Emails indicam que Flávio Bolsonaro dividia conta com suspeito de lavar dinheiro do INSS
Italo Nogueira-rio De Janeiro, Rj (folhapress) - 11/10/2026 07:42:15 | Foto: Vittor Salles/Fotos Públicas
RAQUEL LOPES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Emails obtidos pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, compartilhava uma conta bancária no Santander com o advogado e empresário Willer Tomaz, suspeito de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado a fraudes no INSS. Os dois negam.
As informações foram reveladas inicialmente pelo UOL e confirmadas pela Folha.
Uma das trocas de emails entre uma funcionária de Willer Tomaz e o Santander tratava de uma conta bancária relacionada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual o advogado é sócio.
Em maio de 2025, a funcionária solicitou ao banco que Flávio Bolsonaro fosse desvinculado da conta relacionada à empresa de Willer.
Em nota, a assessoria de comunicação do senador disse que Flávio "nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas". "Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa", afirmou.
"Essas insinuações não surgem por acaso. Aparecem agora, em pleno período eleitoral, com um propósito único: espalhar fake news. É importante ressaltar que a divulgação de fake news é crime eleitoral. Os envolvidos pela divulgação de notícias falsas serão responsabilizados criminalmente", acrescentou.
A assessoria de comunicação de Willer, por meio de nota, negou que o advogado tenha compartilhado uma conta bancária com Flávio ou mantido qualquer relação financeira com o parlamentar. "Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira", afirmou.
A defesa classificou as informações divulgadas como falsas e afirmou ter adotado medidas criminais contra a publicação. Também alegou que as acusações teriam motivação eleitoral e buscariam interferir no resultado das eleições.
Ainda segundo a nota, a Polícia Federal determinou a abertura de uma investigação para apurar o vazamento de informações protegidas por sigilo que, de acordo com a assessoria, teriam sido distorcidas.
Em agosto deste ano, Willer Tomaz e parentes do senador Weverton Rocha (PDT-MA) foram alvos da Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao esquema de fraudes no INSS.
Willer mantém relações com parlamentares de diferentes espectros políticos. Além da proximidade com Flávio Bolsonaro, também tem interlocução com integrantes da base do governo Lula (PT).
Nos bastidores de Brasília, Willer é conhecido por ostentar influência política e manter trânsito entre ministros de tribunais superiores.
Ele foi um dos principais articuladores da tentativa de indicação do então procurador-geral da República Augusto Aras para a segunda vaga aberta no STF (Supremo Tribunal Federal) durante o governo Jair Bolsonaro.
A articulação, porém, não prosperou. Bolsonaro acabou indicando André Mendonça, após afirmar que escolheria um ministro "terrivelmente evangélico".
Posteriormente, Willer passou a figurar entre os principais cotados para uma vaga no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) destinada à indicação da Câmara dos Deputados. Diante da repercussão em torno de seu nome, desistiu da disputa.
A Folha revelou que o então ministro-chefe da Casa Civil Ciro Nogueira (PP) utilizou uma filial de sua empresa de venda de motocicletas no Piauí para alugar uma mansão no Lago Sul, em Brasília, adquirida meses antes por Willer.
O advogado chegou a ser preso pela Polícia Federal em 2017, no âmbito da Operação Patmos, deflagrada após a delação da JBS. Segundo a Procuradoria-Geral da República, ele teria atuado como intermediário no vazamento de informações sigilosas do Ministério Público Federal. A denúncia, contudo, foi rejeitada pela Justiça.
Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto de líder da Assembleia de Deus
O senador Flávio Bolsonaro (PL) cantou e recebeu pedido simulado de voto neste sábado (10) durante um culto para celebrar o centenário da Assembleia de Deus Ministério Madureira, no ginásio Maracanãzinho, na zona norte do Rio de Janeiro.
As falas com carga política foram feitas pelo bispo Samuel Ferreira, um dos líderes da Assembleia de Deus. Após entoar e coordenar um coro no ginásio lotado que, por 14 vezes, repetiu o lema "irmão vota em irmão", Ferreira disse que não estava pedindo voto. Flávio se declara evangélico.
