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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 04 de dezembro de 2021

O duplo fardo da desnutrição nos países de baixa e média rendas

O duplo fardo da desnutrição nos países de baixa e média rendasFoto: Correio Braziliense

Países latino-americanos e africanos fazem parte da lista: autores alertam para os impactos da má nutrição desde a infância e para a necessidade da participação de diferentes atores sociais para mudar esse quadro

Correio Braziliense - 17/12/2019 - 11:30:05

Relatório da OMS aponta que um terço dos países de baixa e média rendas enfrentam, ao mesmo tempo, desnutrição e obesidade. Autores ressaltam a importância de "grandes mudanças sociais" para lidar com o problema

Cada vez mais países de baixa e média rendas enfrentam um dos maiores desafios nutricionais da atualidade. Ao mesmo tempo, têm uma parcela significativa da população que não consome o mínimo indispensável de calorias e um outro grupo de pessoas, também considerável, que segue uma dieta de baixa qualidade, diretamente ligada ao excesso de peso. Esse “duplo ônus da desnutrição” é enfrentado por mais de um terço desses países, 48 de 126, segundo relatório divulgado ontem na revista médica britânica The Lancet.


 (John Vizcaino/Reuters - 19/3/14)

Autor principal do artigo, Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para Saúde e Desenvolvimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que o mundo está “diante de uma nova realidade nutricional”. “Não podemos mais caracterizar os países como de baixa renda e subnutridos, ou de alta renda e preocupados apenas com a obesidade. Todas as formas de desnutrição têm um denominador comum: sistemas alimentares que não fornecem a todas as pessoas saúde, segurança, preço e sustentabilidade”, resume.

Países latino-americanos e africanos fazem parte da lista: autores alertam para os impactos da má nutrição desde a infância e para a necessidade da participação de diferentes atores sociais para mudar esse quadro  (Stefan Heunis/AFP - 30/6/16)

Para a equipe responsável pelo relatório, essa mudança está ligada à rápida transição alimentar vivida nesses países. Entre os principais fatores está a combinação da redução da prática de atividades físicas com o acesso facilitado aos alimentos e bebidas processados, ricos em açúcares, gorduras e sal. “Essas mudanças incluem o desaparecimento dos mercados de alimentos frescos, o aumento de supermercados e o controle da cadeia alimentar por supermercados e empresas globais de alimentos e agricultura em muitos países”, completa Barry Popkin, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e também autor do relatório.


A transição tem sido tão rápida que o mesmo indivíduo pode conhecer os dois problemas ao longo da vida. Dessa forma, a mesma criança pode ser obesa e ter um atraso no crescimento devido a uma dieta rica em calorias e pobre em nutrientes — por exemplo, os fast foods. A OMS estima que 2,3 bilhões de crianças e adultos no mundo estão com sobrepeso ou obesidade, e mais de 150 milhões de crianças sofrem atraso de crescimento devido à alimentação inadequada. Além disso, dietas ruins são responsáveis pela morte de 22% dos adultos no mundo, de acordo com o relatório.



Os autores usaram dados de pesquisas de países de baixa e média rendas nas décadas de 1990 e 2010 para estimar quais enfrentam a carga dupla de desnutrição. Na década de 1990, foram 45 países. Na atual, são 48. Ainda de acordo com o relatório, essa sobreposição de problemas nutricionais afeta cerca de 35% das famílias em alguns países, com níveis particularmente altos em Azerbaijão, Guatemala, Egito, Comores e São Tomé e Príncipe.



Infância
Barry Popkin chama atenção para o impacto desse problema nutricional em bebês e crianças. A exposição à desnutrição no início da vida, seguida de sobrepeso a partir da infância, aumenta o risco de uma série de doenças não transmissíveis. Dessa forma, o duplo fardo nutricional tem se transformado em significativo impulsionador das emergentes epidemias globais de diabetes tipo 2, pressão alta, derrame e doença cardiovascular.



“Os problemas emergentes da desnutrição são um forte indicador de que pessoas não estão protegidas dos fatores que levam à má alimentação. Os países mais pobres, de baixa e média rendas, estão passando por uma rápida transformação na maneira como as pessoas comem, bebem e se deslocam para o trabalho, para casa, como usam o transporte e se divertem”, completa Barry Popkin.



Para reverter essa tendência, são necessárias “grandes mudanças sociais”, aponta o relatório, que defende “novas políticas alimentares, cujo principal objetivo é a alimentação saudável”. Os autores exortam os governos, as Nações Unidas, a sociedade civil, os acadêmicos, a mídia, o setor privado e as plataformas econômicas, entre outras instituições, para lidar com o problema.



“Dada a economia política dos alimentos, a mercantilização dos sistemas alimentares e os crescentes padrões de desigualdade em todo o mundo, a nova realidade nutricional exige uma comunidade ampliada de atores que trabalhem de maneiras mutuamente reforçadas e interconectadas em escala global”, justifica Francesco Branca. “Sem uma profunda transformação do sistema alimentar, os custos econômicos, sociais e ambientais da inação impedirão o crescimento e o desenvolvimento de indivíduos e sociedades nas próximas décadas”, alerta.



Palavra de especialista

Combate em várias frentes
“A publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o duplo ônus da desnutrição ocorre após 12 meses de artigos da Lancet que exploram a nutrição em todas as suas formas. Com esses e outros artigos em todos os periódicos da Lancet ao longo de 2019, fica claro que a nutrição e a desnutrição precisam ser abordadas de várias perspectivas e, embora algumas vezes os resultados tenham convergido, ainda há trabalho a ser feito para entender as múltiplas manifestações da desnutrição. Com seis anos restantes na Década de Ação das Nações Unidas sobre Nutrição, essa série e comentário definem a direção futura necessária para alcançar a meta global de erradicar a fome e prevenir a desnutrição em todas as suas formas.”

Richard Horton, editor-chefe da revista The Lancet




22%
das mortes de adultos no mundo estão ligadas à ingestão de dietas ruins, segundo a OMS




"Sem uma profunda transformação do sistema alimentar, os custos econômicos, sociais e ambientais da inação impedirão o crescimento e o desenvolvimento de indivíduos e sociedades nas próximas décadas”
Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para Saúde e Desenvolvimento da Organização Mundial da Saúde





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