Caso Master provoca abalos entre políticos e cria divergências na esquerda e na direita

Master só tinha R$ 4 milhões em caixa antes da liquidação, diz diretor do BC à PF

Caso Master provoca abalos entre políticos e cria divergências na esquerda e na direita
Caso Master provoca abalos entre políticos e cria divergências na esquerda e na direita

São Paulo, Sp (folhapress) - 31/01/2026 18:35:35 | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

CATIA SEABRA E ADRIANA FERNANDES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A eclosão do caso Master provocou abalos no mundo político, tanto à direita quanto à esquerda, às vésperas da volta do Congresso Nacional. Na Esplanada dos Ministérios e nas fileiras bolsonaristas, há divergências sobre a estratégia ideal para o enfrentamento da crise acirrada após a constatação de envolvimento de políticos no esquema sob investigação.

Como revelado pela Folha de S. Paulo, material reunido pela Polícia Federal na primeira fase da operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, contém referências a lideranças partidárias e altas autoridades.

A tensão é suprapartidária. Enquanto, encorajado por pesquisas de opinião, o presidente Lula (PT) manifesta apoio às investigações, aliados alertam para o risco de tremores na base governista e na relação com os demais Poderes, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF).

Até colaboradores diretos do presidente advertem para ameaças advindas da fragilização de magistrados no ano em que indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estarão à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O governo, no entanto, vem vendendo a ideia de que que as investigações devem prosseguir. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são apontados como defensores dessa linha, que conta ainda com o apoio de Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação da Presidência).

Sobre essa estratégia, há a avaliação de que os desdobramentos do caso propiciam a consolidação da imagem de que Lula enfrenta os poderosos.

No ano passado, no entanto, Lula foi informado da relação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), com um sócio do Master, e dos contratos do banco com o governo da Bahia. Foi tranquilizado pelo senador e pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, quanto aos riscos de envolvimento no esquema.

A avaliação, dentro do governo, é que o caso pode até respingar em aliados, mas atinge diretamente dirigentes do centrão e da oposição.

Isso não evita descompassos. Na terça-feira (27), em entrevista à CNN, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), se declarou contra a instalação de uma CPI sobre o caso.

Além de ter telefonado reclamando da declaração, Gleisi afirmou, no dia seguinte, que essa não é uma decisão do governo. Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), se disse a favor da CPI.

Na oposição não tem sido diferente. O trânsito de Vorcaro entre dirigentes dos partidos do centrão estaria inibindo discursos contra o governo. Um dos políticos mais próximos do banqueiro, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), submergiu. Ele atuou no Congresso em defesa de interesses do dono do Master.

Na sexta-feira (30), o PL -partido de Bolsonaro- levou às redes uma peça em que tentava atribuir a origem do escândalo ao governo. Mas, segundo relatos, a estratégia foi criticada por integrantes do partido.

LAVA JATO
O cálculo político do Palácio do Palácio de que Lula tem mais a ganhar com o escândalo nas próximas eleições não é unanimidade. Políticos de fora do governo têm alertado que o caso é "ecumênico", por atingir todos os Poderes.

Segundo eles, o Master tem potencial de se transformar numa nova Lava Jato, ou até pior, com a crise respingando no colo do presidente caso o aprofundamento das investigações de fraudes cheguem ao PT da Bahia via Augusto Lima, o ex-sócio de Vorcaro no Master.

Antes de Toffoli subir com o processo do Master para o STF, as investigações do Ministério Público Federal avançavam em torno da participação de Lima na negociação com o BRB (Banco de Brasília). O que chamou a atenção dos investigadores é que, mesmo tendo deixado a sociedade de Vorcaro, ele continuou participando de reuniões ao seu lado no BC.

O banqueiro baiano, preso na Operação Compliance Zero da Polícia Federal no mesmo dia de Vorcaro, aproximou-se dos governos petistas a partir de 2017, quando Rui Costa era governador, e o senador Jaques Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico. Segundo relatos, o senador é um dos aliados mais incomodados com a estratégia governista.

Adversários também apostam no desgaste do governo com disparos partindo da defesa de Vorcaro após reportagem da Folha de S. Paulo revelar a irritação do presidente com a conduta do ministro Toffoli na relatoria do inquérito do Master. Em conversas reservadas, Lula chegou a afirmar, em desabafos, que o ministro deveria renunciar a seu mandato na corte ou se aposentar.

A contraofensiva atingiu o governo com a revelação do encontro de Lula com Vorcaro, que contou também com a presença do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do ex-ministro Guido Mantega (Fazenda), então consultor do Master.