"Se a mídia aqui presente disser que estou pedindo voto está completamente equivocada. Eu só estou dizendo irmão vota em irmão. Se eu pudesse pedir voto, eu pediria. Mas eu não gosto de pedir voto aqui, porque vão falar que eu pedi voto. Mas se eu pudesse eu pediria. Pediria voto para o Flávio. Porque o Flávio é honesto. Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é sério", afirmou Ferreira.
O uso da estrutura e da autoridade de uma igreja pode configurar abuso de poder religioso. A classificação não existe no código eleitoral, mas tem sido usado pela Justiça Eleitoral para moderar a influência de líderes religiosos sobre seus fiéis.
"Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é crente. Pediria voto para o Flávio, porque o voto nele foi indicado pelo [ex-] presidente. Pediria a voto pro Flávio, porque ele é cheio de Deus, mas eu não posso pedir voto. Se eu pudesse eu pediria, e se alguém disser que eu estou pedindo, está enganado, porque eu não posso pedir voto", disse Samuel Ferreira.
Em seguida, o bispo afirmou que a igreja se empenharia na campanha, sem mencionar diretamente a candidatura do presidenciável.
"O que eu posso é dizer, que nós vamos redar a camisa. Nós vamos romper o cerco .Essa igreja nunca se firmou no anonimato", afirmou o líder da denominação.
Logo em seguida, convidou Flávio para o púlpito o chamando de "futuro presidente da República Federativa do Brasil". O público começou a gritar: "É 22!", em referência ao número de urna do candidato.
"O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo", disse Flávio.
"Não pensem que é fácil sair de casa todos os dias e enfrentar, além de inimigos mentirosos, que tentam usar a arma do diabo que é mentira para enganar muita gente. E mais do que isso, pessoas que são perigosas. Enfrentá-las não é fácil. E mais do que isso, enfrentar essa guerra espiritual que o Brasil está passando nesse momento não é fácil", disse o senador.
O bispo Silas Malafaia estava presente, mas, no período em que a imprensa esteve no local, não fez discurso com teor político.
Samuel Ferreira também falou em saudade do ex-presidente Jair Bolsonaro e lamentou a sua prisão.
"A gente queria dar um oi. A gente queria mandar um beijo para ele. Que país é esse? Onde nós estamos? Dói. Mas dói muito. Porque nós temos e respeitamos a lei ainda que discordemos dela. Mas morreremos respeitando", afirmou o bispo.
A expressão "irmão vota em irmão" foi cunhada no título do livro de Josué Sylvestre, assessor parlamentar ligado a outra Assembleia, citado por Samuel Ferreira em sua pregação.
Flávio diz que quem calou Bolsonaro será responsável por sua vitória
ITALO NOGUEIRA-RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou neste sábado (10) que as pessoas que "tentaram calar" o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) serão as responsáveis pela sua eventual vitória na disputa pela Presidência da República.
Em discurso em São Gonçalo (RJ), ao lado do governador eleito Douglas Ruas (PL), ele também voltou a dizer que receberá a faixa presidencial das mãos de Bolsonaro, que está em prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.
"Vocês verão aqueles que tentaram calar Jair Messias Bolsonaro, aqueles que tiraram o poder dele na mão grande são os mesmos que estão colocando Flávio Bolsonaro na cadeira de presidente", disse ele.
Flávio participou de uma carreata na base eleitoral de Ruas, onde teve 52,37% dos votos válidos, contra 40,41% do presidente Lula (PT). A diferença é ligeiramente menor do que a registrada em todo o estado (53,01% contra 39,41%).
À tarde, o senador teve um encontro com apoiadoras de sua candidatura, com a presença da economista Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, e a vice-governadora eleita Fernanda Louback (PL).
Em Brasília, o senador eleito Carlos Bolsonaro (PL) visitou o pai neste sábado (10) durante duas horas e afirmou que a primeira coisa que Jair Bolsonaro quer fazer se for solto da prisão é passar uma semana em Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ).
"Ele está feliz com o que está acontecendo no Brasil, com a possibilidade que a gente possa evoluir", disse Carlos, em vídeo para as redes sociais, após visitar o pai em prisão domiciliar.
