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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

O voto pelo desempenho econômico

O voto pelo desempenho econômicoFoto: Porto Felipe Dupouy/VEJA

Professora da FGV, Daniela Campello destaca que os ajustes na economia em 2021 podem traçar a derrocada ou a ascensão de Bolsonaro em 2022

Por Daniela Campello - Veja.com - 06/01/2021 - 15:12:05

2020 foi marcado pelo desafio de manter o equilíbrio entre a pandemia, o isolamento social e a economia. Depois do auxílio emergencial concedido pelo governo – que, além de contribuir para uma boa avaliação de Jair Bolsonaro, ainda foi capaz de influir nos índices de pobreza do país – chegou a hora de o presidente decidir. Ou cortará essa ajuda financeira de uma vez, com o grande risco de ver sua reputação construída em cima disso desmoronar, ou perderá o apoio do mercado, que pressiona por ajustes fiscais.

No artigo abaixo, a PhD em Ciência Política pela Universidade da California em Los Angeles e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Daniela Campello, destaca que existe uma alternativa que pode carimbar Bolsonaro para 2022: um bom desempenho mundial de commodities e a recuperação da economia do país, que possivelmente minimizariam os impactos pelo corte do auxílio. Se isso acontecer, Bolsonaro sairia com uma aprovação superior, podendo se favorecer deste cenário nas próximas eleições. O problema todo é sua característica autoritária e a possibilidade de se impor sobre instituições democráticas. O que foi 2020 e o que será 2021?

Voto econômico

*Por Daniela Campello

Em várias democracias do planeta, eleições são um referendo no desempenho econômico de governos. A percepção dos eleitores sobre o governo, principalmente em países em desenvolvimento, é fortemente influenciada pelas condições materiais da vida, em particular por emprego e poder de compra. Entre os pleitos, a popularidade dos presidentes é um bom indicativo da percepção de bem-estar dos cidadãos.

Depois de uma forte queda nos primeiros meses do seu governo, um fenômeno bastante regular em quase todos os países, a popularidade de Jair Bolsonaro passou por um período curto de recuperação carregado pelas expectativas — amplamente alimentadas pela mídia — em relação a uma virada da economia no final de 2019. Não chegou a ser surpreendente, nesse contexto, que, com a falta de boas notícias na esfera econômica e a frustração dessas expectativas, sua popularidade tenha começado 2020 caindo fortemente.

A tendência de queda acentuou-se, como seria de esperar, com o início da pandemia da Covid-19. A partir de junho, contudo, essa tendência se reverteu. Esta reversão surpreendeu a muitos, se não por outras razões, por conta da gestão notoriamente desastrosa da pandemia por parte do presidente e de seu governo.

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A surpresa, no entanto, tem uma explicação: o tamanho da transferência de renda realizada por conta da epidemia não foi imediatamente compreendido. Tanto a crise quanto o remédio não encontram paralelo na história, o que tornou seus efeitos muito pouco óbvios ex-antes. Em maio, sob pressão do Congresso, o governo passou a conceder um auxílio emergencial entre R$ 600 e R$ 1.200 por família a um custo mensal para o governo que superou o gasto anual com o programa Bolsa Família. Segundo inúmeros estudos, este auxílio jogou a pobreza do país para os níveis mais baixos em quarenta anos e reduziu significativamente a desigualdade de renda, em alguns casos mais que compensando a perda de renda do trabalho. Nenhum país em níveis comparáveis de desenvolvimento foi tão longe. Considerando o tamanho dessas transferências, o aumento da popularidade do presidente torna-se bem menos intrigante.

Desde outubro, contudo, o valor do auxílio emergencial foi reduzido à metade. Como se poderia esperar, a maioria das pesquisas recentes mostram que a aprovação de Bolsonaro começa a dar sinais de arrefecimento. Hoje, não há qualquer indicação da manutenção deste auxílio em 2021, ao mesmo tempo em que aumentam as pressões dos agentes econômicos por algum sinal de ajuste fiscal e estabilização do endividamento do país.

Neste cenário, há alguns desfechos prováveis, dependendo da trajetória de recuperação da economia mundial nos próximos dois anos. É possível que, como em crises anteriores, essa recuperação seja lenta e as condições externas relevantes para o Brasil — preço de commodities e juros internacionais — “andem de lado”, ou seja, nem melhorem ou piorem muito. Neste cenário, o governo Bolsonaro estará diante da decisão difícil de cortar o auxílio, perdendo apoio popular mas retendo a confiança dos investidores, ou mantê-lo nas atuais condições e perder a confiança que ainda detém no mercado. No primeiro caso, a incerteza do colapso social que se aproxima é muito preocupante. No segundo, a perspectiva de uma crise de confiança que se estenda para a economia real pode até mesmo invalidar os benefícios trazidos pelo auxílio. A história sul-americana mostra que, em períodos em que a “sorte” não ajuda um governante ou, até mesmo, o atrapalha, desfechos de crises dependem fundamentalmente dos méritos do governo. No caso do governo Bolsonaro, esta não é uma conclusão alvissareira.

O cenário alternativo é o de uma recuperação mundial exuberante, refletida em um miniboom de commodities, ao estilo do que se viu pós-crise de 2008. Caso isto ocorra, o ajuste fiscal ficará mais fácil, e a melhora da economia mitigaria o sofrimento imposto pela eventual decisão de reduzir ou, até mesmo, cortar o auxílio emergencial. Dependendo da intensidade da bonança, com pouco ou nenhum mérito próprio, a sorte pode levar Bolsonaro a níveis de aprovação mais altos e a perspectivas favoráveis em 2022.

Caso este cenário prevaleça, é crítico lembrar que é exatamente em contextos de forte apoio popular por conta de uma economia pujante, que presidentes com pendores autoritários sentem-se à vontade para expandir seu poder sobre instituições democráticas. Se com 40% de popularidade Bolsonaro já vinha incentivando protestos antidemocráticos e aventuras militares, e avançando sobre instituições de estado com fins persecutórios, pode-se imaginar até onde ele poderia ir com os 83%, por exemplo, com que o ex-presidente Lula terminou seu segundo mandato.

* Daniela Campello é professora da FGV e Ph.D em Ciência Política pela Universidade da California em Los Angeles

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