Essa diferença aparece em quase tudo
Por João Zisman - 11/05/2026 18:41:46 | Foto: Divulgação
Brasília começou esta segunda-feira diante de um retrato que a cidade conhece há muito tempo, mas que continua causando desconforto sempre que os números reaparecem. A capital de maior renda per capita do país também voltou a liderar o ranking da desigualdade social brasileira. Os dados da Pnad divulgados pelo IBGE ajudam a entender muito do ambiente político e social que o Distrito Federal vive hoje.
Existe uma cidade onde rendimentos acima de R$ 18 mil por mês fazem parte da paisagem cotidiana dos gabinetes, tribunais, consultorias e condomínios fechados. E existe outra onde uma parcela enorme da população ainda vive próxima de um salário mínimo, atravessando diariamente longas distâncias entre periferia e centro numa capital que continua expandindo riqueza sem conseguir distribuir sensação proporcional de estabilidade.
Essa diferença aparece em quase tudo. Aparece no debate sobre transporte público, na pressão permanente sobre saúde e educação, na expansão das regiões administrativas e até no comportamento político de Brasília, que se tornou uma cidade muito mais sensível a temas nacionais do que era alguns anos atrás.
A própria discussão sobre segurança pública ajuda a ilustrar isso. O governo comemora a queda expressiva dos roubos em ônibus graças ao avanço do monitoramento eletrônico, da inteligência policial e da automação dos pagamentos no transporte coletivo. Ao mesmo tempo, a pesquisa Datafolha divulgada nos últimos dias mostrou um país que continua vivendo sob sensação permanente de insegurança. Brasília acaba reunindo as duas coisas: melhora indicadores objetivos enquanto preserva uma percepção social difusa de medo, tensão e instabilidade.
No transporte, aliás, o noticiário desta segunda-feira trouxe outro detalhe curioso. Enquanto o DF amplia fiscalização sobre fraudes em gratuidades para pessoas com deficiência e endurece regras de controle dos cartões de acesso, a cidade continua convivendo diariamente com um sistema pressionado por desigualdade territorial, crescimento populacional e deslocamentos cada vez mais longos entre moradia e trabalho.
A suspensão da Lei da Dosimetria por Alexandre de Moraes também recolocou Brasília no centro da temperatura política nacional logo na abertura da semana. O tema do 8 de Janeiro continua produzindo forte repercussão na capital porque aqui os acontecimentos nunca foram apenas notícia nacional. Eles fazem parte da memória recente da cidade, atravessam o ambiente político local e seguem alimentando disputas simbólicas permanentes.
Enquanto isso, Brasília tenta manter sua rotina funcionando. O Paranoá recebe obras urbanas importantes, Samambaia segue avançando na regularização fundiária e programas sociais continuam sendo ampliados em regiões historicamente marcadas pela precariedade. A cidade melhora em vários pontos ao mesmo tempo em que preserva antigas rachaduras sociais difíceis de esconder.
Talvez o aspecto mais revelador do noticiário desta segunda-feira esteja justamente nessa convivência entre avanço e desequilíbrio. Brasília continua rica, institucionalmente poderosa e economicamente dinâmica. Mas também segue carregando diferenças sociais tão profundas que acabam moldando não apenas o cotidiano da cidade, mas a própria maneira como ela reage à política, à segurança e ao ambiente de tensão que hoje domina o país.
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