O STF condenou o ex-presidente em setembro de 2025 a 27 anos e três meses de prisão por tentar dar um golpe para permanecer no poder após ser derrotado por Lula em 2022. Por razões de saúde, ele cumpre pena em prisão domiciliar desde março deste ano.
Flávio tem como uma das promessas de campanha conceder indulto presidencial ao pai.
Inicialmente, conta com a revisão da pena do pai por parte do STF (Supremo Tribunal Federal). Na segunda-feira (5), a Folha mostrou que o ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro ao cargo, quer julgar logo após o segundo turno a ação que pede a soltura do ex-presidente. Se o julgamento não ocorrer até janeiro, e se eleito, o senador deve apostar no indulto.
Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que é altamente improvável que haja tempo hábil para isso -e afirmam que, mesmo que o perdão presidencial sobreviva a questionamentos no STF, Bolsonaro permaneceria inelegível.
Flávio Bolsonaro promete novo alívio em dívidas de estados após pedido de governador eleito de MG
IDIANA TOMAZELLI E THAÍSA OLIVEIRA-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, se eleito no segundo turno, um novo alívio nas dívidas dos estados após um pedido do governador eleito de Minas Gerais, o atual senador Cleitinho Azevedo (Republicanos).
Cleitinho, que se elegeu em primeiro turno no segundo maior colégio eleitoral do país, declarou apoio à candidatura de Flávio e, ao lado do presidenciável, pediu a revisão da dívida mineira. A medida pode reduzir receitas da União e ampliar o endividamento do país.
"Vim pedir para ele -não só eu, mas todos os deputados e senadores aqui- a humildade de entender que, assim que ele ganhar, a gente poder dialogar sobre a dívida que o estado tem com o governo federal. Isso é extremamente importante. Flávio está fazendo esse compromisso de poder rever essa dívida", afirmou o governador eleito em vídeo publicado nas redes na quinta-feira (8).
"Faça esse compromisso conosco, Flávio", emendou Cleitinho, que logo na sequência recebeu o sinal positivo do presidenciável. "Está feito o compromisso", disse o candidato.
Minas Gerais foi um dos maiores beneficiados pelo Propag, programa de renegociação de dívidas aprovado sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A medida foi inicialmente proposta pelo Ministério da Fazenda após reivindicações capitaneadas pelo então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, hoje ministro do TCU (Tribunal de Contas da União).
Durante a tramitação no Congresso, as benesses do programa foram ampliadas. A versão que prevaleceu reduziu os juros de 4% para até zero, a depender da modalidade de adesão, e ainda aliviou a correção monetária da dívida.
Como resultado, o Tesouro Nacional calculou uma perda de R$ 347 bilhões em 30 anos em benefício dos estados. Desse valor, R$ 82,9 bilhões serão apropriados por Minas Gerais, em valores de hoje.
Para o governador eleito e a bancada mineira, a medida é insuficiente. Hoje, o estado deve R$ 187,5 bilhões à União, segundo dados atualizados pela própria secretaria estadual de Fazenda.
"O que eu já pedi, e era uma sugestão, [é que] o governo federal tem muitas obras para fazer dentro do governo do estado. [O que eu sugiro é que] essa prestação que a gente tem que pagar todo mês, que possa ser revertida em obras para Minas Gerais", reivindicou Cleitinho.
O candidato a presidente lembrou que a possibilidade de abater a dívida com obras realizadas nos estados chegou a ser aprovada pelo Congresso, mas acabou vetada pelo governo.
"A gente votou, inclusive, essa alteração legal, para que essa dívida pudesse ser compensada dessa forma, não só em infraestrutura, mas também em segurança pública, por exemplo. O que foi vetado pelo Lula", afirmou Flávio.
O artigo em questão autorizava os estados a realizar "amortizações extraordinárias", ou seja, abater o saldo devedor mediante "prestação de serviços de cooperação federativa". A lista incluía ações de proteção e defesa civil, segurança pública, saúde, defensoria pública, ajuda humanitária, realização de obras de engenharia e de infraestrutura aeroportuária, "entre outros de interesse da União".
Na prática, os governos conseguiriam usar diversos tipos de investimento para reduzir sua dívida sem pagar nenhum centavo à União.
