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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 04 de dezembro de 2021

Quais os motivos e como amenizar impactos de possível greve de caminhoneiros no Brasil?

Quais os motivos e como amenizar impactos de possível greve de caminhoneiros no Brasil?Foto: Agência Sputnik de Noticias

Caminhoneiros bloqueiam parcialmente a rodovia Castello Branco, em São Paulo, como parte de uma paralisação nacional protestando contra o alto preço do combustível e baixo valor na tabela de fretes

Por Luiza Ramos, Felipe Camargo - Agência Sputnik De Noticias - 25/10/2021 - 08:09:32

A Sputnik Brasil conversou com os especialistas Ivan Whately e Sergio Ejzenberg, para compreender os impactos de uma greve de caminhoneiros, como resolver questões de logística e transportes no Brasil e o marco regulatório das ferrovias.

Entidades que representam os caminhoneiros se reuniram no sábado (16) e deram prazo de 15 dias para que o governo de Jair Bolsonaro atenda as reivindicações da categoria. Caso contrário, os motoristas prometem parar a partir de 1º de novembro.

Levando em conta o atual cenário e sabendo do impacto que as greves de caminhoneiros sempre causam na sociedade e no abastecimento de bens e serviços, combustíveis e diversas outras áreas, a Sputnik Brasil conversou com Ivan Whately, vice-presidente de Atividades Técnicas do Instituto de Engenharia de São Paulo, e Sergio Ejzenberg, engenheiro e mestre em Transportes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, para compreender os motivos deste impacto.

Motivos e impactos de uma possível greve de caminhoneiros

"Sem querer ser alarmista, nós estamos frente a uma situação muito caótica [...]", comentou Ivan Whately.

Ele ainda observou que, além do problema do preço do combustível, há a questão da qualidade das estradas, que muitas vezes são estradas que não estão pavimentadas.

"Em termos de planejamento de infraestrutura do país, deveria haver maior cuidado por parte das nossas autoridades em diversificar os modais de transportes na matriz logística principalmente, e isso não está ocorrendo. Existe uma preponderância do uso do caminhão em detrimento do uso da ferrovia, e mesmo da hidrovia. Hoje nós temos em termos de malha ferroviária em torno de 20 mil quilômetros de ferrovia [...] São 210 mil quilômetros de rodovias, o Brasil cuidou muito mais do modal rodoviário do que do ferroviário", destacou.

Por sua vez, Sergio Ejzenberg destacou que o "preço do óleo diesel, aparentemente, é o estopim da greve, ou ameaça de greve, dos caminhoneiros, contudo, o caminhoneiro sabe que o preço do diesel não é a causa do problema dele. Basta ter trabalho, ter demanda, que ele embute o preço mais caro no frete e continua trabalhando".

"O problema é que não há trabalho para todos, há mais caminhões à disposição do que serviço a ser feito. É a crise econômica que destrói a capacidade de sustento do caminhoneiro. Pode zerar o preço do diesel, sem frete continua a falta de sustento. Na Venezuela, praticamente zeraram o preço do combustível, virou um preço irrisório, e mesmo assim houve a destruição total dos empregos e trabalho de todos, inclusive dos caminhoneiros. O problema é crise econômica, não é custo do combustível, que é resultado da crise, porque a instabilidade, que esse governo está causando com suas medidas estapafúrdias, acaba promovendo a desvalorização do real em face ao dólar e aumento, portanto, cada vez maior não só do combustível, como de todos os insumos", explicou Sergio Ejzenberg.

De acordo com Ivan Whately, uma possível greve de caminhoneiros impacta muito, primeiramente porque há uma grande adesão.

O especialista ressalta que há aproximadamente 2,2 milhões de caminhões, sendo que cerca de 1,3 milhão são de empresas e 700 mil são de autônomos, conseguindo uma grande adesão em praticamente todos os eventos promovidos.