Também debilitou o governo a informação de que o Master contratou o escritório de advocacia da família do ex-ministro da Justiça de Lula Ricardo Lewandowski. Ele ficou na pasta, à qual a Polícia Federal é subordinada, entre 1º de fevereiro de 2024 e 9 de janeiro deste ano.

O BC também virou alvo dos ataques diante de questionamentos sobre a participação do diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino, na compra de carteiras de crédito fraudulentas pelo BRB para ajudar o Master.

O BC negou a relação, e Aquino abriu mão de seus sigilos e colocou à disposição do Ministério Público e da PF suas informações bancárias e os registros de conversas por celular.

Na oposição, o risco no radar é o de o caso atingir importantes lideranças do centrão.

A leitura em Brasília é a de que Vorcaro, com a contraofensiva, tentou mostrar que tem munição contra políticos e autoridades de todos os matizes. Em depoimento à PF, o banqueiro, ao ser questionado sobre sua relação com poderosos, aproveitou para dizer que tem "alguns amigos em todos os Poderes".

A despeito da extensa lista de pessoas influentes que faziam parte do círculo de amizades e frequentavam os luxuosos eventos patrocinados pelo Master no Brasil e no exterior, Vorcaro está se sentindo abandonado pelos amigos, segundo relatos colhidos pela reportagem.

À medida que os detalhes do esquema vêm à tona, o banqueiro virou uma personagem radioativo, do qual o mundo político quer mais é ficar distante.

Mas, apesar da escalada da tensão nos útimos dias, a expectativa é que o inquérito envolvendo políticos acabe ficando sob a responsabilidade do STF, mantendo também sob controle a disputa política entre cortes superiores, juízes e procuradores nos estados.

Veja em 9 pontos o que foi dito nos depoimentos sobre o Master à Polícia Federal

O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), levantou na quinta-feira (29) o sigilo dos depoimentos prestados à PF (Polícia Federal) pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), e do diretor de fiscalização do BC (Banco Central), Ailton de Aquino, no fim de dezembro de 2025. A decisão foi tomada atendendo a um pedido do Banco Central.

Os depoimentos foram colhidos pela delegada da PF Janaína Palazzo antes da acareação entre os empresários, determinada pelo próprio Toffoli no âmbito da investigação sobre as fraudes financeiras. A Polícia Federal investiga a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito supostamente falsas pelo Master ao BRB.

As investigações do Ministério Público Federal, com base em denúncia feita pelo Banco Central, apontaram que o Master adquiriu carteiras de crédito da consultoria Tirreno, sem realizar qualquer pagamento, e logo em seguida os papéis foram vendidos ao BRB. O escândalo do Master levou à liquidação do banco, anunciada em 18 de novembro de 2025.

Veja em 9 pontos o que foi dito nos depoimentos.

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DIVERGÊNCIA SOBRE ORIGEM DOS CRÉDITOS
Durante a acareação, Costa e Vorcaro não concordaram sobre a origem dos créditos falsos, calculados em R$ 12,2 bilhões. O dono do Master afirmou que o banco do DF tinha conhecimento de que as carteiras eram originadas por terceiros, e não pelo Master.

"A gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização [de carteiras de crédito], que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria", afirmou Vorcaro.

Costa, no entanto, disse que pelo seu conhecimento os créditos haviam sido originados no Master. "Meu entendimento é que eram carteiras originadas pelo Master que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente", disse o ex-presidente do BRB.

De acordo com Costa, a ligação direta com a Tirreno só foi identificada entre abril e maio do ano passado, após análises técnicas apontarem que havia um padrão documental distinto nos contratos. Costa explicou que a detecção tardia ocorreu porque a identificação do originador final do crédito não costuma integrar os documentos utilizados nas análises de risco.

VORCARO ADMITE CRISE DE LIQUIDEZ DO MASTER
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, admitiu que havia uma crise de liquidez no banco e que seu negócio era baseado no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), fundo que garante pagamentos de até R$ 250 mil a investidores em caso de quebra de instituições.

"Existia uma crise, não era de hoje, mas o Master sempre foi solvente. Essa crise de liquidez foi criada por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC. Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, era baseado no FGC", disse Vorcaro.

MASTER TINHA APENAS R$ 4 MILHÕES EM CAIXA ANTES DA LIQUIDAÇÃO
O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse à PF que, antes da liquidação, o Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, o que seria anormal para uma instituição financeira de médio porte.

"Um banco de R$ 80 bilhões de ativos totais tem liquidez de R$ 3 bi, R$ 4 bi em títulos livres. O Master, antes da liquidação, tinha só R$ 4 milhões em caixa", afirmou Aquino, em depoimento prestado em 30 de dezembro.

