal, o grupo escolheu o dia 22, para garantir um número maior de voluntários disponíveis. Na data, serão distribuídos kits especiais de Natal, com frutas natalinas, minipanetones e chocolates, para sair da rotina e permitir que as pessoas celebrem o feriado cristão.

Para Thaís, a iniciativa é singela, mas é uma forma de estar presente e dividir a magia do Natal com quem precisa. Ela acrescenta que, enquanto muitos lamentam não poder reunir familiares e amigos, e que terão um jantar de Natal reduzido, outros não têm nem isso. “Quem não pode estar com a família, mas quer se sentir um pouco melhor, pode nos ajudar a levar essa sensação aos outros e celebrar o nascimento de Jesus, que é o maior exemplo de caridade, bondade e compreensão — tudo que o trabalho voluntário precisa para acontecer.”

A voluntária acredita que os grandes beneficiados são os que podem se doar e ajudar. Para ela, a sensação de gratidão por poder fazer a sua parte por um mundo melhor é o principal. “Sem falar na gratidão por todos que abraçaram esse projeto, porque eu não faço nada disso acontecer sozinha. Cada um ajuda da maneira que pode no momento. E assim tem dado tão certo”, comemora.

Um sorriso que se transforma em muitos

Ana Cristina Ferreira de Souza (E) e parte do grupo de voluntários preparando os kits natalinos (detalhe) que serão distribuídos
Ana Cristina Ferreira de Souza (E) e parte do grupo de voluntários preparando os kits natalinos (detalhe) que serão distribuídos (foto: Arquivo pessoal)

O grupo de amigos à frente da iniciativa Por um sorriso começou as ações de Natal no último dia 18. Buscando ajudar o máximo de famílias possível, as organizadoras dos projetos seguem buscando doações de cestas básicas e de Natal.

A empresária Ana Cristina Ferreira de Souza, 36 anos, faz parte do projeto desde o início, há cerca de cinco anos, e conta que, apesar da tristeza de não poder realizar as celebrações natalinas nos abrigos, nas quais levavam Papai Noel e presentes para as crianças, o grupo não vai descansar no fim de 2020.

Este ano, o Natal não será apenas para as crianças, que tradicionalmente tinham suas cartinhas resgatadas por voluntários, mas para toda a família. “Vamos doar cestas para que essas famílias possam se reunir na noite do dia 24 e compartilhar uma refeição enquanto celebram a união, que é o verdadeiro significado do Natal”, diz a voluntária.

Até a primeira quinzena de dezembro, o grupo tinha conseguido juntar cerca de 100 cestas básicas e 30 cestas de Natal. Em virtude da pandemia, foi necessário adaptar a distribuição. Pessoas que atuam nas comunidades assistidas criaram listas com as famílias mais necessitadas e é marcado um local para a entrega organizada e segura das doações.

O grupo, que tem cerca de 500 voluntários rotativos e 150 ativos, constantemente se divide entre entregas, arrecadação e divulgação. Em virtude do isolamento, poucos se encontraram para comprar e preparar as cestas. Ana conta que ela e mais quatro organizadoras montaram os kits natalinos, para diminuir ao máximo os riscos de contaminação.

Ela admite que foi difícil afastar a tristeza de si e dos outros voluntários. Sem o presencial, era difícil doar carinho e atenção para as crianças, os abraços e os ouvidos para quem precisa sempre conversar. “Não é só doar material, mas, sim, seu tempo e amor, que são as coisas mais preciosas que temos. Não podíamos estar na rua, queríamos ir, mas sabemos que não é possível, pelo nosso bem, das crianças e do mundo” afirma.

Assim, os voluntários se esforçaram e buscaram alternativas para ajudar. E Ana afirma que, apesar da saudade dolorosa, é importante não se desmotivar, pois todos precisam mais que nunca.

Todos estão ansiosos para voltar à principal atividade de Por um sorriso, que são as festas de aniversários mensais nos abrigos infantis. O grupo passa um ano em cada abrigo, proporcionando a todas as crianças uma comemoração cheia de alegria, com doces, presentes, pinturas de rosto e muito carinho. Além das visitas e doações a asilos e creches.

Enquanto isso não é possível, dedicam-se a doações e pequenas ações de rua, como a distribuição de refeições. Durante a pandemia, foram doadas mais de 4 mil cestas básicas para famílias, abrigos e asilos.

A empresária chama a atenção de quem tem vontade de ajudar: “Quando me tornei voluntária, passei a enxergar ao meu redor o que realmente importa, o que é necessário ao próximo e o que você pode doar, mesmo que seja só um sorriso. Através do amor, é possível transformar o mundo”, completa.

Vizinhos unidos

Com vocação antiga para o voluntariado, Alex Pinheiro Machado Rodrigues criou um grupo de ajuda com os moradores do condomínio onde mora: arrecadação de vários itens
Com vocação antiga para o voluntariado, Alex Pinheiro Machado Rodrigues criou um grupo de ajuda com os moradores do condomínio onde mora: arrecadação de vários itens (foto: Arquivo pessoal)

Envolvido com trabalhos sociais há mais de 30 anos, o analista de sistemas Alex Pinheiro Machado Rodrigues, 50 anos, resolveu compartilhar a vocação para o voluntariado com os vizinhos do condomínio onde mora, no Jardim Botânico.

Em um grupo do WhatsApp que tem mais de 100 participantes, Alex é a ponte entre quem precisa e quem tem para doar. Promove doações de todo o tipo de artigo para comunidades carentes. Em casos específicos, são criadas vaquinhas e campanhas de arrecadação que envolvem a comunidade. Para o analista, a criação do grupo foi fundamental para facilitar a comunicação e fazer a conexão entre quem pode ajudar em determinada demanda.

As ações acontecem o ano todo e, em vez de diminuir durante o isolamento, acabaram aumentando. Alex conta que com mais tempo dentro de casa, muitos aproveitaram para selecionar roupas, móveis, brinquedos e objetos em geral que não usam mais e que podem ser úteis para outras pessoas.

Quem faz parte de grupos de risco e não pode se expor encontra nos vizinhos disposição para buscar e entregar as doações de forma segura. Assim, todos saem ganhando. No Dia das Crianças, por exemplo, o grupo conseguiu arrecadar muitos brinquedos seminovos, que, após uma triagem, foram levados para alegrar diversas crianças em comunidades carentes. No Natal, a ideia é fazer iniciativas semelhantes.

A solidariedade dos condôminos — muitos dos quais gostam de permanecer anônimos — vai proporcionar um Natal mais farto para uma comunidade do Vale do Amanhecer. Antes da pandemia, uma grande ceia comunitária era ofertada, o que não poderá acontecer nos mesmos moldes este ano, por questões de segurança.

O grande salão onde acontecia a ceia será substituído por mesas ao ar livre, e a quantidade de assistidos será reduzida. Será oferecido um almoço de Natal no dia 24, com distribuição de presentes para as crianças e cestas básicas para as famílias levarem para casa.

Os voluntários tomam todos os cuidados necessários para evitar aglomeração e aproveitam a oportunidade para conscientizar as pessoas sobre a importância de estar com as mãos sempre limpas, de manter o distanciamento social e de usar as máscaras de proteção. “No Dia das Crianças, uma amiga que faz máscaras compartilhou muitas conosco. E, para estimular as crianças, determinamos que só ganharia presente quem estivesse se cuidando, usando a máscara.”

Alex terá a função de coletar e arrecadar doações no condomínio onde mora e levar até o local. Muitos condôminos doam brinquedos usados, outros fazem mutirões e compram brinquedos novos. As bicicletas doadas recebem uma manutenção feita por um amigo de Alex, com preço simbólico, e chegam aos pequenos com pneus novos e freios funcionando.

O analista acredita que a demanda por auxílio só cresceu, muitas pessoas perderam suas ocupações informais e agora o número de desassistidos é maior. E esse aumento da necessidade foi o que motivou que ele e diversos amigos não desanimassem dos trabalhos sociais durante o isolamento.

Doando e recebendo o bem

A organização não governamental Salve a si, outra iniciativa da qual Alex faz parte, foi uma das instituições que precisou adaptar seu tipo de assistência. Responsável por uma fazenda onde cuida de 150 pessoas em situação de rua com dependência química, a ONG costumava distribuir cerca de 300 sopas por semana no Setor Comercial Sul, além de bolos, pães e roupas. Os voluntários também ofereciam cortes de cabelo e banho para quem precisava, mas a pandemia trouxe o impedimento desses trabalhos.

A solução foi modificar o formato e passar a distribuir as refeições em forma de quentinha, diminuindo o contato e, assim, as chances de contaminação pelo novo coronavírus.

Para Alex, criado na Doutrina Espírita, o trabalho voluntário faz parte da vida, assim como o emprego ou qualquer outra atividade essencial. E vendo de perto os benefícios que essas ações trazem, não somente para os outros, mas para quem pratica a caridade, convida cada vez mais amigos e colaboradores.

“Eu sei que o que fazemos é pequeno, mas muitas pessoas contam com essa ajuda, e isso é o que mais nos motiva. É uma situação de ganha/ganha. Eu recebo muito mais do que consigo dar e acho que é uma forma justa de retribuir tudo de bom que tenho na minha vida”, completa.

Quer ajudar?

Sanduíche solidário : entre em contato pelo Instagram do projeto (@sanduichesolidariobsb ) ou pelo telefone da voluntária Thaís Fread
(61) 99208-9043.

Por um sorriso : entre em contato pelo Instagram (@porumsorriso ) ou pelos telefones (61) 99184-9165 / (61) 98177-1270 /
(61) 99247-7567 / (61) 98452-7686.

Doar Faz Bem Solar : entre em contato pelo Instagram (@doarfazbemsolar ).

ONG Salve a s i: entre em contato pelos telefones (61) 99997-5010 (61) 98202-8916 ou pelo e-mail info@salveasi.org.br.

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