Especialistas do Brasil e de Portugal falaram à ONU News de ameaças como aceleração do aumento do nível do mar e poluição por antibióticos; líder da ONU pede que zonas marinhas não sejam tratadas como recursos ilimitados
Agência Onu News - 08/06/2026 11:42:32 | Foto: © Ocean Image Bank/Naja Bertolt
A saúde dos mares está piorando de forma alarmante, de acordo com a Terceira Avaliação Global dos Oceanos, WOA-3, divulgada pela ONU nesta segunda-feira, por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ressaltou que os mares estão em apuros e fez um apelo à humanidade para não os tratar como um recurso ilimitado.
Taxa de aumento do nível do mar foi a 50%
O estudo tem 25 autores. A ONU News conversou com dois deles: o professor brasileiro Ronaldo Christofoletti e a pesquisadora portuguesa Maria João Bebianno.
Christofoletti disse que as cidades costeiras sofrem ameaça cada vez mais grave, com impactos significativos para o Brasil, que tem mais de 8 mil km de litoral.
“O que o relatório confirma? O aumento do nível do mar, a taxa com que ele cresce por ano aumentou mais de 50% desde o último relatório, há quatro anos. Ela era em torno de 3,2 milímetros por ano. Agora está confirmado em 4,3 milímetros por ano. É o quanto esse mar atingir, ele vai atingir onde? ele vai ter o seu impacto onde? Principalmente nas zonas costeiras. Então se a gente olha a nossa costa, todas as nossas cidades costeiras. Quantas capitais nós não temos nestes 17 Estados costeiros com grande quantidade de população? E ela vai ser impactada”.
O especialista diz que novos recordes de degelo na região do Ártico, no Polo Norte, e da Antártica, no Polo Sul, jogam mais água nos mares e causam uma desregulação da relação do oceano com a atmosfera, alterando as frentes frias e o regime de chuvas no Brasil.
Concentração de antibióticos no oceano
Outra coautora do texto, a cientista Maria João Bebianno ressaltou o risco associado aos chamados “poluentes emergentes”, que vão muito além do lixo plástico visível.
“Estamos a assistir a um aumento da concentração de antibióticos no oceano. Isto faz com que surjam espécies de bactérias e genes resistentes no mar, gerando uma situação muito semelhante à que enfrentamos hoje com as superinfecções nos hospitais. É alarmante. Precisamos de recuperar a saúde do oceano para, assim, recuperarmos a saúde humana.”
Ela afirmou que o relatório inova ao integrar o conceito de “Uma Só Saúde”, que marca a associação entre o bem-estar marinho e o da humanidade.
O WOA-3 aponta forte expansão dos impactos da poluição plástica sobre a biodiversidade marinha. Enquanto o relatório anterior registrava cerca de 1,4 mil espécies afetadas por plástico, o novo texto aponta 4.076 espécies impactadas.
Perda de oxigênio nos mares
Além disso, a especialista ressalta que o estudo documenta fenômenos físicos invisíveis aos olhos do cidadão comum, mas arrasadores: a acidificação e o aquecimento do mar, elevando o nível das águas através da expansão térmica.
O outro é a perda de oxigênio no ambiente oceânico, elemento químico essencial para a vida da Terra. A desoxigenação das águas tem implicações diretas na sobrevivência de espécies marinhas e terrestres.
O secretário-geral da ONU, disse que o documento envia um alerta sobre a crise tripla afetando o ecossistema mundial: alteração do clima, perda de biodiversidade e poluição.
Clima, ecossistemas e economias
Para Guterres, em tempos turbulentos, o oceano lembra à humanidade que está conectada. Ele enfatizou que os mares moldam o clima, sustentam os ecossistemas e as economias, alimentando ainda bilhões de pessoas.
O WOA-3 é considerado a análise mais completa já realizada e engloba dados sobre saúde humana, áreas protegidas, produção de alimentos, turismo exploração tecnológica, governança, entre outros.
Mais de 550 cientistas, de 86 países, contribuíram com as pesquisas que embasam o documento. Os dados do WOA-3 referem-se principalmente ao período entre 2018 e 2023.
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