×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 27 de outubro de 2021

“Será preciso mais que um presidente para consertar a imagem dos EUA”, diz Ian Bremmer

“Será preciso mais que um presidente para consertar a imagem dos EUA”, diz Ian BremmerFoto: Tribuna da Internet

Bremmer, do grupo Eurasia, diz que estrago foi muito grande

Thayz Guimarães - O Globo/ Tribuna Da Internet - 10/01/2021 - 19:07:26

Em seu discurso da vitória, em 2008, Barack Obama recorreu à tradição do excepcionalismo americano para enviar uma mensagem ao mundo, reafirmando que “o farol dos EUA” ainda brilhava “com a mesma intensidade” e que “a verdadeira força de nossa nação não emana da capacidade de nossas armas ou do tamanho de nossa riqueza, mas do poder persistente de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inflexível esperança.”

Essa visão de uma democracia americana sólida, porém, parece ter caído por terra na última quarta-feira, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio, a sede do Congresso, insuflados pelo próprio presidente, numa última tentativa de impedir a certificação da vitória eleitoral do democrata Joe Biden, afirma o cientista político Ian Bremmer, presidente do Grupo Eurasia, a consultoria de riscos geopolíticos.

Em entrevista ao GLOBO, Bremmer afirma que será preciso bem mais que um presidente para consertar a imagem dos EUA, uma vez que “o mundo não sabe mais se a liderança americana e seu modelo de democracia são sustentáveis”. Por outro lado, a falta de outra potência que possa fornecer liderança global, ele diz, torna o ambiente geopolítico ainda mais desafiador.

No relatório de riscos de 2021 publicado pela sua empresa, o número um é a fragilidade do governo Biden, considerado ilegítimo por metade do país e dos legisladores. Esse risco ficou menor depois da invasão do Capitólio por apoiadores de Trump?
Pelo contrário, o risco agora é obviamente maior. Um amigo meu, que é senador democrata, me escreveu na manhã de quinta-feira e disse que seu dia estava sendo insano, desanimador e preocupante. Para o coronavírus, pelo menos, temos vacinas. Não existe vacina para a disfuncionalidade e a divisão política dos EUA, que é o país mais poderoso do mundo. Há muitas pessoas pedindo o impeachment de Trump ou o acionamento da 25ª Emenda. Mas não acho que ele vá ser condenado no Senado [controlados ainda pelos republicanos, até a posse dos dois senadores democratas eleitos em segundo turno pelo Geórgia], porque depois de tudo o que aconteceu, mais de cem membros do Partido Republicano ainda votaram para derrubar a eleição. Isso é loucura.

Biden, que foi senador por 35 anos, com frequência é lembrado como um grande articulador no Congresso. Isso não seria um ponto a favor de seu governo?
Biden vai ter que lidar com isso, mas ele é o presidente mais velho já eleito nos EUA e vai assumir o governo em meio a uma grande crise e a uma onda de desinformação maciça. As pessoas ficarão de olho em qualquer deslize dele, e a reação popular tende a ser desproporcional. Enquanto isso, o mundo todo olha para os EUA e não sabe se pode realmente confiar neles, se a liderança americana ou mesmo seu modelo de democracia são sustentáveis. Se isso acontecesse em um país como a Turquia, talvez não nos importássemos tanto, mas, como são os EUA, todos nós nos importamos muito.

Os EUA vão se unir depois do que aconteceu na quarta-feira?
Não, não e não. Metade do país ainda acha que a eleição foi roubada. Dependendo de qual canal de notícias você assiste, quais pessoas você segue nas redes e em quem você vota, sua visão de mundo é completamente diferente. Não existe mais um mecanismo de união do país. É preciso entender o quanto nossas instituições políticas se desgastaram ao longo das últimas décadas. A união nacional que existiu após o 11 de Setembro e Pearl Harbor, que foram os piores desastres para os EUA, não existe mais. Muitos republicanos discursaram [na noite de quarta-feira] como se nada tivesse acontecido, condenando a violência, mas não Trump. Esse momento não é um ponto de inflexão para os EUA, e sim um grande obstáculo na estrada — onde ainda estamos dirigindo nosso carro.

Em que medida a reputação internacional dos EUA foi afetada?
A reputação internacional dos EUA sofreu um dano enorme. Em 1989, o mundo todo viu que os EUA tinham um modelo de governança eficaz e, inclusive no bloco soviético, as pessoas passaram a querer um sistema igual, por isso se revoltaram e derrubaram o muro. Hoje, ninguém olharia para os EUA e diria: “Quero que meu país funcione assim”. Você pode até querer viajar para os EUA, que seus filhos estudem aqui, comprar uma casa ou trabalhar nos EUA, mas não gostaria que o sistema político de seu país funcionasse como o dos EUA. Os próprios americanos, cada vez mais, não acreditam que sua democracia funcione para eles.

E as relações com potências não-aliadas?
Se você é a China ou a Rússia, por exemplo, você vê esse momento como uma oportunidade de argumentar pela equivalência moral dos sistemas. Você poderia dizer para os EUA: “Vocês não podem nos dar um sermão sobre direitos humanos” ou “Olhe para você, você não pode nos dizer como fazer uma eleição”, e isso é lamentável. Mesmo os aliados americanos não têm mais tanta certeza se os EUA estão realmente comprometidos com as causas que dizem estar. E isso também é um problema, porque não há ninguém que possa responder se os EUA não fornecerem liderança global. Os EUA ainda são o país mais poderoso do mundo.

