De líder sindical a herdeiro de Chávez, Maduro virou rosto da crise venezuelana
Douglas Gavras-buenos Aires, Argentina (folhapress) - 07/01/2026 09:55:09 | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil
Os mais de dez anos no poder fizeram de Nicolás Maduro, 63, uma figura incômoda na esquerda latino-americana. De trabalhador do sistema de transporte coletivo de Caracas a líder sindical, de ministro a vice-presidente, seu caminho até a Presidência da Venezuela está intimamente ligado à figura de Hugo Chávez, que o escolheu como seu sucessor.
No comando do país, o ditador acumulou crises econômicas, protestos em larga escala, eleições contestadas e amargou um isolamento internacional nos últimos anos, mas vinha conseguindo se manter no poder apesar da oposição e da condenação global.
Neste sábado (3), após uma escalada de tensão com o governo de Donald Trump, o americano anunciou que o ditador e sua esposa foram capturados e levados para fora da Venezuela, após um ataque ao país, o que poderia encerrar um regime de mais de 25 anos.
Maduro nasceu em 23 de novembro de 1962, em Caracas. É filho de Nicolás Maduro García e Teresa de Jesús Moros. Casou-se com a advogada Cilia Flores, outra líder histórica do chavismo, e é pai do também político Nicolás Ernesto Maduro Guerra.
O ditador cresceu em uma família com tendências políticas à esquerda e não teve uma educação formal universitária.
Seus primeiros passos na política foram dados ainda na década de 1970, quando ele ingressou na Liga Socialista, um grupo marxista-leninista-maoísta e, mais tarde, aderiu ao Movimento Revolucionário Bolivariano, fundado por Hugo Chávez.
Maduro trabalhou na rede de transporte metropolitano de Caracas, tornando-se mais tarde líder sindical da categoria.
Sua carreira pública decolou quando Chávez foi eleito em 1998, e Maduro ocupou diferentes funções no chavismo, incluindo a de um dos redatores da nova Constituição, deputado e ministro das Relações Exteriores. Enquanto foi ministro, comandou a aproximação do país com China, Cuba e Irã.
Em 2012, Maduro deixou a pasta para assumir a Vice-Presidência da Venezuela. Em 2013, Maduro assumiu o comando do país de forma interina, após a morte de Chávez, acometido por um câncer, e venceu o opositor Henrique Capriles nas eleições com uma margem estreita, o que gerou denúncias de irregularidades.
Com a queda do preço do barril de petróleo, a escalada da inflação, o aumento de protestos de rua e da insatisfação popular, em 2015 o chavismo sofreu uma derrota eleitoral que lhe custou a maioria no Parlamento.
Sem contar com a mesma popularidade de Chávez e enfrentando pressões internas e externas, Maduro se tornou o rosto da pior crise econômica enfrentada pelo país. O ditador declarou um estado de emergência econômica em 2016, o que lhe deu poderes extraordinários.
Na eleição de 2018, Maduro foi declarado reeleito, mas o processo foi considerado fraudulento, e sua base de apoio popular diminuiu ainda mais. Apesar de perder apoio internacional, ele manteve o apoio das Forças Armadas e de aliados como Rússia e China.
No processo eleitoral mais recente, em que Maduro buscava seu terceiro mandato consecutivo, a líder oposicionista María Corina Machado foi impedida pelo regime de se candidatar. Em seu lugar, a oposição agrupada na Plataforma Unitária Democrática apresentou Edmundo González.
Em mais um novo processo eleitoral com ampla denúncia de fraudes, o Conselho Nacional Eleitoral declarou Maduro vencedor com 51,2%. A oposição afirma que as atas mostram que González foi o vencedor; o regime nunca divulgou os documentos.
Neste sábado, a secretária de Justiça dos EUA, Pam Bondi, afirmou que Maduro e Flores serão julgados em Nova York. Ele também enfrentava severas acusações de corrupção e violações de direitos humanos.
Em 2018, Maduro gerou indignação na Venezuela ao comer em restaurante de luxo em Istambul; relembre
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Capturado neste sábado (3) pelos EUA durante ofensiva militar contra a Venezuela, o ditador Nicolás Maduro já foi alvo de críticas em 2018 por ser filmado fumando charuto em um restaurante de luxo em Istambul, na Turquia.
À época, as imagens de Maduro comendo uma refeição preparada pelo conhecido chef turco Nusret Gökçe causaram indignação entre venezuelanos, que enfrentavam a disparada dos índices de fome devido à crise econômica e à hiperinflação.
"Isto é apenas uma vez na vida", declarou Maduro na ocasião, em que aparece junto com sua mulher, Cilia Flores. Conhecido como Salt Bae, o chef costuma atender pessoalmente celebridades como Leonardo di Caprio e Cristiano Ronaldo.
O ditador venezuelano afirmou que parou em Istambul para atender a um convite de almoçar com autoridades turcas, após uma viagem à China –onde foi em busca de financiamento.
