Países lusófonos unem forças em tecnologia nuclear pacífica e combate ao câncer

Aiea destaca língua portuguesa como ponte para a saúde e o desenvolvimento; vice-diretor da agência, em Nova Iorque, fala de apoio à cooperação transformando a ciência nuclear pacífica em tratamentos oncológicos, e formação médica com impacto em hospitais e comunidades

Países lusófonos unem forças em tecnologia nuclear pacífica e combate ao câncer
Países lusófonos unem forças em tecnologia nuclear pacífica e combate ao câncer

Eleutério Guevane/agência Onu News - 19/06/2026 11:13:47 | Foto: Aiea/Dean Calma

A ciência nuclear tem sido uma ferramenta para salvar vidas e impulsionar o desenvolvimento, superando a tradicional produção de energia através da iniciativa Átomos pela Vida, promovida pela Agência Internacional de Energia Atómica.

No centro desta estratégia global, a língua portuguesa atua como uma ponte para transferir tecnologia médica e agrícola ou fortalecer sistemas de saúde em África e na América Latina por meio de uma cooperação técnica atuando no cotidiano dos hospitais e campos agrícolas.

Impacto real em crises urgentes
Falando à ONU News, na sede das Nações Unidas, o diretor adjunto do Escritório de Ligação da Aiea em Nova Iorque, Nuno Luzio, realça que o impacto real destas ações responde a crises urgentes.

“Por exemplo, que é de fácil entendimento, que é o diagnóstico e o tratamento do cancro. Só para os nossos ouvintes terem uma ideia, 50% a 60% dos pacientes com cancro terão, a certa altura da doença, tratamento por radioterapia. E esse tratamento é uma tecnologia nuclear.”

Os países de língua portuguesa na agência da ONU que promove estas iniciativas são Angola, Brasil, Cabo Verde, o membro mais recente, admitido em 2023, Moçambique e Portugal.

Nuno Luzio disse que mesmo avançando a ritmos diferentes, o grande trunfo atual destes países reside numa colaboração que une atores com experiências distintas em torno de um propósito partilhado.

Brasil e Portugal
“Todos os países lusófonos, obviamente, o país charneira (de articulação) do ponto de vista nuclear é o Brasil. É um grande país, com um programa nuclear ambicioso, pacífico, e, obviamente, cheio de recursos, e, portanto, também com recursos humanos. Portanto, o Brasil tem sido um país que também tem um assento no nosso Conselho de Governadores. Portugal também, agora, mas, de facto, é um país com muito interesse em matérias nucleares e com muito conhecimento. Portugal, curiosamente, não tendo um programa nuclear, tem bastante conhecimento e expertise em física, em física nuclear e em medicina nuclear, e Angola e Moçambique estão hoje também, no fundo, a reforçar as suas capacidades.”

A transferência de conhecimento para fins pacíficos gerou uma rede de solidariedade técnica e científica que transforma realidades, apoiando diretamente nações como Angola e Moçambique em momento crucial de expansão das suas capacidades institucionais e de saúde.

Para mostrar que diplomacia não se esgota em corredores, Luzio disse que o intercâmbio gera resultados práticos no terreno.

“O que é interessante ver aqui no mundo lusófono é a cooperação que há entre estes países, mesmo no âmbito da agência, e, por exemplo, só para ilustrar aquilo que estou a explicar, por exemplo, no ano passado, três técnicos de radioterapia e dois enfermeiros especializados foram treinados, de Moçambique, do Hospital Central de Maputo, foram treinados em radioterapia no Brasil, por exemplo, ou, há alguns anos atrás, Portugal decidiu dar 50 bolsas e isenção de propinas em 20 mestrados em áreas do nuclear, particularmente em física nuclear e medicina nuclear, aliás, as bolsas eram, na maior parte, focadas em medicina nuclear, por exemplo, a países africanos de língua oficial portuguesa. E, portanto, há, de facto, cada vez mais um entendimento que os lusófonos entre si se devem apoiar nesta área do nuclear.”

Sucesso do tratamento e dignidade aos pacientes
O vice representante da Aiea defende que estes laços históricos funcionam como facilitadores de conhecimento científico crítico.

Na linha da frente contra doenças cancerígenas, o aumento de casos reportados no mundo e no continente africano prende-se fortemente com o fator demográfico. Nuno Luzio contou que com o crescimento da esperança média de vida, as populações vivem mais tempo, elevando a propensão para doenças oncológicas e tornando as ferramentas nucleares indispensáveis.

O apoio da Aiea cobre o trajeto de cuidados do paciente, atuando desde diagnóstico avançado com imagiologia nuclear até ao tratamento de precisão com radioterapia direcionada e suporte em cuidados paliativos para o alívio de sintomas.

O foco principal desse apoio está na eficiência, pois o uso de técnicas avançadas de imagem detecta tumores em fase inicial, maximizando o sucesso do tratamento e garantindo maior dignidade aos pacientes.

Além da medicina, a tecnologia nuclear pacífica continua a expandir o seu rastro no mundo lusófono em setores essenciais como a gestão da água, a agricultura de precisão e a segurança alimentar.

*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.

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