Livro de 'Slow Horses' tem espiões fracassados menos heroicos que série premiada

Vivido por Gary Oldman na adaptação, Lamb é um espião bêbado, oleoso, grosseiro e avesso à higiene pessoal –são inúmeras as referências a flatulências ao longo do livro

Livro de 'Slow Horses' tem espiões fracassados menos heroicos que série premiada
Livro de 'Slow Horses' tem espiões fracassados menos heroicos que série premiada

Angela Boldrini-são Paulo, Sp (folhapress) - 25/05/2026 07:41:44 | Foto: Divulgação

Qualquer semelhança entre o serviço britânico de segurança e a trupe de espiões desarranjados que protagonizam "Slow Horses" é mera coincidência.

Quando começou a escrever a série de livros que deu origem à popular adaptação homônima exibida pela Apple TV, o escritor Mick Herron não se preocupou em fazer uma representação realista do MI5.

"Nunca fui pesquisador, e o que decidi chamar de Regent's Park, transformando-o no centro do serviço de inteligência do Reino Unido, não se baseia em nada além da minha própria imaginação", diz ele à Folha, em entrevista por email.

Parte disso, talvez, possa ser explicada pelo fato de que Herron não esperava que, ao contrário de seus protagonistas fracassados, os livros fossem se tornar um sucesso global, publicados em dezenas de países. Neste ano, o Brasil se tornou um deles, com a chegada dos dois primeiros volumes, "Slow Horses" e "Leões Adormecidos", pela editora Intrínseca.

Na obra inaugural, acompanhamos River Cartwright, um jovem e promissor espião que acaba relegado à unidade de enjeitados do MI6 depois de fracassar de forma retumbante em um exercício de treinamento. A Slough House, ou "casa do pântano" –cuja pronúncia leva ao trocadilho "slow horses", os "cavalos lentos"–, é chefiada pelo veterano Jackson Lamb.

Vivido por Gary Oldman na adaptação, Lamb é um espião bêbado, oleoso, grosseiro e avesso à higiene pessoal –são inúmeras as referências a flatulências ao longo do livro. É, também, genial.

Ao longo do livro, ele guia Cartwright e os outros "slow horses", ainda que a contragosto, enquanto o grupo tenta salvar um adolescente de origem paquistanesa sequestrado por um grupo de extrema direita.

Na vida real, o cenário é de crescimento de grupos radicais no Reino Unido. Neste mês, a BBC revelou que o MI5 frustrou um ataque terrorista planejado por um supremacista branco em 2021. Alfie Coleman pretendia matar, entre outras pessoas, uma colega que via como "traidora da raça" por ter se casado com uma pessoa não branca.

Mas "Slow Horses" começou a ser escrito em outro contexto político, o que torna surpreendente a escolha da trama. O primeiro livro foi publicado no Reino Unido em 2010, apenas cinco anos depois do atentado ao metrô de Londres cometido por terroristas islâmicos e antes do fim da Guerra do Iraque, quando a maior parte dos vilões da ficção eram muçulmanos –pense em "24 Horas" e "Homeland".

"Era uma forma de inverter a expectativa do leitor: minha intenção era que os leitores presumissem que os terroristas eram islamistas e a vítima, branca –é sempre bom manter os leitores alertas", explica Herron.

O escritor diz que não imaginava que o livro teria um quê premonitório. "Se eu soubesse naquela época que a extrema direita não apenas estaria ameaçando a democracia todos esses anos depois, mas que, de forma desconcertante, estaria sendo levada a sério por uma parcela significativa do eleitorado, eu teria ficado horrorizado", afirma. "Eu estou horrorizado."
Com o sucesso dos livros, o que aconteceu quando eles captaram a atenção do público americano poucos anos depois, Herron teve que mergulhar no universo da espionagem. "À medida que os livros foram avançando, tive que me aprofundar em como esse serviço poderia operar, como poderia interagir com o governo e com agências de inteligência estrangeiras, como poderia responder a diferentes tipos de ameaça."
Os leitores que chegarem a "Slow Horses" depois de terem visto a série de televisão –que, aliás, terá uma sexta temporada no fim de 2026– vão perceber algumas diferenças entre os dois produtos. Algumas são triviais, como a mudança de locação do treinamento, que culmina no exílio de Cartwright para a Slough House.

Outras são mais substanciais –os "slow horses" televisivos são mais heroicos que os imaginados originalmente por Herron. Aos trancos e barrancos, eles vão provando que, apesar dos erros crassos que os relegaram à segunda divisão do MI5 –um dos personagens, por exemplo, vai parar no departamento depois de esquecer um documento ultrassecreto em um vagão do metrô–, merecem uma segunda chance.

Herron não é tão leniente com seus espiões. "A narrativa televisiva tende a pender para o heroico. Felizmente, isso não foi exagerado demais na adaptação dos meus romances, mas é verdade que os 'slow horses', aqui e ali, são mais eficazes na tela do que nas páginas. Suspeito que isso tenha a ver, em parte, com permitir que o público se identifique com esses personagens e fique totalmente do lado deles."

Slow Horses: Slough House Vol. 1
Preço: R$ 79,90 (416 págs.); R$ 54,90 (ebook)
Autoria: Mick Herron
Editora: Intrínseca
Tradução: Camila von Holdefer

Leões Adormecidos: Slough House Vol. 2
Preço: R$ 79,90 (416 págs.); R$ 54,90 (ebook)
Autoria: Mick Herron
Editora: Intrínseca
Tradução: Rita Paschoalin

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