Ele destacou que a crise de liquidez do Master era "muito clara" e que o banco não tinha ativos para fazer face às suas obrigações, o que gerou um processo administrativo sancionatório que ainda está em curso. De acordo com ele, o Master "não estava conseguindo cumprir o compulsório" -parcela de recursos dos clientes, captados em depósitos à vista, a prazo ou poupança, que o banco precisa obrigatoriamente deixar retida no BC.

VORCARO MINIMIZA CONEXÕES POLÍTICAS
Vorcaro minimizou suas conexões políticas durante o depoimento à PF. "Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse.

Ele reconheceu, no entanto, que se encontrou com o governador do DF (Distrito Federal), Ibaneis Rocha (MDB), para discutir o assunto porque ele era o controlador indireto do BRB. O ex-banqueiro disse que tratou da venda com o governador "em algumas poucas oportunidades", com a participação de outras pessoas.

"[Ibaneis] já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também de outras pessoas", completou Vorcaro sobre encontros ou conversas entre os dois entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.

PREJUÍZO AO BRB PODE CHEGAR A R$ 5 BILHÕES
Ailton de Aquino disse que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas com o Master pode se aproximar de R$ 5 bilhões. O BC já determinou que o banco do DF faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas. Seriam necessários ainda outros R$ 2,2 bilhões, segundo Aquino disse na oitiva.

TROCA DE ATIVOS ENTRE MASTER E BRB
Para solucionar o impasse em torno das carteiras problemáticas, Master e BRB realizaram uma ampla troca de ativos. Do total de R$ 12,7 bilhões, aproximadamente R$ 10,2 bilhões foram substituídos por novos créditos consignados, imobiliários e corporativos. O BRB aplicou um deságio médio de 30% nesses ativos, o que resultou em uma margem de segurança estimada em cerca de R$ 2 bilhões a favor do banco público, disse Paulo Roberto Costa.

Ao final da acareação, Vorcaro afirmou que a operação foi encerrada sem prejuízo ao BRB. Costa, porém, ponderou que, embora as garantias tenham sido reforçadas, ainda havia pendências formais e ativos- como cerca de R$ 800 milhões em ações- que dependiam de avaliação final de preço no momento em que o processo foi interrompido pela liquidação do banco.

BC CONCLUI QUE CRÉDITOS ERAM FALSOS
Aquino disse que o Banco Central concluiu que os créditos comprados pelo BRB eram falsos quando o regulador fez uma reunião com representantes das empresas Cartos e Tirreno. "A gente começa a discutir, dado que a Cartos é uma empresa pequena, e a Tirreno é uma empresa desconhecida... Eu pergunto várias vezes: quanto você gerou de crédito?", disse o diretor do BC.

O responsável pela empresa, segundo Aquino, disse que gerava entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões e depois de uma hora de conversa, os valores foram subindo. Em certo momento da conversa, a cifra teria subido para R$ 6,2 bilhões. "Isso é impossível, do ponto de vista técnico, de uma empresa gerar isso."
Aquino disse que o único relacionamento da Tirreno é com o Master, iniciado em 23 de maio de 2025. Além disso, afirmou que o regulador não viu nenhum fluxo financeiro na Tirreno, via TED, Pix ou câmbio.

VORCARO NÃO RESPONDE SE TEM BENS NO EXTERIOR
O dono do Banco Master não respondeu à PF se tem bens no exterior.

"O banco tem ativos no exterior, estava iniciando [esse processo]. Agora, eu talvez tenho sido uma das pessoas mais escrutinadas do Brasil antes dessa operação. Todos os meus bens estão declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo", respondeu Vorcaro.

O depoimento prossegue e Vorcaro e a PF não tocam mais no ponto. No início deste ano, o liquidante do Banco Master acionou o tribunal de falência dos Estados Unidos para proteger os ativos da instituição financeira no país.

DEFESA DE VORCARO NEGA ENTREGA DE CELULAR
A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro disse, no início da acareação realizada no STF, que o dono do Banco Master não abriria o sigilo de seu telefone celular, devido a vazamentos ocorridos minutos após sua participação em uma audiência realizada na corte.

No início da confrontação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, o advogado Roberto Podval disse que, naquela primeira audiência, perguntas formuladas pelo ministro do STF Dias Toffoli foram publicadas pela imprensa "apenas 20 minutos após o encerramento do ato judicial".

Segundo o advogado, a rapidez e a precisão da divulgação das informações teriam gerado "insegurança jurídica", tornando inviável o fornecimento de dados privados do investigado às autoridades. O advogado afirmou que Vorcaro sequer portava o aparelho durante a acareação, para reduzir qualquer risco.

Master só tinha R$ 4 milhões em caixa antes da liquidação, diz diretor do BC à PF

LUÍSA MARTINS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse à Polícia Federal que, antes da liquidação, o Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, o que seria anormal para uma instituição financeira de médio porte.

