Projeto na Câmara dos Deputados quer punir uso da Justiça para perseguir mulheres

Projeto na Câmara quer punir uso da Justiça para perseguir mulheres

Projeto na Câmara dos Deputados quer punir uso da Justiça para perseguir mulheres
Projeto na Câmara dos Deputados quer punir uso da Justiça para perseguir mulheres

Bárbara Sá São Paulo, Sp (folhapress) - 22/04/2026 17:15:22 | Foto: Câmara dos Deputados

Um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados quer reconhecer o uso abusivo da Justiça como forma de violência contra a mulher. A proposta surge em meio a casos em que ex-companheiros acionam repetidamente o Judiciário para intimidar vítimas.

Apresentado em dezembro de 2024 pelo deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), o texto altera a Lei Maria da Penha para incluir a chamada violência processual como uma das formas de violência doméstica.

A proposta define a prática como condutas abusivas no âmbito judicial, como a apresentação de ações e recursos sem fundamento, com o objetivo de prolongar processos, desgastar a vítima e limitar seu acesso à Justiça.

Na justificativa, o autor afirma que agressores têm utilizado o sistema judicial como extensão do controle exercido sobre a mulher, por meio de disputas repetitivas e incidentes infundados que mantêm o vínculo entre as partes mesmo após o fim da relação.

Hoje, esse tipo de conduta não é tipificado de forma específica na legislação. Na prática, magistrados recorrem a instrumentos já existentes, como o reconhecimento do abuso do direito de ação e a aplicação de multa por litigância de má-fé, para tentar conter esse tipo de comportamento.

Apesar de já ter recebido parecer favorável, o projeto não avançou desde o ano passado e atualmente aguarda a designação de relator na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

O debate ocorre em um contexto em que especialistas apontam o uso do sistema de Justiça como uma extensão da violência doméstica. Em alguns casos, homens passam a acionar repetidamente a vítima na esfera judicial após o fim do relacionamento, incluindo ações contra familiares, advogados e pessoas próximas.

Em Minas Gerais, um policial militar foi condenado por perseguir a ex-companheira em um caso que incluiu, conforme a decisão, o uso de medidas judiciais para intimidar a vítima e enfraquecer sua rede de apoio.

Após a repercussão do caso, outras mulheres passaram a procurar a assistente social Lívia Soares, que atua no apoio a vítimas de violência doméstica em Ipatinga. Os relatos apresentam padrões semelhantes de comportamento.

Soares diz já ter atendido mais de 600 mulheres e relata que, em alguns casos, há repetição de estratégias de intimidação, especialmente quando os envolvidos ocupam posições de poder. Ela afirma que passou a ser alvo após atuar como testemunha em um dos processos.

Os relatos reunidos por ela incluem violência psicológica, ameaças e tentativas de controle, além do uso de processos judiciais como forma de pressão. Há ainda registros de ameaças de divulgação de conteúdo íntimo e de abordagens indiretas a pessoas próximas.

O apoio às vítimas envolve acompanhamento dos casos, orientação e definição de estratégias para garantir proteção. "Muitas vezes, o processo vira uma continuação da violência que começou dentro de casa", afirma.

A leitura de que a violência se desloca para o Judiciário também aparece entre advogadas que atuam na defesa de mulheres. Para a presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, Maíra Recchia, há uma mudança no espaço em que a violência ocorre.

"O que a gente percebe é que muda a arena da violência. Ela sai de casa e vai para o processo judicial. Quando você afasta o agressor do ambiente doméstico, o processo vira um ringue de batalha entre as partes", afirma.

Ela observa que, além da abertura sucessiva de ações, há a reprodução de estereótipos de gênero dentro dos próprios processos. "Você tem uma série de situações em que a mulher passa a ter que se defender o tempo todo. E, no bojo do processo, aparecem narrativas como a de que ela é louca, desequilibrada, exagerada, que não é uma boa mãe", diz.

Na avaliação da advogada, a ausência de uma tipificação específica dificulta a resposta do sistema de Justiça. Hoje, a responsabilização depende de instrumentos já existentes, como a litigância de má-fé, o que limita o alcance das decisões.

Ela ressalta que o direito de ação deve ser preservado, mas não pode ser utilizado como instrumento de perseguição. "O direito de ação é garantido constitucionalmente. Mas, quando existe abuso desse direito e o processo passa a ser um instrumento de perseguição, essa conduta precisa ser enfrentada", afirma.

Para a conselheira do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e ouvidora nacional da mulher, desembargadora Jaceguara Dantas da Silva, o comportamento pode ser caracterizado como abuso quando instrumentos legais passam a ser usados com finalidade de intimidação.

"Quando a pessoa passa a usar ações, recursos ou notificações de forma repetida para intimidar, desgastar ou manter contato com a vítima, isso deixa de ser exercício regular de direito."
A ausência de classificação legal impede a produção de dados oficiais sobre o fenômeno. No Conselho Nacional de Justiça, não há levantamento específico sobre casos de violência processual, embora decisões judiciais já utilizem o protocolo de julgamento com perspectiva de gênero para analisar situações de desigualdade e violência.

Comentários para "Projeto na Câmara dos Deputados quer punir uso da Justiça para perseguir mulheres":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório