Unesco aponta conhecimento indígena como base para diálogo sobre educação e saúde

Encontro em São Gabriel da Cachoeira reuniu agências da ONU, lideranças indígenas e autoridades para reforçar ações integradas na Amazônia Legal; ações discutidas reforçam a integração entre proteção ambiental, direitos indígenas e desenvolvimento sustentável na região amazônica

Unesco aponta conhecimento indígena como base para diálogo sobre educação e saúde
Unesco aponta conhecimento indígena como base para diálogo sobre educação e saúde

Agência Onu News - 05/02/2026 18:57:45 | Foto: Agência Onu News

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, Unesco, destacou o papel do conhecimento indígena para reforçar políticas públicas no Alto Rio Negro, no noroeste do estado do Amazonas, Brasil.

A ênfase na saúde, educação, proteção territorial e preservação da biodiversidade marcou os “Diálogos Fundo Brasil - ONU no Alto Rio Negro: Encontro de Saúde e Proteção de Povos Indígenas”. O evento aconteceu em agosto passado em São Gabriel da Cachoeira.

Anciãos como “bibliotecas vivas” do conhecimento ancestral
O evento reuniu líderes indígenas, especialistas tradicionais, representantes institucionais, agências da ONU e autoridades governamentais num espaço de diálogo e partilha de experiências.

Foi dado enfoque ao reconhecimento da ciência indígena como pilar essencial para ações de proteção e desenvolvimento sustentável na região.

Durante o encontro, a antropóloga e gestora do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, Carla Wisu, destacou a importância dos anciãos como guardiões do conhecimento tradicional.

Ela destacou que pessoas da terceira idade são “bibliotecas vivas” e “especialistas”, sublinhando que são eles que preservam teorias, conceitos e práticas essenciais para a vida e espiritualidade dos povos indígenas.

Membro da comunidade Cucura Manaus, no Território Indígena do Alto Rio Negro, e pertencente ao grupo étnico Desano, a especialista afirmou que a transmissão do conhecimento ancestral continua a base da existência do povo, sustentando a relação com a natureza e o equilíbrio comunitário.

Reconhecimento da medicina indígena como política pública
Carla Wisu defendeu que políticas públicas devem reconhecer e valorizar a medicina indígena e os saberes tradicionais como sistemas de conhecimento essenciais para um cuidado comunitário integral.

Com outros participantes e lideranças indígenas, a antropóloga enfatizou que este tipo de saber não pertence apenas ao passado, mas orienta práticas vivas e atuais necessárias para manter o equilíbrio no mundo atual.

Ao longo da sua trajetória, Carla Wisu tem defendido que a valorização da sabedoria indígena é fundamental. Ela contribui para a relação harmoniosa entre seres humanos e natureza, sobretudo num contexto de proteção da biodiversidade amazônica e preservação de modos de vida tradicionais.

Ciência indígena e preservação da biodiversidade amazônica
Mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas, Carla Wisu afirmou que os anciãos apontam rumos profundos para compreender a vida, o cosmos e as relações sustentando as matas e seus povos.

Segundo explicou, esse conhecimento orienta práticas que vão desde cuidados com o corpo e a saúde até formas de convivência equilibrada com o território.

No encontro, Wisu afirmou que “a ciência indígena é a única que pode salvar o mundo” e considerou relevante o apoio de entidades não indígenas, por demonstrar que existe reconhecimento da importância desses saberes.

A antropóloga também falou da crescente presença indígena em espaços de decisão, apontando que essas comunidades vêm ocupando mais instituições e reforçando a defesa de uma relação de respeito com a natureza.

Para ela, a floresta deve ser entendida como extensão do corpo humano, o qual acredita que pode morrer, reforçando a ligação direta entre sobrevivência humana e preservação ambiental.

Saúde indígena como equilíbrio territorial e espiritual
A representante indígena lembrou ainda que o conceito de saúde ultrapassa a ausência de doença e envolve dimensões comunitárias, territoriais e espirituais.

Segundo Carla Wisu, para os povos indígenas, saúde significa viver em harmonia com o território e manter contacto direto com a natureza, por meio de atividades tradicionais. Os exemplos são banhar-se no rio, remar canoas, cultivar roças e transmitir conhecimentos entre gerações.

A abordagem apresentada reforçou a visão de bem-estar indígena como um equilíbrio entre corpo, espírito, território e coletividade.

Projeto reforça proteção de crianças e jovens indígenas
O encontro em São Gabriel da Cachoeira marcou também o início das atividades do projeto “Proteção Integral e Promoção dos Direitos de Crianças, Adolescentes e Jovens Indígenas na Amazônia Legal Brasileira”.

A iniciativa tem como foco a governança territorial, a bioeconomia e a proteção de crianças e adolescentes indígenas.

O projeto envolve a colaboração da Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, do Fundo da ONU para a Infância, Unicef, o Funda de População da ONU, Unfpa, Agência da ONU para os Refugiados, a Organizaçã Internacional do Trabalho, OIT, e a Organização Internacional para as Migrações.

A coordenação local contou com o apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, Foirn, bem como com autoridades nacionais, estaduais, locais e organizações indígenas.

Apoio internacional e financiamento do Fundo Brasil–ONU
A atividade foi financiada pelo Fundo Brasil - ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, em parceria com o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal e os governos brasileiro e canadense.

Para a Unesco, as ações abaordadas estão alinhadas com as Reservas da Biosfera reconhecidas pela agência, reforçando a integração entre proteção ambiental, direitos indígenas e desenvolvimento sustentável na região amazônica.

Comentários para "Unesco aponta conhecimento indígena como base para diálogo sobre educação e saúde":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório