A opinião pessoal de João Zisman sobre a politica do DF: Rompimento ou realinhamento?

Não que onde exista fumaça não haja algum foco real de combustão política

A opinião pessoal de João Zisman sobre a politica do DF: Rompimento ou realinhamento?
A opinião pessoal de João Zisman sobre a politica do DF: Rompimento ou realinhamento?

Por João Zisman - 23/05/2026 10:31:11 | Foto: Ibaneis Rocha passa cargo para Celina Leão no DF — TV Globo/Reprodução

Nem todo abalo político começa com porta batida. Alguns começam com palavras cuidadosamente escolhidas. No caso da relação entre Ibaneis Rocha e Celina Leão, a palavra foi “realinhamento”. E ela produziu em Brasília um efeito muito maior do que seu tamanho aparentemente moderado sugeriria.

A semana política do Distrito Federal terminou mergulhada numa espécie de estado de observação permanente. Há um frisson quase compulsivo na bolha que sobrevive das faíscas emitidas pelos núcleos de poder. Uma necessidade quase paparazzi de transformar qualquer centelha em incêndio consumado antes mesmo de se saber se há fogo suficiente para consumir alguma coisa.

E isso ajuda a explicar parte da ansiedade em torno da crise política que se desenha entre o antigo comandante do Palácio do Buriti e sua sucessora.

Não que onde exista fumaça não haja algum foco real de combustão política. Há. As declarações públicas de ambos já demonstram desconforto, disputa de espaço, divergência sobre autonomia e, principalmente, sobre o controle da sucessão de 2026. Mas rearranjos políticos raramente obedecem ao relógio emocional do noticiário, dos grupos de WhatsApp ou da indústria permanente dos bastidores.

Na política, o tempo não é detalhe. É instrumento de poder.

Há movimentos que amadurecem em minutos. Outros levam dias. Alguns parecem rompimentos definitivos numa terça-feira e se transformam em reacomodação silenciosa no sábado seguinte. Outros começam discretos, quase invisíveis, e quando se tornam perceptíveis já alteraram completamente o eixo de forças.

O que existe hoje entre Ibaneis e Celina talvez ainda não seja um rompimento formal. Mas claramente já deixou de ser apenas ruído periférico.

As frases escolhidas por ambos não foram casuais. Os silêncios tampouco.

Ibaneis afirmou publicamente estar decepcionado e falou em “realinhamento de posições”. Não utilizou a palavra ruptura. E isso importa. Na política, especialmente na de Brasília, o que não se diz costuma carregar peso semelhante ao que é dito.

Dias depois, moderou o tom, afirmou que não havia confronto e falou em respeito mútuo. Ainda assim, o dano político já estava produzido. Porque o problema talvez não esteja propriamente nas palavras escolhidas, mas no fato de elas terem sido ditas em público.

Celina, por sua vez, respondeu de forma ainda mais simbólica. Sua frase, “sucessão nunca será submissão”, talvez tenha sido o movimento politicamente mais relevante de todo o episódio. Porque ali deixou de existir apenas um desconforto administrativo. Surgiu uma demarcação pública de território político.

Ao afirmar que ninguém continuaria governando o DF por intermédio dela, Celina não apenas respondeu a Ibaneis. Falou também com a classe política, com sua base, com o MDB e principalmente com o eleitorado conservador que observa atentamente quem de fato comandará o próximo ciclo político do Distrito Federal.

E os movimentos laterais ajudam a compreender a profundidade do momento.

A aparição de Rafael Prudente dizendo sentir-se “pronto para assumir qualquer posto” não ocorreu num vácuo político. Assim como não parece casual a presença de Baleia Rossi no entorno imediato da discussão, afirmando que o MDB obrigatoriamente participará da chapa majoritária.

O recado embutido é claro: o MDB não pretende ser mero coadjuvante da sucessão local.

Enquanto isso, Wellington Luiz permanece exercendo um papel interessante de observador ativo. Não rompe, não confronta, não radicaliza. Atua como alguém que compreende que crises políticas mal administradas costumam destruir pontes que talvez ainda sejam necessárias adiante.

E talvez esteja justamente aí o aspecto mais revelador do atual momento político do DF.

Ninguém está agindo como se nada tivesse acontecido. Mas ninguém também se comporta como se a ponte tivesse sido definitivamente implodida.

Isso porque o sistema político local sabe que há fatores concretos demais em jogo: a crise do BRB, a sucessão ao Senado, a montagem das chapas proporcionais, o espaço do MDB, o peso do bolsonarismo no DF, a influência nacional do PL, e principalmente a disputa silenciosa sobre quem controlará o centro gravitacional da direita brasiliense em 2026.

Os silêncios talvez revelem tanto quanto as declarações.

A base governista evita falar em rompimento porque compreende os riscos institucionais e eleitorais de uma guerra aberta agora. O MDB eleva discretamente o tom sem fechar portas. O entorno de Celina trabalha para reforçar sua autonomia política sem parecer desleal. E o grupo de Ibaneis claramente não aceita a ideia de perder protagonismo no desenho da sucessão.

No fundo, o que Brasília presencia talvez não seja ainda uma separação consumada. Mas já parece algo maior do que um simples ruído de convivência.

É uma disputa gradual sobre comando, influência, legado e futuro.

E em política, especialmente na política do Distrito Federal, o tempo costuma decidir quase tudo.

Inclusive quando uma faísca vira incêndio.

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