O que muda quando uma empresa se senta à mesa do Pacto Global da ONU

Companhias são chamadas a ter papel mais ativo na transição para a sustentabilidade; Em Portugal, a ONU News conversou com representantes da Bentley Systems, parceira da Rede do Pacto Global das Nações Unidas no país

O que muda quando uma empresa se senta à mesa do Pacto Global da ONU
O que muda quando uma empresa se senta à mesa do Pacto Global da ONU

Sara De Melo Rocha/agência Onu News - 28/01/2026 07:26:24 | Foto: UN Global Compact Portugal

Quando a empresa Bentley Systems chegou a Portugal, em 2017, estava longe de imaginar que se sentaria à mesa, onde são tomadas grandes decisões globais sobre clima, água e sustentabilidade. Hoje, a companhia integra a rede do Pacto Global da ONU e assume um papel ativo num debate que vai muito além da tecnologia.

O trabalho da Bentley Systems passa por desenvolver software para desenhar e gerir infraestruturas, um setor com um peso considerável na crise climática, como explicou Rodrigo Fernandes, diretor de sustentabilidade global da empresa. Para ele, “todas as infraestruturas no mundo são responsáveis por cerca de 79% ou 80% das emissões de gases de estufa”.

O impacto do Pacto Global
Entrar na rede do Pacto Global da ONU não mudou o que a empresa faz, mas alterou a velocidade, a ambição e o lugar onde passou a discutir sustentabilidade.

“A Global Compact Portugal tornou-se instrumental principalmente a partir do momento em que começámos a ficar mais ativos na Conferência Mundial de Conferências do Clima, a COP. Não houve uma transformação, mas mais uma aceleração”, disse à ONU News.

Palco e diálogo
Para além da aceleração interna, a parceria trouxe acesso a uma rede global de conhecimento e decisão.

“Nós tivemos acesso a palcos e a diálogos, conversações com entidades que até então nunca tínhamos tido. Isto foi uma aprendizagem muito forte, porque aprendes imenso com o que os outros fazem”, explica.

Um dos aspetos mais valorizados por esta empresa foi a possibilidade de participação ativa nas Conferências das Partes sobre o Clima, COP, através da delegação portuguesa.

“Para empresas que querem perceber verdadeiramente o que é a COP e contribuir para a agenda, a Global Compact é o parceiro ideal.”

Menos discurso, mais decisão
O impacto não ficou apenas no posicionamento. A ligação à rede obrigou a empresa a ser mais concreta. “Foi uma aceleração naquilo que são os aspetos ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS.”

A empresa ganhou também maior visibilidade nas áreas da gestão e da ação climática através das suas tecnologias, num contexto em que as empresas são cada vez mais pressionadas a apresentar resultados concretos e não apenas intenções.

Empresa premiada
Os prémios ajudam a contar esta história. Um dos reconhecimentos mais recentes distingue um software da Bentley Systems para cálculo de carbono em infraestruturas. Outro premeia um projeto de gestão de água em São Paulo, Brasil onde a tecnologia da empresa é usada para detetar fugas e reduzir perdas.

Rodrigo Fernandes mostra satisfação pelos resultados e garante que a rede do Pacto Global da ONU também teve um papel no processo.

“São dois prémios que são o resultado de muito trabalho, para o qual, obviamente, toda a colaboração que nós temos com entidades como a Global Compact acabam por ajudar”, conta.

Pacto Global da ONU em 164 países
A Rede do Pacto Global é a única iniciativa empresarial das Nações Unidas e nasceu para encorajar empresas a adotar políticas de responsabilidade social, corporativa e sustentabilidade.

Hoje, a rede está presente em 164 países, tem redes formalizadas em 70 países, incluindo Portugal que conta com uma rede de 215 empresas.

Como empresas se mantêm relevantes?
Em entrevista à ONU News, a diretora executiva do Pacto Global da ONU em Portugal, Anabela Vaz Ribeiro, explica que a ação dos governos e das organizações supranacionais não era suficiente para fazer esta transição, era preciso associar as empresas no processo.

“As empresas para se manterem relevantes, para se conseguirem trabalhar para estas grandes cadeias de valor internacionais, não têm grandes alternativas a não ser, de facto, trabalhar sobre redução dos resíduos, economia circular, resiliência ou redução da utilização da água, redução da utilização da energia e cálculo da pegada de carbono”.

10 anos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Na semana passada, o Pacto Global da ONU assinalou, em Lisboa, os 10 anos da Aliança ODS Portugal com uma conferência dedicada ao papel das empresas na concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Uma agenda que, como sublinha Anabela Vaz Ribeiro, funciona como eixo mobilizador à escala global.

“Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são a agenda mobilizadora global, quer para governos, quer para outros stakeholders e naturalmente para as empresas. E aquilo que nós no Global Compact fazemos diariamente é tentar traduzir esses objetivos globais naquilo que são ações diretas para as empresas trabalharem”.

Num mercado cada vez mais atento ao impacto real das empresas, a adesão ao Pacto Global surge menos como um selo de intenção e mais como um teste à capacidade de transformar compromissos globais em ação concreta.

*Correspondente da ONU News em Lisboa.

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