Mendonça autorizou PF a monitorar telefone de Jaques Wagner por suspeita de vazamento de operação
Raquel Lopes-brasília, Df (folhapress) - 31/07/2026 17:13:11 | Foto: Alessandro Dantas/PT
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHARPRESS) - O senador Jaques Wagner (PT-BA) disse nesta sexta-feira (31) ter certeza de que vai provar sua inocência em meio às investigações que ligam seu nome ao Banco Master.
Em entrevista à Rádio Baiana FM, Wagner afirmou que não poderia dar declarações sobre as suspeitas por orientação dos advogados. O petista declarou que tem recebido apoio do presidente Lula e que estará com ele na convenção do PT-BA, marcada para este sábado (31).
"Vou só citar uma frase no texto do próprio André Mendonça [ministro do STF relator do caso] que diz: 'O inquérito serve até para afastar a culpa'. Eu tenho certeza que vou provar a minha inocência. O inquérito evidentemente demora um tempo. Eu agora estou focado na eleição", disse o senador.
Documentos da Polícia Federal indicam que o senador e o empresário Augusto Ferreira Lima, executivo ligado ao Banco Master conversaram em ao menos 74 chamadas telefônicas ao longo de um ano e meio.
Ocorridas entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025, elas somam cinco horas e trinta minutos de duração.
Além das ligações, os documentos apontam que o senador recebeu presentes, usou jatinhos e até articulou um encontro "discreto" em seu gabinete entre executivos do Banco Master e o ministro da AGU (Advocacia-geral da União), Jorge Messias.
Wagner mencionou outra investigação de que foi alvo em 2018, também em ano eleitoral, quando foi candidato ao Senado Federal pela primeira vez.
"Em 2018 teve o mesmo episódio. Na época era sobre Fonte Nova. Abriram inquérito, fizeram aquele barulho, e depois eu nem fui indiciado, não teve nem processo e foi arquivado", disse.
Wagner se refere à Operação Cartão Vermelho, deflagrada em fevereiro de 2018, que apurava o suposto pagamento de R$ 82 milhões das empreiteiras OAS e Odebrecht pelo superfaturamento do contrato de reconstrução e gestão do estádio.
Posteriormente, a investigação foi anulada pela Justiça.
Policia Federal aponta presentes de ex-sócio do Master a políticos e 74 ligações com Jaques Wagner
Documentos da Polícia Federal revelam que o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Ferreira Lima, executivo ligado ao Banco Master conversaram em ao menos 74 chamadas telefônicas ao longo de um ano e meio.
Ocorridas entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025, elas somam cinco horas e trinta minutos de duração.
Além das ligações, os documentos apontam que o senador recebeu presentes, usou jatinhos e até articulou um encontro "discreto" em seu gabinete entre executivos do Banco Master e o ministro da AGU (Advocacia-geral da União), Jorge Messias.
Além de Jaques Wagner, outros políticos teriam recebido vinhos do empresário de até R$ 5.300. Entre eles o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil) e o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa.
Os investigadores ressaltam uma nítida preferência pelo uso de ligações de voz via WhatsApp em detrimento de mensagens escritas. Essa forma de comunicação sugere, segundo o documento, uma tentativa de evitar o registro textual de temas sensíveis tratados entre o parlamentar e o empresário.
O senador foi procurado pela reportagem, mas ainda não retornou, assim como os outros políticos citados. O contato foi feito para a assessoria de comunicação de cada um por meio do WhatsApp.
Em entrevista à Folha de S. Paulo em junho, Jaques Wagner chamou a ação da PF de "patacoada". Disse que não tinha conhecimento dos valores pagos para a empresa da nora e que a investigação está "criminalizando qualquer tipo de relacionamento".
"O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra."
A análise da PF relaciona a duração das chamadas a eventos de interesse do Banco Master. Em 13 de agosto de 2024, data da inclusão da emenda que tratava da cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), Augusto Lima fez uma ligação de 9 minutos e 19 segundos para o senador. Após o término da chamada, o empresário encaminhou o link da emenda diretamente ao senador.
