Transporte de soja aumenta antes de explosão de pedral no rio Tocantins e impacta pesca

O pedral, no período seco, aflora sobre a água. Isso dificulta a navegação, mas é o meio de subsistência de ribeirinhos que desenvolveram técnicas de pesca associadas à existência das rochas

Transporte de soja aumenta antes de explosão de pedral no rio Tocantins e impacta pesca
Transporte de soja aumenta antes de explosão de pedral no rio Tocantins e impacta pesca

Vinicius Sassine-belém, Pa (folhapress) - 28/01/2026 07:15:45 | Foto: Com o avanço do Pedral do Lourenço, a população passa a contar com uma navegação mais segura, regular e com mais oportunidades de desenvolvimento. Divulgação

Antes mesmo da explosão de um pedral para formação de um canal no rio Tocantins, numa região farta em peixes e com comunidades onde vivem centenas de famílias ribeirinhas, o tráfego de barcaças carregadas com soja já se intensificou de forma acelerada ao longo de 2025, com impactos diretos à pesca, ao ecossistema local e ao modo de vida nessas comunidades no Pará.

Isso se deu a partir de 11 de dezembro de 2024, quando o governo do estado, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, concedeu uma licença de operação para o funcionamento de duas eclusas na usina hidrelétrica de Tucuruí, que opera num reservatório no rio Tocantins. A operação é feita pelo governo federal.

A usina está no caminho da hidrovia Tocantins-Araguaia, um pouco acima do pedral -o Pedral do Lourenço, como é conhecido- que o governo Lula (PT) prepara a explosão para a consolidação de um canal de 35 km, que permita a embarcações de soja, minério e outras cargas trafegarem pelo rio.

O pedral, no período seco, aflora sobre a água. Isso dificulta a navegação, mas é o meio de subsistência de ribeirinhos que desenvolveram técnicas de pesca associadas à existência das rochas.

A partir da concessão da licença de operação pelo governo de Helder Barbalho (MDB) no Pará, para transposição do desnível da hidrelétrica de Tucuruí -um sistema formado por duas eclusas e um canal intermediário-, a quantidade de barcaças que trafega pelo rio aumentou exponencialmente.

Dados do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), órgão do governo federal responsável pela operação das eclusas na usina e pelo projeto de derrocamento no Pedral do Lourenço, apontam que 36 balsas com cargas -carregadas com 75,6 mil toneladas de soja- trafegaram pelas eclusas em 2025. Isso significa a movimentação de três barcaças por mês, em média.

Esse tráfego prossegue no começo de 2026, segundo lideranças de ribeirinhos da região do Pedral do Lourenço.

Em 2024, houve uma eclusagem, segundo o DNIT, para o transporte de um transformador. E, em 2023, três balsas trafegaram pela usina, de forma excepcional, mas sem cargas, conforme os dados do órgão federal.

É a demanda na hidrovia que determina a quantidade de operações nas eclusas, segundo o DNIT. A disponibilidade existe nos sete dias da semana.

"As eclusagens apresentam, em geral, maior fluxo durante o período de inverno, correspondente à cheia do rio, em razão da melhoria das condições de navegabilidade no trecho do Pedral do Lourenço", disse o órgão, em nota. "Predominam embarcações graneleiras destinadas ao transporte de grãos, bem como balsas transportando cargas diversas, como materiais destinados à mineração."
O funcionamento de Tucuruí, a segunda maior hidrelétrica integralmente nacional, inaugurada na década de 80, impactou a quantidade de peixes no rio Tocantins, em razão do sistema de controle de água e da formação do reservatório.

Ainda assim, o rio é farto em peixes, e entre 20 e 25 comunidades ribeirinhas se estruturaram em torno do Pedral do Lourenço, conforme as lideranças locais. Nelas vivem 3.000 pessoas, segundo essas lideranças.

A pesca está diretamente associada às rochas. A região é considerada um berçário de peixes. As pedras são esconderijos para espécies como o tucunaré. O mapará, um dos peixes mais apreciados na região e em outros estados para onde é vendido, como Maranhão, Bahia e Tocantins, é farto em áreas do pedral.

O maior movimento de barcaças de soja, antes mesmo da existência de um canal a ser formado a partir de explosões no pedral, afugenta os peixes, segundo os ribeirinhos.

Além disso, os pescadores atribuem a esse tráfego de embarcações o surgimento de mexilhões que tomaram boa parte das pedras. Esses moluscos, que teriam sido transportados de outros países para a região, se espraiaram pelo pedral. Com a seca, mexilhões sem vida ficam fétidos e extremamente cortantes, o que impede a rotina de pesca a partir da presença nas rochas.

"Essas barcaças que já estão passando impedem a gente de pescar. A gente pesca na modalidade 'caceia' [a rede é disposta no rio e se move no curso da água, acompanhada pelo pescador], e é preciso tirar a rede quando as embarcações passam, para evitar o prejuízo", afirma Ronaldo Barros Macena, presidente da associação de ribeirinhos da Vila Tauiri, a maior do Pedral do Lourenço.

"E isso já trouxe o mexilhão-dourado e poluição ao rio. É um impacto grande para a pesca", completa.

Ribeirinhos dizem que a hidrelétrica libera água para permitir a passagem das barcaças de soja pelo pedral. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), por sua vez, afirma que existem "condicionantes operativos ligados à manutenção da navegação", com permanência de defluência mínima de 2.000 m3 por segundo, "sempre cumprida na operação da usina".

Segundo o ONS, ainda não há informações sobre eventuais impactos de derrocamento do Pedral do Lourenço no funcionamento da usina.

A Axia, antiga Eletrobras, afirmou que o derrocamento "fica num ponto distante e não há previsão de interferência na geração da usina".

Sobre a água necessária à navegação, o DNIT disse, em nota, que não existe um número fixo, mas uma "faixa crítica" que define se o tráfego é possível ou não. A vazão de 2.000 m3 por segundo, adotada pela hidrelétrica no período seco, é considerada baixa pelo órgão federal. O derrocamento do pedral diminuiria a necessidade de liberação de água pela usina, conforme o DNIT.

"A hidrovia não funciona o ano todo, apenas nos meses de cheia. O derrocamento terá um impacto transformador e altamente positivo no transporte de cargas e na gestão da liberação de água para a navegação", cita a nota.

O MPF (Ministério Público Federal) no Pará acionou a Justiça para impedir a explosão do pedral, diante dos impactos às comunidades pesqueiras. Em dezembro, a Justiça Federal liberou a continuidade do projeto, condicionada a reparação indenizatória aos ribeirinhos.

A abertura dessa área garantiria acessos de minério, soja e carvão mineral ao Porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA), perto de Belém. Até 2031, a perspectiva é de transporte de 32,5 milhões de toneladas de cargas por ano, entre Marabá (PA) e Barcarena.

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