Perícia indica que o carro onde Hendi estava com a família recebeu 355 disparos de um tanque de guerra
Por rodrigo Durão Coelho - Portal Bdf - 31/01/2026 11:29:39 | Foto: Instagram de Hendi Rajab
'A Voz de Hind Rajab' estreia nesta quinta, dois anos após carro onde estava criança de cinco anos receber 355 tiros.
A morte de uma menina palestina de cinco anos atingida por um tanque israelense em Gaza, enquanto agoniza por várias horas esperando o resgate médico, que estava a apenas oito minutos de distância. Essa é a sinopse do docudrama A Voz de Hind Rajab , que estreia nesta quinta-feira (29) em cinemas brasileiros e concorre ao Oscar de Melhor Fillme Estrangeiro junto com O Agente Secreto .
“ A voz de Hind Rajab é um documento de grande valor histórico”, afirmou à reportagem o escritor Milton Hatoum. “O filme narra um episódio pontual desse longo processo colonialista e supremacista, que culminou no atual genocídio do povo de Gaza.”
“Penso que transcende um episódio bárbaro. Ela simboliza a voz de milhares de crianças que foram silenciadas. A luta pela liberdade, dignidade e autodeterminação dos palestinos tornou-se a luta de toda a humanidade. Essa é a mensagem profunda desse filme”, afirma.
Agonia
A esteia coincide com a data do falecimento da menina, em 2024. Naquele dia, Israel ordenou a evacuação de área no norte da Faixa de Gaza onde se encontrava a família de Hendi, que se aprontou para deixar o local em um carro. Sem conseguir sair a tempo, o veículo foi alvejado por um tanque que estava entre 13 e 23 metros de distância, deixando-a como a única sobrevivente, ao lado dos corpos de seus parentes.
Por celular, o Crescente Vermelho estabeleceu contato com ela e teve início a saga para conseguir permisssão para o resgate a ser feito por uma ambulância, que estava a apenas oito minutos de distância. Mesmo informado da presença de uma criança viva, Israel leva várias horas para permitir a passagem da equipe médica. Quando o faz, os bombardeia e mata também.
Esses acontecimentos saíram na imprensa internacional mas, aqui no Brasil, apenas na progressista. Ao Brasil de Fato, o secretário de Comunicação da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Marcos Vinícius Feres, disse ser “lamentável que os mesmos jornais brasileiros, como a Folha , o Globo , etc, que hoje em seus editoriais de cultura falam sobre o lançamento desse filme, há dois anos, não se importaram em registrar seu assassinato”.
“Filmes como esse não deveriam existir, caso a comunidade internacional cumprisse seu papel de frear o genocídio”, diz Feres.
Ovação de 22 minutos
Produzido por nomes de peso em Hollywood, como Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara e Alfonso Cuarón, o filme não deixa esquecer que mesmo dramatizado, é história real, ao ser conduzido pelas gravações da própria Hendi à equipe do Crescente Vermelho.
À reportagem, Hatoum, que esteve na pré-estreia do filme em São Paulo (SP), disse que “um dos momentos mais tristes do filme é quando a criança percebe que seus parentes não estão dormindo. Estão mortos, sangrando ao lado dela, dentro do carro.”
“O assassinato igualmente frio, covarde e cruel dos socorristas também diz muito sobre a psicopatia do Estado colonialista.”
Esses elementos todos compõem uma obra poderosíssima, apesar do orçamento baixo, e desde sua estreia no Festival de Veneza, onde conquistou o Leão de Prata, vem arrebatando plateias. Quem presenciou a ovação, de longuíssimos 22 minutos, que se seguiu à exibição, foi a jornalista especializada em cinema Flávia Guerra.
Ao Brasil de Fato ela disse que “a reação tanto da plateia como da imprensa foi uma das mais veementes e sinceras que eu já vi em mais de 25 anos cobrindo festivais”.
“A sessão de imprensa, que costuma ser mais fria e racional, porque tem um olhar especializado, já havia sido muito emocionante. Eu vi críticos chorando copiosamente no final da sessão. Desde então, eu sei que nos festivais internacionais onde passa, o filme causa a mesma comoção”, contou.
“É um filme que, quando se assiste, não tem como não se conectar com ele. Nesse sentido, foi uma surpresa chegar ao Oscar, por ter um tema difícil. Até a indicação, ele tinha menos de 20 cópias rodando os EUA, o principal mercado para que um filme seja indicado.”
A jornalista diz acreditar que “os votantes da Academia (De Artes e Ciências Cinematográficas) se emocionaram e se engajaram muito, seja nas sessões em festivais do mundo ou na própria plataforma do Oscar, onde o filme pode ser assistido”.
O representante da Fepal lembra que a obra fala de “uma matança que continua em curso. A gente não tá falando de um filme que retrata um processo que se encerrou.
“O mundo precisa saber, as novas gerações precisam saber o que está sendo este holocausto. Mas ao mesmo tempo que é muito importante registrar, é uma pena que tantos palestinos tenham que ser exterminados por Israel e pelos Estados Unidos para que a gente possa hoje de ver histórias palestinas nos cinemas e sendo reconhecidas nos festivais internacionais.”
Editado por: Maria Teresa Cruz
Comentários para "Rival de ‘O Agente Secreto’ no Oscar simboliza a voz de crianças palestinas silenciadas":