"Almoçamos em um restaurante famoso. Envio saudações a Nusret, que nos atendeu pessoalmente, estivemos conversando, desfrutando com ele (...), ama a Venezuela", disse em cadeia de rádio e TV.
As gravações foram difundidas nas redes sociais de Salt Bae, que agradeceu A Maduro pela visita, mas posteriormente apagou as imagens do Instagram após milhares de críticas.
Os pratos nos restaurantes do chef custavam, em 2018, entre US$ 70 e US$ 250 (R$ 290 e R$ 1.033), de acordo com meios de comunicação especializados. Era o equivalente a entre dois e oito meses de salário mínimo na Venezuela à época, dependendo da cotação oficial.
Segundo Maduro, o chef o acompanhou também na vista a um museu com relíquias do Império Otomano. "Sentei na cadeira de um sultão. O sultão Maduro, como me chamam agora. E olha: aprendi a técnica", disse o ditador, em referência ao gesto do chef de jogar sal na carne.
"Comendo carne e fumando charutos (...) com os dólares que são negados para comprar remédios e alimentos: PRESIDENTE OPERÁRIO", disse o dissidente chavista Nicmer Evans, referindo-se à severa escassez na Venezuela.
A crise na Venezuela, com uma hiperinflação estimada em 1.000.000% em 2018 pelo FMI, fez os índices de pobreza chegarem a 87% em 2017, segundo um estudo das principais universidades do país. Já o governo, que assegurava ser vítima de uma "guerra econômica" de empresários de direita, afirmou que o índice era de cerca de 20%.
A pesquisa também estimou que 60% dos venezuelanos perderam, em média, 11 quilos de peso no período, devido a uma dieta com excesso de farinhas e falta de proteínas.
O que é a Força Delta, tropa de elite dos EUA que capturou Maduro na Venezuela
MARINA PINHONI-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operação que culminou com a captura neste sábado (3) do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, foi comandada por membros da Delta Force (Força Delta, em português), tropa de elite do Exército dos EUA. A informação foi confirmada por autoridades à rede de TV CBS News.
Essa unidade de operações especiais é treinada para missões secretas de captura e eliminação de alvos, resgate de reféns e ações antiterroristas, tendo participado das duas décadas de guerras dos EUA no Oriente Médio.
Oficialmente chamado de 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais, a Força Delta também é conhecida como CAG (sigla em inglês para Grupo de Aplicações de Combate) e Força Tarefa Verde. Foi criada nos anos 1970 para ser uma unidade antiterrorista em tempo integral.
O grupo foi responsável pela operação, em 2019, que matou o então líder do Estado Islâmico Abu Bakr al-Baghdadi na província de Idlib, na Síria. Segundo o presidente Donald Trump, o extremista estava sendo monitorado havia semanas e, ao se ver acuado por militares em uma perseguição, teria acionado um colete de explosivos, matando a si mesmo e três crianças.
A morte de Baghdadi ocorreu semanas depois de Trump anunciar a retirada das tropas americanas da Síria, o que gerou críticas de que a mudança levaria ao refortalecimento do Estado Islâmico.
A possibilidade de atuação da Força Delta na Venezuela já havia sido levantada em novembro pelo jornal The Washington Post, após reuniões na Casa Branca centradas na deliberação de uma ação militar.
As informações sobre os recursos empregados no ataque deste sábado ainda são escassas, mas imagens gravadas por moradores da capital Caracas e de outros pontos atingidos dão pistas de que a ação combinou o emprego de fogo aéreo de longa distância e forças especiais apoiadas por ataques de helicópteros a curta distância.
Trump afirmou que as forças demoraram 47 segundos para capturar o ditador Maduro e sua mulher em um complexo na capital Caracas. Um contingente de 150 aeronaves foi mobilizado a partir de 20 pontos, incluindo o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald Ford, e o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima, um dos pontos centrais da operação, segundo o chefe do Estado-Maior Conjunto americano, general Dan Caine.
Imagens gravadas em Porto Rico, base de operações, mostraram também a mobilização de caças F-35 e do drone RQ-170, ambos furtivos ao radar.
A reação venezuelana foi mínima, elevando as suspeitas de que possa ter havido algum acordo entre os militares do país e o governo Trump para entregar Maduro. Ainda assim, houve ataques coordenados a pelo menos cinco pontos em três estados do país caribenho.
De acordo com o New York Times, o ataque dos EUA deixou um número não especificado de venezuelanos mortos e feridos, mencionando o comunicado de autoridades venezuelanas. O número de vítimas ainda está sendo avaliado.
O paradeiro exato de Maduro e de sua esposa segue desconhecido. Trump publicou uma foto de Maduro dentro de um avião e confirmou que ambos serão levados para Nova York, onde, segundo a secretária de Justiça Pam Bondi, já foram indiciados criminalmente. Tanto a vice do ditador, Delcy Rodríguez, quanto o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, condenou os ataques e exigiu prova de vida de Maduro e Cilia.
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