O Estado das Coisas, com a opinião pessoal sobre politica de João Zisman: Ninguém quer cair abraçado

Bom dia e uma excelente sexta-feira

O Estado das Coisas, com a opinião pessoal sobre politica de João Zisman: Ninguém quer cair abraçado
O Estado das Coisas, com a opinião pessoal sobre politica de João Zisman: Ninguém quer cair abraçado

Por João Zisman - 22/05/2026 10:29:04 | Foto: Divulgação João Zisman

A política brasileira talvez esteja entrando numa fase em que as candidaturas começam a ser testadas muito antes da eleição. Não exatamente nas urnas, nem nos debates, mas no comportamento dos aliados, dos partidos, do mercado e das figuras que ajudam a sustentar determinados projetos de poder. E talvez seja exatamente isso que esteja começando a acontecer com Flávio Bolsonaro.

O próprio Valdemar Costa Neto acabou oferecendo um dos sinais mais fortes dessa instabilidade ao tentar negar que o PL estaria avaliando internamente a viabilidade da candidatura do senador. Ao desmentir o que chamou de “ultimato”, falou em “15 dias para retomada do crescimento” de Flávio nas pesquisas. A frase tem um peso político enorme, porque candidaturas realmente sólidas não costumam entrar em janela de observação quando ainda estamos tão distantes da campanha formal.

A própria troca do marqueteiro acabou funcionando como um sinal político involuntário. Campanhas seguras raramente mudam comando de comunicação no meio da fumaça. Quando isso acontece, quase sempre é porque alguém concluiu que a crise deixou de ser apenas um problema factual e começou a contaminar a percepção pública.

E talvez esse seja justamente o ponto central do problema.

O desgaste de Flávio não nasceu de um fato único, devastador e definitivo. Não foi um terremoto instantâneo capaz de encerrar uma candidatura de uma vez só. O que começou a corroer sua estabilidade política foi algo muito mais difícil de controlar: a sensação crescente de enrosco.

Filme, áudios, explicações sucessivas, Daniel Vorcaro, visitas após a prisão, notas públicas, recuos, novas versões. Tudo isso junto começou a produzir algo muito perigoso para qualquer projeto presidencial: a percepção de imprevisibilidade.

Ninguém parece saber exatamente o que ainda pode surgir. E talvez seja justamente essa dúvida o elemento mais corrosivo da crise. Porque o ambiente político já não discute apenas o que apareceu até aqui, mas aquilo que eventualmente ainda possa existir. Se tudo termina num áudio constrangedor, numa conversa imprudente ou numa relação politicamente tóxica com Daniel Vorcaro, o dano talvez seja administrável. O problema é que ninguém parece disposto a apostar que a história acaba aí.

Quando esse tipo de dúvida entra no ambiente político, o comportamento das pessoas muda imediatamente. Política também é cálculo de sobrevivência.

Talvez por isso tenha chamado tanta atenção a reação de algumas figuras importantes da própria nova direita brasileira. Rodrigo Constantino afirmou que “não dá para tratar o público como idiota” ao comentar as explicações de Flávio sobre Vorcaro. Ana Paula Henkel disse que “não é possível que o Flávio não sabia quem era Daniel Vorcaro naquele ponto”. Alexandre Garcia escreveu que a relação “pega mal para a candidatura”.

Não se trata de adversários históricos do bolsonarismo. Muito pelo contrário. São personagens que ajudaram a construir parte importante da musculatura política, midiática e emocional da nova direita brasileira nos últimos anos. Talvez exatamente por isso o desconforto tenha produzido um efeito tão forte.

Nikolas Ferreira, normalmente muito ativo nos momentos de confronto político, preferiu uma posição mais distante. Já Sergio Moro apareceu na coletiva ao lado de Flávio Bolsonaro como alguém que aceitara participar de uma reunião sem perguntar antes qual era o assunto. Sua expressão não era de indignação, solidariedade ou combate. Era de arrependimento antecipado.

Moro parecia aquelas testemunhas de casamento que descobrem no altar que o noivo talvez não fosse exatamente aquilo que dizia ser.

E talvez isso revele algo importante sobre o momento atual.

A candidatura de Flávio continua existindo politicamente. Tem partido, estrutura, sobrenome, eleitorado e peso dentro do campo conservador. Mas já não parece cercada daquela blindagem automática que durante anos funcionou quase como um reflexo dentro da direita brasileira.

Porque crises políticas realmente perigosas raramente começam na primeira denúncia. Elas ganham corpo quando os aliados passam a conviver diariamente com a dúvida sobre o que ainda pode aparecer no capítulo seguinte.

Leia outras colunas O Estado das Coisas aqui .

Comentários para "O Estado das Coisas, com a opinião pessoal sobre politica de João Zisman: Ninguém quer cair abraçado":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório