Justiça Federal ordena ações urgentes para povo maxakali em Minas Gerais, por colapso sanitário

Os Maxakali, ou Tikmũ’ũn, somam cerca de 2,7 mil indígenas distribuídos em aldeias nos municípios de Teófilo Otoni, Ladainha, Bertópolis e Santa Helena de Minas, no nordeste de Minas Gerais

Justiça Federal ordena ações urgentes para povo maxakali em Minas Gerais, por colapso sanitário
Justiça Federal ordena ações urgentes para povo maxakali em Minas Gerais, por colapso sanitário

Rio De Janeiro, Rj (folhapress) - 03/08/2026 07:23:32 | Foto: Divulgação/MPF

A Justiça Federal determinou que a União, o estado de Minas Gerais, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e quatro municípios do vale do Mucuri adotem uma série de medidas emergenciais para reestruturar a assistência à saúde do povo indígena maxakali.

A decisão atende a uma ação civil pública do MPF (Ministério Público Federal). A Procuradoria aponta um quadro de colapso sanitário e mortalidade infantil acima da média entre a população indígena.

O juiz federal Antonio Lucio Tulio de Oliveira Barbosa assinou a decisão judicial no último dia 23.

O MPF usa dados do Lisc (Laboratório Interdisciplinar e Interepistêmico em Saúde Coletiva), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), de 2025, que indica uma mortalidade proporcional entre crianças indígenas menores de 1 ano dez vezes superior à registrada entre não indígenas dos municípios vizinhos.

Entre crianças de 1 a 4 anos, a diferença chega a 30 vezes. O coeficiente de mortalidade infantil entre os maxakali é de 66,7 óbitos por 1.000 nascidos vivos, ante 17,5 por 1.000 entre a população não indígena.

Houve um surto de diarreia no início do ano na Aldeia Escola Floresta, e uma criança morreu. Na decisão liminar, a Justiça Federal determinou que a União passe a monitorar sistematicamente a qualidade da água em todas as aldeias da região e garanta o fornecimento regular de água potável às comunidades no prazo de 30 dias.

Também ordena que o governo mineiro e os municípios de Bertópolis, Ladainha, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni assegurem abastecimento contínuo de água nas escolas indígenas. Também obriga ajustes no sistema de para-raios das cidades, especialmente Bertópolis. Em março, descargas elétricas atingiram a terra indígena, causando incêndio de habitações tradicionais.

Em outro trecho, o juiz determinou que a gestão Mateus Simões (PSD) e o município de Teófilo Otoni garanta prioridade na regulação hospitalar de pacientes maxakali.

Procurado por email, o governo mineiro disse em nota que, em dezembro, articulou com municípios e União "repasse de recursos para o atendimento pelo Centro Estadual de Atenção Especializada de Teófilo Otoni". O serviço, diz a gestão, "inclui consultas, exames e acompanhamento nas áreas de pré-natal de alto risco, pediatria, câncer de mama e do colo do útero, hipertensão e diabetes".

Também afirmou que executa ações de transporte sanitário, acesso a medicamentos, regulação assistencial e acionamento de ambulância em áreas de difícil acesso.

Procurados por email, a Funai e os municípios de Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni não responderam.

A União poderá receber multa de R$ 60 mil caso não cumpra as medidas em 30 dias. A multa ao governo de Minas poderá ser de R$ 40 mil. O município de Teófilo Otoni (MG) poderá receber multa de R$ 20 mil, e os outros três municípios têm multa prevista de R$ 15 mil.

O MPF pediu que o povo maxakali fosse reconhecido como situação de "hipervulnerabilidade de contato", o que foi negado pela Justiça. O magistrado entendeu que o tema exige maior produção de provas, além da realização de consulta prévia à comunidade indígena.

A ação diz que a categoria de isolamento não se aplica aos maxakali.

"Os Tikmu'un [maxakali] têm contato histórico documentado com a sociedade nacional desde o século 18. Falam português como segunda língua. Têm funcionários públicos em seus territórios. Têm dois vereadores eleitos", diz o texto.

"O que se propõe é diferente: a classificação funcional de povo em situação de hipervulnerabilidade de contato, reconhecendo que o contato prolongado com a sociedade nacional não produziu integração."

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