Professor estreia na literatura aos 82 anos com livro sobre suicídio da filha

Almeida rejeita qualquer ideia de superação

Professor estreia na literatura aos 82 anos com livro sobre suicídio da filha
Professor estreia na literatura aos 82 anos com livro sobre suicídio da filha

Isadora Laviola-são Paulo, Sp (folhapress) - 15/07/2026 16:59:55 | Foto: Divulgação

Depois de publicar cerca de 20 livros técnicos, Fernando José de Almeida decidiu estrear na literatura aos 82 anos. A musa, como diz, foi sua filha Lorena, que morreu por suicídio em novembro de 2023. Em "Elogio à Saudade", o educador e filósofo narra sua vida com a filha e sem ela.

Almeida rejeita qualquer ideia de superação. "Não é um combate ao luto, mas um combate com o luto", diz. Manifestar essa dor se tornou sua nova forma de viver. Com o tempo, no entanto, tem aprendido a "não invadir a vida das pessoas com o luto".

"Eu entro no táxi e tenho vontade de contar para o motorista que minha filha morreu, mas isso gera um mal-estar."
"A morte e a vida não são excludentes, são necessariamente uma conversa, um diálogo entre a coragem de viver e a necessidade de morrer", afirma. Antes de escolher morrer, segundo ele, Lorena escolheu não morrer -e é essa vida que Almeida rememora em seu livro.

O autor retrata uma filha espirituosa, ativa e de presença marcante. Conta que, mesmo se estivesse chorando, a filha secava as lágrimas e saía de casa ao receber o convite de um amigo para dançar.

Lorena D'Elia de Almeida era pesquisadora e documentarista. Seus trabalhos abordavam direitos humanos, gênero e diversidade. Ela morreu no dia 11 de novembro de 2023, aos 43 anos, deixando dois filhos, além dos pais.

Almeida começou a escrever o livro depois que foi convidado a dar uma entrevista sobre o episódio. Querendo ser dono de suas palavras, recusou ser entrevistado e passou a escrever. Redigiu mais de 200 mil caracteres do que define como um diário de bordo em meio à tempestade.

Com uma edição da amiga Maria Emília Bender, chegou a um texto ao mesmo tempo particular e universal. "Ela me disse: 'Não é um livro sobre a Lorena. É a sua história com a Lorena'."
No ano passado, na Feira do Livro em São Paulo, Almeida apresentou seu projeto de livro aos editores da Seja Breve. Na edição mais recente do festival, em junho, "Elogio à Saudade" foi a obra mais vendida da livraria oficial do evento, a Travessa. "É mesmo um pequeno grande livro", diz Cadão Volpato, fundador da editora.

Almeida conta que chegou à programação da Feira do Livro deste ano nervoso com a possibilidade de chorar no palco. Quando aceitou que a emoção faria parte da conversa, decidiu não contê-la. O mesmo aconteceu na entrevista à Folha, no escritório de sua casa. Ao falar da filha, emocionou-se em diversos momentos.

O sucesso na feira, onde recebeu muitos aplausos, é um reflexo de como Almeida tem encarado a perda. Se a vida é partilha, como ele diz, a morte é o denominador comum. "A experiência da morte nos leva ao caráter universal da nossa individualidade."
A visão da morte como uma experiência comunitária transparece ao longo de "Elogio à Saudade".

Almeida valoriza os amigos que se fizeram presentes desde a morte de Lorena -herdou amigos da filha, que se organizaram em um cronograma para caminhar com ele, e conheceu novas pessoas por consequência da morte dela.

Um deles, destacado no livro, é o velejador e doutor em filosofia Andrés Bruzzone, que também perdeu o filho por suicídio. Bruzzone é chefe de uma amiga de Lorena, que enviou a Almeida um texto dele sobre a morte, com um tom que não aparecia em nenhum dos livros que leu sobre suicídio.

De Homero a Isabel Allende, Almeida entendia que as obras se apoiavam em respostas simplificadoras e buscavam responder a questões que não lhes cabiam.

Em "Elogio à Saudade", Almeida não quer nomear as circunstâncias nem as causas que levaram à morte de Lorena. "Mesmo que a pessoa deixe um bilhete, existe muito mais do que aquilo", diz. No processo de luto, passou a acreditar que as circunstâncias que funcionam para uns como "vacinas para não morrer", podem ter efeito contrário em outros.

A morte por suicídio, segundo ele, deixa uma tarefa para os que ficam. A partida de Lorena deixou com seu pai a obrigação de pensar na vida e de viver pelos que ficaram. "Podia ter sido um acidente de automóvel, uma coisa assim. Mas o que torna mais dramático e mais exigente de que valorizemos a vida dela é o fato de ter se matado."

ELOGIO À SAUDADE
Preço R$ 64,90 (88 págs.)
Autoria Fernando José de Almeida
Editora Seja Breve

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