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A ícone abolicionista negra e a nota de US$ 20

A ícone abolicionista negra e a nota de US$ 20Foto: Portal DW de Noticias

Mural do artista Michael Rosato com retrato de Harriet Tubman

Michael Marek - Portal Dw De Noticias - 25/04/2021 - 10:09:37

A nova nota de 20 dólares provoca meses de debates políticos nos EUA. Presidente Joe Biden quer que a ativista negra Harriet Tubman seja o novo rosto da cédula.

Ernestine Wyatt agora parece aliviada. A senhora de 66 anos tem certeza que "Harriet Tubman em uma nota de 20 dólares, agora a coisa vai!", diz. A tataraneta de Harriet Tubman não se cansa de apontar a importância da militante negra de direitos civis, nem de lutar pelo reconhecimento dela.

Escravocratas em notas de dólar

Tubman é uma lenda nos Estados Unidos, mas no resto do mundo a lutadora pela liberdade que nasceu escrava em 1822 é pouco conhecida. Em meados do século 19, Tubman era uma força motriz por trás da Underground Railroad, uma rede de ajudantes que organizava esconderijos secretos e trocava notícias criptografadas. Ajudou escravos fugitivos a chegar a estados mais seguros do país. Agora, seu retrato será perpetuado em uma nova nota de 20 dólares, de acordo com uma decisão do presidente americano, Joe Biden.

Trabalhador imprime cédulas na Casa da Moeda dos EUA

Trabalhador imprime cédulas na Casa da Moeda dos EUA

Até agora, a maioria das notas de dólares americanos traz o rosto de presidentes brancos ou de signatários da Declaração da Independência. Eles representam a construção e o crescimento econômico do país, mas também a escravidão.

George Washington, Thomas Jefferson, James Monroe, Andrew Jackson, Ulysses S. Grant e mais – 12 dos 18 presidentes entre 1789 e 1877 eram proprietários de escravos.

Patriota e abolicionista

"Ninguém é mais indicado a estampar uma nota de 20 dólares do que uma escrava que libertou a si mesma", defende Ernestine Wyatt. "Harriet foi uma verdadeira patriota americana que não só lutava por si mesma, mas também pelos outros e ajudou nosso país a manter a unidade."

Em 2016, o governo Obama queria colocar Tubman na nota de 20 dólares no lugar do polêmico ex-presidente dos EUA e proprietário de escravos Andrew Jackson, que está na cédula desde 1928. "Pela primeira vez em mais de 100 anos, teremos uma mulher ilustrando nossas notas", anunciou na época o ministro das Finanças de Obama, Jack Lew. "Já era tempo, afinal, muita coisa mudou. Isso também é demonstrado pelas muitas reações positivas."

"Politicamente correto"

A ideia eletrizou a comunidade afro-americana nos Estados Unidos. Mas o governo sucessor reverteu os planos e interrompeu a iniciativa, que havia sido aprovada por milhões em votação online. Donald Trump queria apagar e esquecer o que seu antecessor deixou para ele. Ele denunciou o projeto Tubman como uma mera iniciativa politicamente correta. Com a medida, Trump também agradava partes de seu eleitorado de tendência racista, segundo críticas de ativistas dos direitos civis e membros do Partido Democrata.

Já como vice-presidente de Obama, Joe Biden apoiava o projeto para colocar Tubman na nota de 20 dólares. "É importante que nossas notas mostrem a história e a diversidade de nosso país", disse a porta-voz da Casa Branca logo após a posse de Biden em janeiro. "O rosto de Harriet Tubman na nota de 20 dólares certamente refletiria isso."

Harriet Tubman

Harriet Tubman ajudava escravos fugitivos a chegar a esconderijos mais seguros nos EUA

Cuidadora do legado

Ironia da história ou reparação tardia: enquanto o dono de escravos Jackson estará por trás da nova nota de 20 dólares, a ativista antiescravismo Tubman deve vir na frente.

De acordo com Wyatt, Tubman conseguiu muito mais do que ajudar a libertar escravos. Morando em Washington, Wyatt cuida do legado de Tubman e organiza eventos comemorativos e debates transmitidos ao vivo na internet. Ela também responde regularmente a perguntas sobre Tubman de historiadores e funcionários de museus.

Wyatt diz que originalmente pensava que a comunidade afro-americana só precisava de Obama como presidente para avançar as coisas, para depois perceber que isso não era o suficiente. Ela menciona as desvantagens que os afro-americanos enfrentam no sistema de saúde dos Estados Unidos.

Em tempos marcados pelo movimento Black Lives Matter, a justiça é fundamental, segundo ela, além do devido respeito mútuo. "É função da polícia arrancar a vida de outra pessoa? Precisamos pensar sobre isso."

Ernestine Wyatt

Ernestine Wyatt cuida do legado de sua tataravó

Notas de dólar como livro de história

Até agora, apenas duas mulheres foram estampadas nas notas de dólares: a mulher do primeiro presidente dos Estados Unidos, Martha Washington, e a famosa indígena americana Pocahontas, que foi mostrada ajoelhada em uma reedição da pintura Batismo de Pocahontas . Mas nenhuma das cédulas foi impressa por mais de 100 anos.

"As notas refletem a sociedade na qual foram criadas. Portanto, seria de se esperar que ocorressem mudanças", diz o historiador Frank Noll.

Tubman libertou prisioneiros e, como enfermeira, tratou dos soldados feridos. Pouco antes de sua morte em 1913, ela recebeu uma pensão mensal para veteranos de 20 dólares.

Ernestine Wyatt diz que hoje os Estados Unidos têm uma chance real de recuperar o atraso com um capítulo negligenciado da história do país. Não está claro quando exatamente a nova cédula será emitida. Muitos esperam que possa ser já no próximo ano – 200 anos após o nascimento de Tubman.

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