Em 28 de outubro de 2024, após uma conversa de 3 minutos e 12 segundos, Lima enviou ao senador uma notícia sobre a intenção do governo de barrar projetos que colocariam o FGC em risco.
Diálogos indicam que o senador integraria uma ala do governo favorável à venda do Banco Master ao BRB, tema que também permeou as comunicações.
As ligações, porém, não se restringiam a assuntos profissionais. O relatório descreve uma relação marcada por "manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar". Além das chamadas, a PF investiga se essa proximidade resultou na concessão de vantagens indevidas.
Segundo a investigação, há pelo menos quatro situações em que o senador utilizou aviões ou helicópteros do empresário. Houve também o custeio de ingressos para um show da cantora Taylor Swift, sendo um dos lotes, no valor de R$ 63 mil, destinado à filha e à neta do parlamentar.
A investigação também aponta tratativas para a compra de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador. O Poème Horto é um empreendimento imobiliário de luxo localizado no bairro Horto Florestal, na capital baiana.
Segundo a Polícia Federal, as negociações continuaram ativamente mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.
A PF afirma que o conjunto das 74 ligações, somado às demais evidências reunidas na investigação, aponta um "arranjo estruturado" entre agentes privados e o agente público. Os investigadores dizem que os indícios sugerem a concessão de vantagens financeiras e patrimoniais potencialmente associadas ao exercício da função pública do senador.
Relatório da Polícia Federal também atribui ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro a coordenação da logística para o transporte do senador em aeronaves privadas, com orientações voltadas a reduzir a visibilidade da operação.
Em mensagens de 11 de setembro de 2024, Vorcaro deu instruções para que o voo ocorresse da forma mais discreta possível. Entre as orientações registradas pela PF estão as frases: "Algum [hangar] que ninguém conheça", "E tira o avião rápido de lá" e "nem apaga o motor".
Segundo os investigadores, as determinações tinham como objetivo minimizar o tempo de exposição da aeronave e evitar que a operação fosse identificada por terceiros. O grupo transportado incluía o senador Jaques Wagner e seu assessor Lucas Reis.
A investigação também descreve tratativas para a realização de uma reunião no gabinete do parlamentar com medidas para evitar o registro da entrada dos visitantes.
Em um áudio de 29 de abril de 2024, Jaques Wagner afirma ter conversado com Messias, identificado pela Polícia Federal como Jorge Messias, advogado-geral da União, para ajustar o horário do encontro em razão de compromissos do chefe da AGU com o presidente da República.
Na gravação, o senador sugere que a reunião ocorra em seu gabinete por ser o local "mais protegido e discreto para todo mundo". Ao empresário Augusto Lima, o senador afirma: "eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você... e você não precisa nem passar pela identificação".
De acordo com o relatório, no dia seguinte ao encontro, o sistema do WhatsApp registrou que Jorge Messias adicionou o contato de Augusto Lima e ativou o recurso de mensagens temporárias, configurado para apagar automaticamente as conversas após sete dias.
Outro ponto identificado pela Polícia Federal no celular de Augusto Lima seria uma mensagem enviada por sua secretária com uma lista intitulada "Lembranças de Final do Ano". Nela, constavam nomes de políticos, inclusive do senador. Junto à relação de destinatários, havia uma lista de vinhos cujos valores variavam de R$ 2.500 a R$ R$ 5.300.
Mendonça autorizou PF a monitorar telefone de Jaques Wagner por suspeita de vazamento de operação
ANA POMPEU-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a Polícia Federal a monitorar o celular do senador Jaques Wagner (PT-BA) depois de identificar riscos de vazamentos de informações da operação que investiga as fraudes do Banco Master. Segundo o relator, a suspeita surgiu depois de um dos alvos procurar o gabinete dele dias antes da deflagração das medidas contra o parlamentar.
De acordo com informações de pessoas a par das investigações, o próprio senador esteve no Supremo para falar com o ministro em 17 de junho, na véspera da operação contra ele.
