Cade arquiva investigação sobre venda de seguradora do Master após apontar indícios de crime

BRB quer processar ex-administradores envolvidos no escândalo do Banco Master

Cade arquiva investigação sobre venda de seguradora do Master após apontar indícios de crime
Cade arquiva investigação sobre venda de seguradora do Master após apontar indícios de crime

Vinicius Sassine-brasília, Df (folhapress) - 04/08/2026 16:29:19 | Foto: Fachada do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, em Brasília. Divulgação

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) arquivou no dia 28 uma investigação aberta para apurar supostas infrações na venda para o PicPay da Kovr Participações, seguradora que pertencia ao Master e foi negociada meses antes da liquidação do banco de Daniel Vorcaro.

Em 7 de maio, o Cade -órgão federal que avalia concentração de empresas, compras, fusões e eventuais impedimentos à livre concorrência- autorizou a compra da Kovr pelo PicPay, banco digital do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

No mesmo ato, o órgão apontou suspeitas de crime e de irregularidades em negociações envolvendo a Kovr entre julho e setembro de 2025 -a liquidação do Master pelo BC (Banco Central) se deu em novembro do mesmo ano.

Três de seus sócios minoritários adquiriram a seguradora, em uma operação costurada para que, ao final, o PicPay adquirisse a empresa de seguros.

O Cade, então, apontou evidências de prática de "gun jumping" (quando uma aquisição é efetivada antes da decisão do órgão federal), de triangulação financeira e de crimes contra o sistema financeiro nacional.

Para apurar as irregularidades, um novo processo foi aberto. A instauração se deu no mesmo dia, 7 de maio.

Esse processo foi arquivado no dia 28, três meses depois da instauração do ato de apuração, porque não houve enquadramento no faturamento previsto em lei para esse tipo de análise. Devem ser analisados negócios em que pelo menos um grupo envolvido na aquisição tenha faturamento bruto anual equivalente ou superior a R$ 30 milhões.

No caso da esfera criminal, o Cade afirmou, no ato em maio, que "indícios de possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional serão levados ao conhecimento das autoridades competentes para sua apuração". Até agora, o encaminhamento desses indícios não foi feito.

"Após a decisão [de arquivamento na esfera administrativa], a superintendência-geral do Cade está aguardando encerrar o prazo para avocação pelo tribunal administrativo de defesa econômica [vinculado ao Cade] para enviar os ofícios ao Banco Central e ao MPF [Ministério Público Federal]", disse o órgão. O prazo é de 15 dias, segundo o Cade.

Em nota, o PicPay afirmou que recebeu aprovação do Cade, do BC e da Susep (Superintendência de Seguros Privados) para a aquisição da Kovr, sem qualquer restrição à conclusão da operação.

"A companhia não tem ciência de qualquer investigação ou apuração relacionada ao tema e reforça que a operação foi conduzida em conformidade com os procedimentos regulatórios aplicáveis", disse.

A defesa de Vorcaro não respondeu aos questionamentos enviados nesta segunda-feira (3) por email e mensagem de celular.

A Kovr não foi alvo de medidas nas diferentes fases de investigações da PF (Polícia Federal), deflagradas até agora, sobre os negócios conduzidos por Vorcaro.

A empresa foi credenciada por órgãos públicos, como o Exército, para a oferta de serviços de seguro e previdência a servidores. Ela recebeu por esses serviços, a partir de descontos em folha de pagamento, R$ 261,4 milhões entre 2014 e 2026, segundo o Portal da Transparência, do governo federal.

Quando o Master tentava emplacar uma aquisição pelo BRB (Banco de Brasília), o banco informou ao Cade que haveria uma "reorganização societária", com segregação de ativos e passivos da instituição de Vorcaro. Kovr e subsidiárias seriam segregadas, segundo informações prestadas à autarquia federal.

O processo de aquisição da seguradora por sócios minoritários iniciou-se em julho de 2025. Não houve notificação ao Cade porque se tratava de "mera reorganização societária interna ao grupo Master", conforme o informado ao órgão pela Kovr, o que não implicaria ato de concentração econômica.

A operação foi consumada em setembro. "Imediatamente após o fechamento da operação de compra pelas pessoas físicas compradoras da parte que era do grupo Master, foi celebrado contrato entre essas pessoas físicas e o PicPay/JBS, para compra pelo PicPay da totalidade do capital social da Kovr", afirma um parecer técnico do Cade.

A aquisição pelo PicPay foi comunicada em fevereiro deste ano. O negócio foi aprovado sem restrições em maio.

A área técnica do Cade não viu infrações como "gun jumping" em parecer elaborado no último dia 28, mesmo dia em que o superintendente-geral interino do órgão, Felipe Roquete, concordou com o parecer e determinou o arquivamento.

O órgão não comentou sobre o arquivamento.

Cinco dias antes do arquivamento do processo no Cade, o PicPay divulgou em comunicado ao mercado que recebeu aprovação regulatória final por parte do BC para a compra da Kovr.

BRB quer processar ex-administradores envolvidos no escândalo do Banco Master

MARIA CLARA MATOS-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O conselho de administração do BRB (Banco de Brasília) marcou uma assembleia-geral para votar a adoção de medidas judiciais contra ex-administradores que sejam responsáveis por eventuais prejuízos causados por operações com o banco Master e a corretora Reag.

A assembleia-geral extraordinária vai acontecer em 24 de agosto, às 10h, de forma virtual. As medidas adotadas seriam no âmbito civil, diz o comunicado ao mercado. Acionistas que queiram participar precisam se cadastrar até o dia 22 de agosto.

O BRB não mencionou nomes de ex-administradores que podem vir a ser processados pelo banco.

A Folha procurou a assessoria do BRB para um posicionamento às 08h09 por email, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

Segundo o conselho, a medida acontece "visando à reparação financeira causada ao patrimônio social e moral em decorrência das operações realizadas com o ecossistema Banco Master/REAG, no contexto dos fatos apurados na Operação Compliance Zero".

Pela lei, o BRB só pode processar ex-administradores para pedir ressarcimento de prejuízos se os acionistas aprovarem a medida em assembleia. O banco estatal afirma ainda que há elementos que, em tese, permitem atribuir responsabilidade civil aos envolvidos, como possíveis violações de deveres legais ou de gestão, a existência de prejuízos e a relação entre essas condutas e os danos sofridos.

O BRB está em uma corrida para cobrir o rombo bilionário deixado pelo Master. Segundo as investigações, a instituição do Distrito Federal comprou R$ 12,2 bilhões em créditos falsificados do Banco Master, de Daniel Vorcaro, apesar de ter declarado ter recuperado parte do valor.

De acordo com o Banco Central, o montante necessário para a instituição cobrir as perdas decorrentes dos negócios poderia superar R$ 5 bilhões, em razão da baixa qualidade dos ativos.

O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi preso pela PF em abril deste ano sob acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Costa esteve no cargo entre o final de janeiro de 2019 e novembro de 2025. À época, a defesa dele disse que Costa não praticou nenhum crime e que prisão foi exagero por parte da Justiça.

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