"As consequências na logística são diretamente proporcionais à adesão que eles conseguem, e hoje no Brasil 82% das cargas que circulam nas estradas, vias urbanas, é transportada por caminhões [...] se excluirmos os grãos e minérios, assim mesmo eles transportam 60% das cargas", observou Ivan Whately.

Além disso, ele ressaltou que uma paralisação de caminhões pode parar o país, e eles estão desmotivados porque o diesel deve impactar muito no custo, devendo chegar a 30% do custo de logística.

"Estamos muito na mão dos caminhoneiros. O Brasil, durante o seu desenvolvimento, não teve uma preocupação muito grande em diversificar os modais de transporte. Deveria ter investido em ferrovias, hidrovias, para não ficar tanto na dependência de apenas um modo de transporte", enfatizou.

Além disso, há uma situação "muito séria" que é a de planejamento de transporte no país, onde deve ser equacionada uma forma que preveja o uso mais equilibrado de todos os modos de transporte.

Medidas para amenizar impactos de uma possível greve

No caso das ferrovias, há um crescimento muito grande de projetos que estavam "parados", contudo, os investimentos ferroviários são de longo prazo.

"Este ano foi aprovado um marco regulatório das ferrovias. Isso também vai trazer um grande impulso para poder melhorar a quantidade de quilômetros de ferrovias no Brasil, porque foi introduzida uma possibilidade de administração de concessão, que é através de autorização. Isso diminui muito a burocracia das licitações e da transferência de uso de uma ferrovia pela iniciativa privada", afirmou Ivan Whately.

Ele também recordou que estas ferrovias sempre são consideradas um modo de transporte que é de grande capacidade, transportando mais toneladas do que um caminhão, além de nunca trabalharem isoladamente, trabalhando sempre com interconexão, integração ou intermodais.

Greve dos caminhoneiros contra a fase vermelha na rodovia Castelo Branco, na entrada da marginal Tietê, em São Paulo.

Contudo, o caminhão não vai perder sua importância, mesmo se crescer a ferrovia, "porque as ferrovias transportam em grandes quantidades, e para a distribuição nos grandes centros e grandes cidades, sempre necessitam de transferir a carga para um outro modo de menor capacidade, que é o caminhão, e este levar ao destino", explicou Ivan Whately.

"Em termos de planejamento, devemos buscar esse equilíbrio da matriz de transporte [...] Dotar o país de uma infraestrutura que seja viável o ano todo, para todos os modos de transporte", explicou.

Proposta do Bolsonaro aos caminhoneiros

Dentre as reivindicações dos caminhoneiros está a redução do preço do diesel e revisão da política de preços da Petrobras. Além disso, os caminhoneiros citam que a proposta de Bolsonaro de pagar o auxílio de R$ 400 é "ridícula".

Para Sergio Ejzenberg, o valor de R$ 400 "é uma fala para agradar caminhoneiro, mas o próprio caminhoneiro sabe que isso não resolve absolutamente nada".

"O que o caminhoneiro precisa é de frete, é de trabalho, é de uma economia funcionando, uma economia confiável, é tudo aquilo que este governo não está garantindo por suas ações descontroladas, exatamente na área da economia", explicou.

Além disso, ele ressaltou que, "para que se evite uma greve, é preciso seriedade na condução do governo, e é preciso dizer que, se aquele parar uma rodovia, vai ter aplicada contra ele as penas da lei, que são pesadas. Basta dois ou três motoristas para paralisar uma rodovia principal, e basta um policial e um guincho para tirar isso da rua".

"É preciso decisão e é preciso honestidade intelectual para acabar com esta situação, que absolutamente não é de interesse de ninguém, muito menos dos caminhoneiros, porque a greve só vai servir, se for manipulada para que aconteça, para ajudar a afundar a economia e, portanto, afundar ainda mais os caminhoneiros que já estão sofrendo com a crise econômica", explicou Sergio Ejzenberg.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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