PGR pede arquivamento de depoimento de denúncias de Vorcaro sobre maus-tratos

Deputados governistas veem parcialidade de Mendonça e pedem derrubada de sigilo do caso 'Dark Horse'

PGR pede arquivamento de depoimento de denúncias de Vorcaro sobre maus-tratos
PGR pede arquivamento de depoimento de denúncias de Vorcaro sobre maus-tratos

Ana Pompeu-brasília, Df (folhapress) - 03/09/2026 06:39:12 | Foto: © Leobark Rodrigues/Secom/MPF

A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu nesta quarta-feira (2) o arquivamento da denúncia feita por Daniel Vorcaro em depoimento ao ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre possíveis intimidações e maus-tratos que estaria sofrendo na prisão.

Para Paulo Gonet, não havia materialidade no relato do ex-banqueiro.

No entendimento do procurador-geral, a narrativa apresentada pelo ex-dono do Banco Master não foi acompanhada de elementos concretos para justificar a abertura de uma investigação sobre o tema.

O depoimento durou quase duas horas. Ao longo desse tempo, Vorcaro afirmou que estaria sendo pressionado a não delatar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. De acordo com ele, a tentativa de delação premiada dele estaria sendo frustrada também diante de ameaças diante da perspectiva de ele envolver o chefe da corporação.

No entendimento de Gonet, o ex-banqueiro não deu sinalização concreta de das condições a que estaria sendo submetido, o que tornaria a narrativa dele incapaz de provocar providências investigativas próprias.

As declarações de Vorcaro foram ouvidas com presença do Ministério Público e sem a Polícia Federal, na última quinta-feira (27). A defesa do ex-banqueiro pediu a sessão para discorrer sobre perseguições que estaria sofrendo.

Ainda nesta quarta, Mendonça publicou uma nota a respeito do depoimento na qual afirmou que o ato foi conduzido por um juiz auxiliar do relator e que o conteúdo é resguardado por sigilo legal.

"O depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência. Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar", afirmou o ministro no texto.

Deputados governistas veem parcialidade de Mendonça e pedem derrubada de sigilo do caso 'Dark Horse'

ISADORA ALBERNAZ-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados do presidente Lula (PT) na Câmara dos Deputados acionaram o STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quarta-feira (2) para pedir a derrubada do sigilo da investigação na corte que apura o dinheiro investido pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro no filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro (PL).

Em entrevista a jornalistas, os governistas reclamaram do que consideram ser uma postura seletiva por parte do ministro André Mendonça, falaram em uma "Lava Jato 2.0" e disseram que o relator tem "sentado em cima" do caso "Dark Horse" -o principal desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.

"Tem provas, tem evidências, tem caso concreto. Por que o ministro não investiga? Por que o ministro não dá transparência ao caso 'Dark Horse'? Por quê? Então é seletivo? Não é para proteger ninguém. É para investigar a todos com decência, com dignidade", disse o líder do PT na Casa, Pedro Uczai (SC).

O pedido foi apresentado após Mendonça confirmar que teve um encontro com o dono do Banco Master em 2025 e que houve um recente depoimento de Vorcaro com presença do Ministério Público, mas sem a Polícia Federal. O ministro também relata os processos que apuram as fraudes bilionárias.

As revelações vieram à tona um dia depois após Mendonça retirar o sigilo de um relatório da PF que mostrou os detalhes da relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. As mensagens entre os dois colocaram os órgãos da cúpula do Judiciário em uma crise inédita.

No documento dos governistas enviado a Edson Fachin, presidente do STF, os governistas afirmam que André Mendonça adota critérios opostos para levantar os sigilos de investigações envolvendo o caso Master e, com isso, Flávio Bolsonaro tem o "monopólio da narrativa" sobre a própria investigação.

Eles mencionam que o ministro autorizou que fossem divulgadas informações sobre a apuração envolvendo o ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner (PT-BA) em julho e das mensagens entre Vorcaro e Moraes na terça (1º), mas mantém fechado o inquérito que atinge o bolsonarista.

