A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão.
Diário Do Povo Online - 16/06/2026 18:56:14 | Foto: Chen Yufan
A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, defendeu que a nova etapa da cooperação entre Brasil e China avance para além dos portos e das grandes capitais, alcançando cidades do interior com potencial industrial, logístico, educacional e tecnológico.
Ela fez as observações em uma entrevista exclusiva ao Diário do Povo durante o Fórum de Cooperação Brasil-China na Nova Era, realizado em Juiz de Fora em meio às celebrações dos 176 anos do município mineiro. O evento reuniu mais de 300 representantes de governos, empresas, universidades e instituições culturais dos dois países.
Localizada em Minas Gerais, em uma região estratégica entre os eixos metropolitanos do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, Juiz de Fora busca se consolidar como polo de desenvolvimento regional. Historicamente associada à indústria têxtil, ferroviária e manufatureira, a cidade já foi chamada de “Manchester do Brasil” e agora procura reposicionar sua economia diante das novas cadeias produtivas globais.
“Quando as pessoas discutiam a cooperação Brasil-China no passado, pensavam imediatamente em portos e grandes cidades. Hoje, queremos que a China descubra o Brasil para além de suas grandes cidades costeiras e compreenda melhor o potencial de desenvolvimento de nossas regiões interiores”, afirmou Margarida Salomão ao Diário do Povo.
Segundo a prefeita, o fórum teve como objetivo aproximar Juiz de Fora das oportunidades abertas pelo crescimento econômico chinês, ao mesmo tempo em que permite a empresas, universidades e instituições da China conhecerem com mais profundidade o interior brasileiro.
“O fórum busca conectar Juiz de Fora às oportunidades emergentes do crescimento econômico da China, ao mesmo tempo em que permite que empresas, universidades e instituições chinesas compreendam melhor o interior do Brasil”, declarou.
A cidade, de acordo com Margarida, combina posição geográfica relevante, influência regional, base educacional robusta e capacidade de inovação tecnológica. Para a prefeita, esses fatores tornam Juiz de Fora um ponto importante para a interiorização da cooperação bilateral.
“Esperamos aproveitar a cooperação Brasil-China para fortalecer a posição de nossa cidade nas cadeias produtivas regionais, criando novas oportunidades de emprego e inovação para nossa juventude”, disse.
Logística no centro da cooperação
Questionada sobre o tema que mais atraiu atenção durante o fórum, Margarida respondeu de forma direta: “Logística”.
Na avaliação da prefeita, a infraestrutura logística é uma condição essencial para o comércio bilateral, mas o desafio estratégico está em fazer essa capacidade chegar de forma integrada ao interior do país. A ideia é conectar portos, transporte marítimo e redes de transporte terrestre para reduzir custos, ampliar a competitividade e estimular polos produtivos fora das capitais.
“Nos últimos anos, empresas chinesas, incluindo a COSCO Shipping, têm ampliado de forma constante os corredores logísticos entre Brasil e China. Ao promover uma melhor integração entre portos, transporte marítimo e redes de transporte interior, elas oferecem apoio crucial à cooperação econômica e comercial entre nossos dois países”, afirmou.
Margarida destacou que, para cidades como Juiz de Fora, uma ligação eficiente com o Porto do Rio de Janeiro pode viabilizar corredores multimodais e estimular a instalação de cadeias industriais locais.
“Para cidades como Juiz de Fora, estabelecer uma conexão eficiente com o Porto do Rio de Janeiro nos permite desenvolver corredores de transporte multimodal, que reduzem drasticamente os custos logísticos e estimulam polos locais de manufatura”, acrescentou.
A prefeita também citou a atuação da empresa chinesa Anjun Logistics, que investiu mais de R$ 750 milhões no Brasil, emprega mais de 2,2 mil trabalhadores locais e estruturou uma rede logística nacional. Segundo ela, a companhia também contribuiu para aproximar Juiz de Fora de Yueyang, cidade da província chinesa de Hunan.
“No ano passado, eles até ajudaram a facilitar uma carta de intenção para estabelecer relações de cidades-irmãs entre Juiz de Fora e Yueyang, na província chinesa de Hunan, aproximando duas cidades interiores por meio da força da logística”, afirmou.
Em outubro do ano passado, Margarida liderou uma delegação a Yueyang. A prefeita relatou ter ficado impressionada com o dinamismo econômico, a infraestrutura moderna e a gestão urbana chinesa.
“Yueyang é uma cidade notavelmente vibrante”, disse. “Vimos de perto a velocidade do desenvolvimento da China e os avanços que as cidades chinesas fizeram em planejamento industrial, infraestrutura e serviços públicos.”
Interiorização da relação Brasil-China
Para Margarida, a cooperação com cidades chinesas pode ser aprofundada em áreas como energia hidrelétrica, saúde, comércio exterior, educação e inovação tecnológica. A prefeita afirmou que o interesse por essa agenda não se limita a Juiz de Fora.
O fórum também contou com prefeitos de outros municípios do interior, como Viçosa e Leopoldina, em Minas Gerais, e Barra do Piraí, no Rio de Janeiro. Segundo o relato apresentado, os gestores demonstraram interesse em conectividade logística, modernização industrial, inovação tecnológica e formação de talentos.
A participação dessas cidades indica uma tentativa de ampliar a relação Brasil-China para além do comércio tradicional de commodities e dos grandes centros econômicos. Na avaliação de Margarida, municípios do interior podem se beneficiar de parcerias direcionadas, capazes de gerar empregos, inovação e novas oportunidades para jovens trabalhadores.
Educação e inovação
Ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora, Margarida também destacou a educação como um dos campos mais promissores da cooperação bilateral. Para ela, a experiência chinesa em expansão do ensino superior, inovação tecnológica e modernização urbana pode abrir caminhos para novas parcerias acadêmicas.
“O que mais admiro na China são as amplas transformações alcançadas na educação, ao lado de seu rápido progresso na construção urbana, na inovação tecnológica e na expansão do ensino superior”, afirmou.
A prefeita defendeu ainda a ampliação do ensino da língua chinesa no Brasil, especialmente para jovens de famílias trabalhadoras, como instrumento de inclusão e acesso a intercâmbios internacionais.
“Aprender chinês é uma prioridade para nós. Esperamos que mais jovens de famílias trabalhadoras comuns possam ter acesso ao ensino da língua chinesa, abrindo oportunidades mais amplas por meio de intercâmbios internacionais”, declarou.
Ao final da entrevista, Margarida voltou ao tema central de sua visão estratégica: a necessidade de levar a cooperação internacional ao interior do Brasil.
“Quando a cooperação se estende da costa ao interior, dos portos às fazendas, mais cidades e comunidades brasileiras poderão compartilhar as oportunidades trazidas pelo comércio internacional e pela modernização industrial”, afirmou.
Segundo a prefeita, a relação entre Brasil e China passa por uma transformação profunda, deixando de se concentrar apenas no comércio de produtos primários para incluir educação, ciência, tecnologia, logística e inovação.
“Já estamos vendo uma evolução profunda nas relações Brasil-China. Ela está se expandindo do comércio tradicional de commodities para educação, ciência, tecnologia, logística e inovação. As cidades do interior antes negligenciadas no mapa, ao lado de jovens brasileiros ansiosos para se conectar com seus pares chineses, estão se tornando os novos participantes impulsionadores das relações Brasil-China”, concluiu.
Fonte: Brasil247
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