ONU premia rede brasileira voltada à preservação do cerrado

O cerrado já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa

ONU premia rede brasileira voltada à preservação do cerrado
ONU premia rede brasileira voltada à preservação do cerrado

Mauren Luc-curitiba, Pr (folhapress) - 26/08/2026 17:10:11 | Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília

A ONU (Organização das Nações Unidas) premiou, nesta quarta-feira (26), uma iniciativa brasileira como 1 dos 3 exemplos mundiais de restauração de ecossistemas degradados. Trata-se da rede Araticum, voltada à preservação do cerrado.

O anúncio foi feito pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). Os ganhadores foram revelados na COP17 (conferência para o combate à desertificação), realizada na Mongólia.

O prêmio World Restoration Flagship (Referência Mundial em Restauração) também foi entregue a iniciativas em curso em Sahel, na África, e na Arábia Saudita, regiões que, assim como o Brasil, enfrentam seca, desertificação e impactos das mudanças climáticas. Esta é a segunda vez que o país tem um projeto em restauração escolhido no prêmio.

"Investir em terras saudáveis é uma das nossas defesas mais fortes contra essas ameaças", diz Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma. "As três iniciativas mostram que a restauração de ecossistemas traz benefícios significativos para todos, desde a segurança alimentar, novos empregos e maior resiliência para milhões de pessoas."
O cerrado já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, em grande parte devido à conversão de terras em larga escala, de acordo com Inger. A destruição do bioma, continua ela, prejudica os povos indígenas, a biodiversidade, a produção de alimentos, a disponibilidade de água e a resiliência climática.

Criada em 2020, a Araticum - Articulação pela Restauração do Cerrado monitora 27 mil hectares de cerrado. Sua atuação abrange o Distrito Federal e os estados da Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, São Paulo e Tocantins.

O projeto envolve regeneração natural, semeadura direta, restauração ecológica e sistemas agroflorestais com espécies nativas. As ações combinam recuperação ecossistêmica de florestas, savanas e campos com fortalecimento socioeconômico e autonomia das populações locais.

Ao todo, o plano é recuperar 2 milhões de hectares do bioma até 2030, uma área equivalente ao estado do Sergipe.

A Araticum conta com 180 organizações, com representantes de indígenas, quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações sociais e instituições governamentais e privadas.

"Esse reconhecimento mostra que nós, povos e comunidades tradicionais, que cuidamos desse bioma todos os dias, deixamos de ser apenas um indicador e passamos a ser os verdadeiros protagonistas desse processo", afirma Fabrícia Santarém, coordenadora da Araticum.

Carol Sacramento, secretária-executiva da Araticum, diz que a visibilidade gerada pelo prêmio favorece a criação de políticas públicas e investimentos. "A restauração ecossistêmica é uma das ferramentas mais eficazes para garantir segurança hídrica, resiliência climática e redução das desigualdades sociais."
O cerrado tem papel fundamental de regulação hídrica das principais bacias hidrográficas do país, além de sequestro e estocagem de carbono. Porém, de acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o avanço da conversão e da fragmentação do solo já reduziu em 50% sua vegetação nativa.

"Restaurar o cerrado vai muito além do plantio: trata-se de recompor o funcionamento e os serviços dos ecossistemas, gerando trabalho e renda dignos, resgatando a identidade para quem vive no território", diz Daniel Vieira, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Segundo o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, o prêmio "demonstra que o Brasil está reconstruindo uma política ambiental capaz de aliar conservação da biodiversidade, ação climática e desenvolvimento".

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