Os deputados também pedem para que a PGR (Procuradoria-Geral da República) avalie as medidas cabíveis, inclusive em relação à suspeição de Mendonça. Eles citam que, em fevereiro, a revelação de negócios entre Vorcaro e Dias Toffoli foram suficientes para que o então relator deixasse a frente do caso.

"Essa assimetria de tratamento, incidindo sobre autoridades situadas em campos políticos adversários, exige fundamentação objetiva e uniforme, especialmente diante de seus potenciais efeitos sobre a disputa eleitoral, sob pena de uso político eleitoral da função jurisdicional", diz a petição.

"O resultado objetivo das decisões tomadas no curso do processo eleitoral é a exposição integral de um campo político e a preservação integral do outro, e que essa disparidade, à falta de explicação pública que a justifique, é incompatível com a aparência de imparcialidade que a Constituição exige do juiz", completa.

Os deputados pedem a Fachin que o plenário do Supremo analise a definição de um critério "que hoje está concentrado em um único gabinete" para decidir sobre o sigilo do caso Dark Horse.

Além do PT, o documento é assinado pelos líderes do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), da Rede, André Janones (MG), e do Psol, Tarcísio Motta (RJ), além de outros congressistas do partido de Lula, como Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo na Casa, e Maria do Rosário (PT-RS).

Durante a coletiva, os deputados da base de Lula evitaram fazer uma defesa pública de Moraes, que foi blindado pelo governo em especial durante o julgamento da trama golpista, e afirmaram defender que qualquer autoridade que esteja envolvida no escândalo do Master deve ser investigada.

"Nós não vamos passar pano para ninguém [...] Quem estiver envolvido vai ter que pagar", disse Lindbergh, sem citar diretamente Moraes.

Já André Janones afirmou querer que o ministro "se lasque, que ele seja investigado, que pague pelos crimes dele se tiver cometido". "Mas eu quero que o André Mendonça, que o Vorcaro e que o Flávio Bolsonaro igualmente paguem pelos seus crimes."

Viagens, jato e helicóptero: o que Vorcaro ofereceu a Alexandre de Moraes, segundo PF

LUANA LISBOA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mensagens, minutas de contrato e metadados obtidos pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, detalham uma série de vantagens oferecidas pelo ex-dono do Banco Master ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes ao longo de quase dois anos.

O relatório com esses dados tiveram o sigilo derrubado nesta terça-feira (1º) por decisão do também ministro André Mendonça. Moraes não se pronunciam sobre o conteúdo do documento até a tarde desta quarta (2).

Na lista, estão dois contratos de honorários que somariam R$ 180 milhões ao escritório da mulher de Moraes, cotas de jato e helicóptero, e a organização de eventos internacionais.

A Folha já havia mostrado que ele usou uma das aeronaves oferecidas por Vorcaro em julho de 2025. Os novos documentos mostram que a relação começou antes disso, ainda em 2023, e que um usuário identificado nos metadados como "Ministro Alexandre de Moraes" aparece como responsável pela última edição de um contrato milionário antes de sua assinatura.

A extração recuperou apenas o conteúdo enviado por Vorcaro -não as respostas-, já que os interlocutores trocavam imagens de mensagens de visualização única, com textos redigidos no aplicativo de notas do celular. Os documentos não demonstram, em todos os casos, se os pedidos do banqueiro foram atendidos.

CONTRATOS DE HONORÁRIOS
O primeiro contrato de honorários, entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, foi assinado em 23 de janeiro de 2024 e vigorou até novembro de 2025, quando o banco foi liquidado: 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao longo de três anos, totalizando cerca de R$ 130 milhões.

A PF identificou que um usuário registrado como "Ministro Alexandre de Moraes" aparece como responsável pela última edição de duas versões da minuta: a primeira, de 11 de janeiro de 2024, e a versão final, alterada às 23h04 do dia 15 de janeiro –oito dias antes da assinatura. Entre uma e outra, uma revisão intermediária havia sido editada por último pelo advogado de Vorcaro, Leonardo Palhares.