A medida, que inclui o monitoramento de localização em tempo real (ERB) e o acesso a registros de chamadas, foi motivada por um "risco agudo de vazamento" das diligências.
Além de Jaques Wagner, o ministro autorizou a medida contra o empresário Augusto Lima, o enteado do senador Eduardo Mendonça Sodré Martins, David Lopes Monteiro, o pai de Eduardo, Guilherme Henrique Sodré Martins, e a diretora da PKL One Participações Andréa Lima Novaes.
A reportagem procurou o senador na noite desta quinta-feira (30), mas não obteve resposta. Em ocasiões anteriores, Jaques Wagner negou qualquer irregularidade que o envolvesse com o banco.
A decisão de Mendonça é do dia 23 de junho e teve o sigilo retirado nesta quinta. O ministro afirma que já houve anteriormente na investigação do Master casos de antecipação de ações policiais.
Diante desse cenário, Mendonça considerou "operacionalmente relevante" o acesso aos dados de localização para garantir a eficácia da operação e evitar a destruição de provas.
"Impende realçar a ocorrência de fato que agudiza os riscos de vazamento indevido da operação no presente caso. Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Policia Federal relacionadas a presente fase investigativa (09/06/2026), inclusive em horário anterior a distribuição de algumas das representações formuladas", disse.
Na mesma decisão, Mendonça restringe a medida aos terminais e alvos determinados. Quanto ao monitoramento em tempo real, o ministro fixou o período de dez dias para a análise.
O ministro disse não autorizar acesso ao conteúdo das comunicações. A PF pode acessar dados técnicos, metadados, registros de chamadas, ERBs e informações de conexão necessárias à localização aproximada dos terminais e à reconstrução da cadeia comunicacional.
A PF apura suspeitas de que o senador recebeu pagamentos ligados ao Master por meio da empresa da nora dele, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. A operação foi deflagrada em 18 de junho.
A apuração se deu a partir da análise de material apreendido com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.
Em novembro de 2024, o senador encaminhou à Augusto Lima o contato do gerente da Construtora Moura Dubeux, de Salvador e escreveu: "A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi". No dia seguinte, enviou também o livro digital do empreendimento, segundo a investigação policial.
Naquela mesma data, Augusto Lima teria repassado a um associado dados do corretor, do empreendimento, da unidade e do valor do apartamento.
Seis meses depois, Jaques Wagner encaminha mensagem de texto de "um filho ou filha", segundo a PF, e pede que Lima consiga dados do proprietário real do imóvel.
"Pai, bom dia! Para envio do projeto com as alterações no apartamento, é exigido também o envio do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). Para emitir esse RRT são necessários dados do proprietário", diz a mensagem recebida por Wagner e encaminhada à Lima com o pedido: "consiga esses dados".
"Tais elementos conferem plausibilidade à hipótese de que o imóvel se encontrava formalmente vinculado a terceiro, em estrutura de dissimulação da titularidade real", afirma André Mendonça na decisão que autorizou a operação.
A Polícia Federal identificou um pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Augusto Lima ao "núcleo familiar" de Jaques Wagner, o que segundo Mendonça é uma das evidências de proximidade.
A transferência aconteceu em outubro de 2025, após o Banco Central barrar a venda do Master para o BRB, e foi da PKL One -que pertence à prima de Lima, Andréa- para a BN Financeira -que é de Eduardo Sodré, cunhado de Jaques.
Mensagens mostram, inclusive, que Sodré cobra de Augusto Lima a efetivação do pagamento. O empresário justifica o atraso justamente em razão da crise do Master.
Em entrevista à Folha de S. Paulo em junho, Jaques Wagner chamou a ação da PF de "patacoada". Disse que não tinha conhecimento dos valores pagos para a empresa da nora e que a investigação está "criminalizando qualquer tipo de relacionamento".
"O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra."
Comentários para "Senador Jaques Wagner diz que vai provar inocência em investigação do caso Master":