Vorcaro diz à PF que diretor do BC apoiou venda do Master 'até determinado momento'

O depoimento foi concedido à PF em 30 de dezembro, no STF (Supremo Tribunal Federal) e precedeu uma acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB

Vorcaro diz à PF que diretor do BC apoiou venda do Master 'até determinado momento'
Vorcaro diz à PF que diretor do BC apoiou venda do Master 'até determinado momento'

Luísa Martins E José Marques-brasília, Df (folhapress) - 24/01/2026 08:48:56 | Foto: © BANCO MASTER

O controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, disse à PF (Polícia Federal) que a diretoria de fiscalização do BC (Banco Central) apoiava uma solução de mercado "até um determinado momento", mas que "forças internas" queriam a instituição financeira fora do setor e "acabaram vencendo".

"A própria diretoria de fiscalização tinha interesse em criar uma solução de mercado até um determinado momento e evitar esse caos que está se instaurando no país", afirmou. O diretor de fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino, chegou a prestar depoimento à PF sobre o caso do Master.

De acordo com o Banco Central, foi a área de Aquino a responsável pela identificação de inconsistências nas operações do banco, assim como a iniciativa de comunicar supostos ilícitos criminais ao Ministério Público Federal.

Procurado pela Folha para comentar as declarações de Vorcaro, o BC não comentou.

O depoimento foi concedido à PF em 30 de dezembro, no STF (Supremo Tribunal Federal) e precedeu uma acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa. A investigação é conduzida na corte pelo ministro Dias Toffoli.

Vorcaro afirmou à delegada Janaína Palazzo que foi surpreendido pela ordem de prisão porque o BC acompanhou toda a operação de venda do Master ao BRB. "Não tinha nada que acontecesse no banco que o Banco Central não acompanhasse ou que não soubesse", declarou o dono da instituição financeira.

"O grande problema que aconteceu nessa história, infelizmente, é que dentro do Banco Central existiam pessoas que queriam uma solução de mercado e existiam outras pessoas, departamentos, que queriam que acontecesse o que aconteceu", afirmou ele, em depoimento no dia 30 de dezembro.

O banqueiro alegou que o BC "acompanhava diuturnamente" o Master e as operações envolvendo carteiras de crédito consignado da empresa Tirreno. "Esse negócio, antes de iniciar, foi comentado com o Banco Central, como cada passo que a gente tomava no banco foi comentado com o Banco Central".

De acordo com ele, houve uma notificação do BC em março para que o Master respondesse questões sobre a contratação de associações para fazer a cobrança da carteira -mas que, depois de as explicações terem sido entregues, não houve outro comunicado apontando para possíveis irregularidades.

"Então, na verdade, não existia uma determinação ou não existia um entendimento de que havia um problema real com as carteiras", argumentou Vorcaro. "E de repente em 17 de novembro eu sou preso, sem nenhuma outra pergunta depois de março. É a dúvida que fica para mim."
A PF ouve nas próximas segunda e terça-feiras outros oito investigados na Operação Compliance Zero. Toffoli afirmou que os depoimentos são necessários "para o sucesso das investigações" e "como medida de proteção ao sistema financeiro nacional".

Vorcaro cita Ibaneis à PF sobre compra do Master e oposição pede impeachment de governador

JOSÉ MARQUES, THAÍSA OLIVEIRA E LUÍSA MARTINS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, disse à Polícia Federal que conversou mais de uma vez com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre a venda da companhia ao BRB (Banco de Brasília).

A afirmação foi feita em depoimento em 30 de dezembro do ano passado, no STF (Supremo Tribunal Federal), no inquérito sobre suspeitas de irregularidades na tentativa de compra do Banco Master pelo banco estatal de Brasília.

A menção ao governador foi divulgada em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela reportagem.

No depoimento, o ex-banqueiro afirmou que tratou do assunto da venda com o governador "em algumas poucas oportunidades", com a participação de outras pessoas. Disse ainda que Ibaneis já esteve na casa dele e que ele também já foi à residência do governador.

"Conversei em algumas poucas oportunidades, sim", disse Vorcaro, ao ser questionado se havia conversado com Ibaneis sobre a venda do Master para o BRB.

"[Ibaneis] já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também de outras pessoas", completou Vorcaro sobre encontros ou conversas entre os dois entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.

Ibaneis foi procurado, por meio de sua assessoria de imprensa, mas não quis se pronunciar.

Vorcaro também foi perguntado sobre conversas com outras autoridades públicas, como ministros, parlamentares, secretários e diretores de órgãos públicos, a respeito da operação entre o Master e o BRB. Ele respondeu não ter tratado do assunto com ninguém, além de Ibaneis e de autoridades do Banco Central.

"Eu queria só dizer o seguinte. Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", afirmou.

A partir da divulgação sobre a citação, o PSB e o Cidadania decidiram apresentar, conjuntamente, um pedido de impeachment contra o governador na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Um pedido de afastamento também foi protocolado pelo PSOL.

O presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Ricardo Cappelli (PSB), critica as ideias em debate para recompor o BRB. Para ele e o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), é preciso afastar Ibaneis antes de discutir qualquer aporte financeiro.

"É gravíssima a situação e eu acho muito pouco provável que a Câmara Distrital sacrifique serviços públicos para tapar o rombo das fraudes", afirma Cappelli, pré-candidato ao governo do DF.

Como mostrou a Folha de S. Paulo, o Banco Central determinou que o BRB faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas com a compra de carteiras de crédito fraudulentas do Master.

O deputado distrital Fábio Félix (PSOL) afirma que a discussão na Câmara Legislativa sobre a salvação do BRB não será fácil. Segundo ele, os parlamentares já estão cientes de que o Executivo pretende enviar um projeto de lei logo após o fim do recesso, no próximo dia 3.

"Há a indicação de que vamos ter que fazer aportes bilionários, chegando a R$ 4 bilhões. E o governador quer colocar como requisito para esses empréstimos, para esse aporte, a Terracap, a CEB Ipes, o patrimônio da população do Distrito Federal. Isso é inaceitável", diz.

No primeiro depoimento, além de responder a perguntas da delegada da PF Janaina Palazzo e do Ministério Público Federal, Vorcaro também foi interrogado com perguntas elaboradas pelo gabinete do ministro Dias Toffoli, do STF.

Foram feitas a Vorcaro ao menos 80 perguntas elaboradas pelo ministro em depoimento que durou quase três horas.

O processo é sigiloso. Desde o começo de dezembro, diligências e medidas ligadas à investigação sobre o Master e Vorcaro têm que passar pelo crivo de Toffoli, por decisão do próprio magistrado.

A investigação sobre a tentativa de venda do Master apontou que, antes mesmo da formalização do negócio, o banco teria forjado e vendido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado para o BRB -R$ 6,7 bilhões em contratos falsos e R$ 5,5 bilhões em prêmios, o valor que supostamente a carteira valeria, mais um bônus.

O escândalo do Master levou à liquidação do banco, anunciada em 18 novembro.

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