O dispositivo foi vetado por Lula sob recomendação do Ministério da Fazenda, que apontou o "duplo benefício" aos estados, via redução de juros e amortização da contrapartida em investimentos do saldo devedor da dívida. A pasta apontou também vício de inconstitucionalidade "em virtude da renúncia de receita decorrente da concessão do duplo benefício", o que fere o dispositivo da Constituição que exige estimativas prévias de impacto financeiro.
Nos bastidores, técnicos do órgão criticaram a possibilidade de o instrumento virar um cheque em branco para estados abaterem valores significativos de sua dívida, além do risco de eles usarem para isso gastos que já seriam executados de qualquer maneira -ou seja, não haveria incremento de fato nos investimentos sociais.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa da campanha de Flávio desde quinta, por email e mensagens de aplicativo, para saber se a renegociação das dívidas valerá para todos os estados, se foi incorporada ao plano de governo e se há estimativa de impacto para as contas públicas.
A reportagem também perguntou se a medida, ao subtrair receitas que poderiam ser usadas para pagar a dívida federal, não contradiz o compromisso do próprio candidato em reequilibrar as contas do país. Não houve resposta a nenhum dos questionamentos.
Desde quinta, Cleitinho tem reiterado em outras publicações o compromisso de Flávio com a renegociação da dívida dos estados.
Correligionário de Flávio, o deputado federal Domingos Sávio (PL-MG) -que nesta eleição se elegeu para o Senado- destacou à reportagem que o presidenciável já havia sinalizado compromisso em renegociar a dívida dos estados antes mesmo de fechar o apoio de Cleitinho à sua candidatura e, por isso, acredita no cumprimento da promessa.
"Eu tenho convicção que ele [Flávio] vai honrar esse compromisso. É claro que ele também deve procurar estabelecer o equilíbrio das finanças da União para ter condição de atender a essas questões. A bem da verdade, a União passou os últimos quatro anos sem ter essas receitas, porque Minas estava sob um processo de liminar [que suspendeu o pagamento da dívida], então não existia essas receitas dentro da estrutura global", afirmou.
No sábado (3), véspera do primeiro turno, Sávio participou brevemente de uma transmissão de Flávio e aproveitou para pedir a revisão da dívida de Minas Gerais.
"Você vai me ajudar muito, inclusive a reequilibrar essa coisa da dívida mineira, que eu já disse que você terá sensibilidade para nos ajudar", disse o deputado. "Com certeza, com certeza", respondeu o presidenciável.
Segundo Sávio, a sinalização favorável do candidato à renegociação pleiteada pela bancada mineira e por Cleitinho "dá maior densidade" à aliança com o governador eleito.
"Eu acho que tem esse aspecto, porque é um ganha-ganha. Dá maior densidade ao apoio. O eleitor que votou no Cleitinho quer que ele faça um grande governo. Eu sei, por exemplo, que praticamente 100% da segurança pública votou no Cleitinho. Ora, se ele consegue com o governo federal que parte do investimento que ele fizer em segurança pública possa ser considerado investimento que amortiza a dívida, ele terá condição de equipar melhor ainda a Polícia Militar, a Polícia Civil, de estruturar melhor o sistema prisional", afirmou o parlamentar.
Sávio disse que, além do uso de investimentos para abater a dívida, a bancada mineira vai pleitear a aplicação das regras que autorizam a entrega de ativos (como imóveis, receitas futuras e empresas estatais) para quitar parte do débito e a revisão da correção monetária remanescente (equivalente ao índice oficial de inflação).
Ao aderir ao Propag, o governo mineiro listou as participações na Cemig (estatal de energia elétrica), na Copasa (companhia de saneamento) e na Codemig (Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais), que poderiam ser federalizadas para abater a dívida com a União. A análise ainda está em curso.
Em entrevista à TV Globo após o primeiro turno, Cleitinho descartou se desfazer da Cemig. "Cemig dá lucro. O que eu tenho que fazer é colocar pessoas competentes na Cemig. [...] A Cemig é um patrimônio do Estado e será muito bem cuidada para que o cidadão tenha a prestação de serviço. [A Cemig continua] Do estado, o que é bom você não privatiza", disse.
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