'Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto', diz Fafá de Belém no Círio de Nazaré

Fafá de Belém mirava em Nossa Senhora de Nazaré, a santa venerada neste domingo (11) no Círio de Nazaré, e acertava em Flávio Bolsonaro (PL)

'Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto', diz Fafá de Belém no Círio de Nazaré
'Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto', diz Fafá de Belém no Círio de Nazaré

Anna Virginia Balloussier-belém, Pa E São Paulo, Sp (folhapress) - 11/10/2026 13:22:04 | Foto: Reprodução Varanda de Nazaré

"Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto. Nossa Senhora é do Brasil!"
Fafá de Belém mirava em Nossa Senhora de Nazaré, a santa venerada neste domingo (11) no Círio de Nazaré, e acertava em Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, o presidenciável foi acusado, sem provas, de querer retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, isso após dizer que, se eleito, iria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus", em claro aceno a evangélicos.

A declaração da cantora deu notas políticas a uma festa marcada por uma demonstração de força do catolicismo popular na região com maior proporção de evangélicos do Brasil. A população do Norte com dez anos ou mais, segundo o Censo 2022, é 36,8% evangélica, ante 26,9% da média nacional.

Boa sorte pedindo para um paraense explicar o que é o Círio. A maioria diz que é difícil pôr em palavras a força das várias romarias que o compõem, por barco, moto, a pé, todas dedicadas à padroeira local, Nazaré. Uma das maiores celebrações religiosas do mundo e que acontece todo ano em Belém, onde são esperados 2 milhões de pessoas, somando o vaivém de público nos dias de cortejos e missas.

Uma canção composta pelo padre Fábio de Melo e cantada por Fafá para uma multidão, "Eu Sou de Lá", é um bom resumo desse sentimento: "Nenhuma explicação sabe explicar/ É muito mais que ver um mar de gente/ Nas ruas de Belém a festejar".

Foram 3,6 km percorridos pela estátua de Nazaré, que desfilou num carro, dentro de uma berlinda dourada adornada por flores fúcsia e cor-de-rosa. Um dos principais símbolos da procissão é uma corda feita de fibra de malva, barreira que separa o tal mar de gente da estátua e é puxada por milhares de promesseiros.

É quem paga uma promessa a "Naza, Nazarezinha, Nazaré rainha", como descrita em outra canção popular no Círio. Savanna, 26, drag queen que foi à Chiquita, tradicional festa LGBTQIA+ realizada sempre na noite anterior ao domingo de Círio, está entre eles.

Se na véspera vestia um macacão justo e multicolorido, na manhã seguinte Savanna viria montada na fé. Estreou na corda após fazer uma promessa pela saúde da mãe, evangélica "que respeita minha religião", diagnosticada com diabete. Exames posteriores mostraram taxas de glicose normais, e Savanna foi agradecer a Nazinha. "Foi assustador e incrível ao mesmo tempo ir na corda, só de sentir aquele calor."
O domingo começou com uma missa na Catedral Metropolitana, conduzida por dom Júlio Endi Akamine, arcebispo de Belém. À massa de fiéis ele abordou o conceito bíblico de submissão feminina, que não significa a mulher "ser escrava". Disse também que a procissão seria "muito lenta e demorada" porque "queremos chegar juntos até Jesus Cristo". "Que salvação é essa que a gente larga os outros para trás?"
Há formas e formas de estar no Círio. Acompanhar a procissão sob o calor paraense, em trechos abarrotados de gente, não é para todo mundo. Também dá para esperar parado, num dos pontos pelos quais o carro com Nazaré passará.

Tem ainda os camarotes do Círio, que vêm em formatos variados. Podem ser cadeiras de praia e de plástico enfileiradas no térreo de prédios. Ou algo mais vip, como a Varanda de Nazaré, comandada por Fafá.

Há uma plataforma com arquibancada para ver a santa passar e um espaço com ar-condicionado, massagem, patrocinador dando brindes personalizados para quem postar foto em seu cantinho "instagramável" e comidinhas como torta de queijo do Marajó com palmito e jambu.

Gaby Amarantos é outra artista paraense que apresentou o cancioneiro típico do Círio em sua Laje da Naza, que servia aos convidados caipirinha de milho e o drinque Rock Doido (infusão de gim, cupuaçu, limão e xarope de açúcar).

Como Fafá, ela sempre canta voltada à multidão do lado de fora. No repertório das duas, músicas como "Ave Maria" e "Noites Traiçoeiras", são replicadas em coro pelo público.

Nazaré é "a mãe de todos, dos LGBTs, das mulheres, dos ricos, dos pobres", disse Gaby no sábado (10), durante a transladação –cortejo em que Nazaré sai de sua basílica para a catedral, para fazer o bate-volta no dia seguinte.

Nem a chuva no fim da tarde dispersou a multidão. Ao ouvir de uma amiga que ao menos o aguaceiro refrescava, a devota Carla Sousa, 61, concluiu feliz: "Chuva de bênção!".

A massa nas ruas é católica, mas comporta gente de várias religiões, inclusive a evangélica, que tem como premissa rejeitar a veneração de santos. "Se a gente quer que nossa religião seja respeitada, tem que respeitar a do outro", disse Luiza Gomes, 53, esteticista da Congregação Cristã do Brasil que pedalou numa ciclo-romaria até Belém.

Coordenador desta edição, a 234ª do Círio, Antonio Sousa diz que a força da celebração de Nazaré "está na fusão entre fé e identidade regional". A malva da corda "que carrega a fé de milhares", por exemplo, vem de mais de mil famílias de agricultores locais. "Se Deus quis dar o Círio ao nosso estado", por que confeccionar um dos ícones da festa em outro lugar?
"A devoção é algo herdado e identitário, mais do que como disputa religiosa", diz Sousa. "Tem também o caráter de vivência: o Círio se vive, se sente".

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