O escritório de Viviane afirmou que seu setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se havia impedimentos legais à contratação -já que processos do Master corriam no STF.

Depois de fechado, o pagamento se tornou prioridade dentro do banco: em março de 2024, Vorcaro instruiu a equipe financeira a não atrasar "um dia", chamando-o de "o pgto mais importante que temos".

OFERTA DE JATO E HELICÓPTERO
Vorcaro negociou a transferência de cotas de um jato e de um helicóptero como parte do pagamento de um segundo contrato de honorários, de até R$ 50 milhões, entre o escritório de Viviane e a Viking Participações, empresa ligada ao empresário.

Pela minuta do "termo de acordo e dação em pagamento", R$ 40 milhões seriam quitados com as cotas das duas aeronaves –um jato Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1–, e outros R$ 10 milhões cobririam despesas dos voos.

O escritório de Viviane Barci de Moraes afirmou que assinou apenas o primeiro contrato, de cerca de R$ 130 milhões, e que a proposta do segundo "não foi aceita" –que "nada foi assinado" e que o vínculo com o Master se encerrou com a liquidação do banco.

No entanto, mensagens obtidas pela PF mostram Marcos da Mata, sócio de Vorcaro, perguntando a Viviane se estão "gostando da utilização das cotas de vocês", ao que ela responde que sim, "muito".

Em agosto de 2025, uma funcionária avisa Vorcaro que uma das aeronaves estava agendada para atender "Barci", referência ao escritório. O banqueiro responde: "Não deixe de atender barci".

O relatório também registra discussões internas sobre o "risco reputacional" de manter os ativos vinculados a Vorcaro e sobre uma eventual transferência dos bens para outra empresa, identificada nas mensagens apenas como "Lux". Não fica claro se a operação chegou a se concretizar.

CAMPOS DO JORDÃO
Em dezembro de 2023, Vorcaro organizou recepções de luxo para o círculo do ministro.

Em 27 de dezembro, Fábio Faria -intermediário dos primeiros contatos entre os dois- menciona a Vorcaro um almoço com "Alex" marcado para o dia 30. No mesmo dia, Vorcaro passa à funcionária Thatiane Prime o pedido de uma "experiência completa" para "convidados ultra vips" no Hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP), para nove convidados e quatro seguranças.

Faria foi ministro das Comunicações na gestão de Jair Bolsonaro (PL).

Mais de um ano depois, em abril de 2025, outra mensagem de Vorcaro sugere um novo encontro dos dois na mesma cidade: o banqueiro diz à namorada que está indo ver Alexandre Moraes "aqui perto de casa", e explica que o ministro "tá passando feriado" em Campos do Jordão. O relatório da PF não confirma de forma independente se esse ou os demais encontros citados de fato ocorreram.

EVENTOS EM LONDRES
Vorcaro também participou da organização de dois fóruns jurídicos em Londres.

O primeiro, realizado de 24 a 27 de abril de 2024, foi anunciado como organizado pelo Conjur, Correio Braziliense e pelo Banco Master. A pedido do próprio Vorcaro, o banco não apareceu como realizador nos convites enviados aos participantes.

Segundo mensagens analisadas pela PF, o convite a outros ministros do STF partiu do próprio Alexandre de Moraes, que também interferiu na programação: sugeriu mudanças, aprovou textos e vetou nomes de convidados.

Uma segunda edição do fórum, prevista para 2025, chegou a ser organizada -com a distribuição de materiais a uma lista que incluía o próprio Moraes, o então ministro da AGU Jorge Messias, o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, o ministro do STJ Mauro Campbell e o presidente da Câmara, Hugo Motta-, mas acabou cancelada.

Antes do cancelamento, a equipe de marketing de Vorcaro chegou a tratar da emissão da passagem aérea do próprio Moraes. O banqueiro autorizou por mensagem: "Pode fazer".

Vorcaro também disse a uma funcionária, sem que a PF tenha confirmado de forma independente, que o ministro havia reclamado da organização do encontro, do destaque dado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e da possível participação de Antonio Rueda, presidente do União Brasil.

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