Que impactos isso terá na política internacional do governo Biden?
Biden vai se engajar novamente com a OMS, com o Acordo de Paris para o clima, o acordo nuclear iraniano, todas essas coisas. E as pessoas querem isso. Os aliados americanos ficarão mais confortáveis com Biden do que estavam com Trump. Mas isso é muito diferente de dizer que tudo vai voltar a ser como era antes. Essa erosão aconteceu ao longo de décadas, e vai ser preciso mais que um presidente para superá-la, especialmente porque os problemas subjacentes são muito significativos.

A que “problemas subjacentes” o senhor se refere?
Os americanos não estão acostumados com o verdadeiro multilateralismo. Estamos acostumados a sentar com nossos aliados e dizer: “Aqui está o que queremos fazer. Espero que você o siga”. Biden terá que adotar uma abordagem muito mais humilde, se comprometer muito mais para conseguir que os países façam o que ele quiser. Não será uma tarefa fácil, embora seja útil o fato de que ele terá uma maioria no Senado, com 50% dos senadores e o voto de desempate.

Essa então seria uma grande oportunidade para Pequim virar o jogo contra Washington?
Os EUA ainda são, de longe, o país mais poderoso do mundo. Mas, para fazer com que os países trabalhem com você quando a ordem geopolítica está se fragmentando e as instituições estão cada vez menos alinhadas às suas prioridades, você precisa ser capaz de persuadir os países a se juntarem a você. O problema é que o poder brando dos EUA está desgastado, mesmo com a persistência do hard power, e também os seus aliados estão mais fragmentados. O Reino Unido deixou UE, então a Europa está mais dividida, enquanto a China está ficando mais forte e a Rússia mais fraca. O ambiente geopolítico também é mais desafiador.

###
NOTA DA REDAÇÃO
– A filial Brazil está na mesma situação da matriz United States, também vai precisar de mais de um presidente para consertar a imagem do país no exterior e no interior. (C.N.)

Comentários para "“Será preciso mais que um presidente para consertar a imagem dos EUA”, diz Ian Bremmer":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Golpe de Estado no Sudão: Premiê é liberado, Alemanha deixará de prestar ajuda ao país africano

Golpe de Estado no Sudão: Premiê é liberado, Alemanha deixará de prestar ajuda ao país africano

China diz que Taiwan não tem 'direito nenhum de se juntar às Nações Unidas'

Biden será 1º presidente dos EUA a participar da cúpula da ASEAN em 4 anos

Biden será 1º presidente dos EUA a participar da cúpula da ASEAN em 4 anos

Erdogan muda de ideia quanto a expulsão de embaixadores após escândalo diplomático

Ministério Público da Argentina recomenda suspensão de trigo transgênico discutido no Brasil

Ministério Público da Argentina recomenda suspensão de trigo transgênico discutido no Brasil

Iniciativas tentam barrar o trigo transgênico no Brasil e na Argentina; trigo HB4 já é cultivado em cinco províncias do país vizinho.

China vai defender paz mundial, diz presidente Xi no aniversário do retorno à ONU

China vai defender paz mundial, diz presidente Xi no aniversário do retorno à ONU

Ministros e líderes partidários são detidos no Sudão

Rússia bate novo recorde de mortes por Covid-19

Rússia bate novo recorde de mortes por Covid-19

A Rússia foi o primeiro país do mundo a autorizar uma vacina contra covid-19 com o lançamento do Sputnik V em agosto de 2020

Moscou adotará medidas de lockdown para conter alta da Covid-19

Moscou adotará medidas de lockdown para conter alta da Covid-19

Regras entram em vigor a partir do dia 28

130ª Feira de Cantão: China continua a abertura e compartilha oportunidades com o mundo

130ª Feira de Cantão: China continua a abertura e compartilha oportunidades com o mundo

Em sua carta, Xi observou que a feira fez contribuições significativas para facilitar o comércio internacional, o intercâmbio externo-interno e o desenvolvimento econômico desde sua criação em 1957

Paraguai reforça segurança na fronteira com Brasil

Paraguai reforça segurança na fronteira com Brasil

Congressistas americanos pedem recuo na relação com Brasil

Desenvolvimento é a força motriz da erradicação da pobreza na China

Desenvolvimento é a força motriz da erradicação da pobreza na China

Entre 1990 e 2010, no contexto da arrancada industrial, proporção de população pobre chinesa passou de 66,3% para 11,2%, de acordo com o Banco Mundial

China emite selos comemorativos da COP15

China emite selos comemorativos da COP15

Foto tirada em 11 de outubro de 2021 mostra os detalhes de um selo comemorativo para a 15ª reunião da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15) realizada em Kunming, Província de Yunnan, sudoeste da China.

ONG austríaca denuncia Jair Bolsonaro a tribunal internacional por 'crimes contra a humanidade'

ONG austríaca denuncia Jair Bolsonaro a tribunal internacional por 'crimes contra a humanidade'

O tribunal não tem obrigação de julgar todos os casos apresentados.