"Um banco de R$ 80 bilhões de ativos totais tem liquidez de R$ 3 bi, R$ 4 bi em títulos livres. O Master, antes da liquidação, tinha só R$ 4 milhões em caixa", afirmou Aquino, em depoimento prestado em 30 de dezembro.

Os vídeos dos depoimentos de Aquino e dos banqueiros Daniel Vorcaro, do Master, e Paulo Henrique Costa, do BRB (Banco de Brasília), foram tornados públicos nesta quinta-feira por decisão do ministro Dias Toffoli, relator da investigação no STF.

À delegada Janaína Palazzo, que conduziu a audiência, Aquino destacou que a crise de liquidez do Master era "muito clara" e que o banco não tinha ativos para fazer face às suas obrigações, o que gerou um processo administrativo sancionatório que ainda está em curso.

De acordo com ele, o Master "não estava conseguindo cumprir o compulsório" -parcela de recursos dos clientes, captados em depósitos à vista, a prazo ou poupança, que o banco precisa obrigatoriamente deixar retida no BC.

"A pergunta central é como alguém que não tinha liquidez poderia gerar tanto crédito, nesta magnitude, para ceder ao BRB. Essa é uma pergunta, do ponto de vista do mercado financeiro, de lógica", diz Aquino à PF. Segundo o diretor do BC, isso "levantou um alerta" de que era necessário "aprofundar os trabalhos".

Em outro ponto do depoimento, Aquino afirmou que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas com o Master "será de elevada monta" e pode se aproximar dos R$ 5 bilhões. Até o momento, há R$ 2,6 bilhões mapeados.

Aquino também negou ter sofrido qualquer interferência política no processo: "Como diretor de fiscalização, eu não conheço, não recebi nenhuma pressão em termos de liquidar de autoridades da República. Não tenho conhecimento."

PF encontrou indícios sobre políticos em investigação do Master

ADRIANA FERNANDES E BRUNO BOGHOSSIAN
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - As investigações da Polícia Federal envolvendo o Banco Master chegaram a elementos que apontam para o envolvimento de políticos com foro especial. Apurações sobre essas autoridades terão de correr no STF (Supremo Tribunal Federal).

Provas coletadas pela PF na primeira fase da operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, contêm referências a lideranças partidárias e altas autoridades, segundo relatos feitos à reportagem, sob anonimato, por investigadores do caso. Eles afirmam que foram feitos "vários achados" com menções a essas figuras.

Quando Vorcaro foi preso, a PF quebrou sigilos, apreendeu documentos e acessou o telefone celular do banqueiro.

As referências aos políticos, na avaliação de investigadores, não têm relação direta com o inquérito sobre a fabricação de carteiras fraudulentas de crédito consignado pelo Master e a negociação de venda para o BRB (Banco de Brasília).

Essas fraudes sustentaram a decisão da Justiça Federal em Brasília que autorizou a primeira fase da operação da PF, em 18 de novembro do ano passado, mesmo dia em que o Master foi liquidado.

Vorcaro ganhou notoriedade em Brasília por ter construído uma rede de aliados políticos e por organizar encontros em uma mansão na capital.

As conhecidas relações do banqueiro provocam tensão entre autoridades desde que o dono do Master foi alvo da PF. Alguns políticos temem que sejam desvendadas suas relações pessoais e financeiras com Vorcaro.

As conexões do banqueiro são consideradas tão amplas que provocaram a leitura de que uma investigação profunda seria comparável à operação Lava Jato, que provocou abalos em diversos partidos e levou a uma série de tentativas de abafar as apurações.

A verificação desses indícios será agora aprofundada pelos investigadores para determinar se houve participação de autoridades no esquema de fraudes de Vorcaro. Eles se somarão aos dados já coletados na segunda fase da operação, que teve como alvo o uso de fundos de investimentos administrados pela gestora Reag para desvio de recursos captados pelo Master com a venda de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários).

A segunda fase da Compliance Zero, realizada em janeiro, ocorreu já por ordem do ministro do STF, Dias Toffoli, que assumiu o caso após provocação da defesa de Vorcaro, que alegou ter sido encontrada uma referência ao deputado João Bacelar (PL-BA), que tem foro especial.

A referência a Bacelar, no entanto, não é o alvo das apurações da PF neste novo momento. O material encontrado na operação cita outros políticos, incluindo nomes do Congresso.

Em depoimento à PF no fim de dezembro, Vorcaro minimizou suas conexões com autoridades. "Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse.

Segundo investigadores, as apurações envolvendo políticos poderão ser desmembradas do caso original. Mesmo que o inquérito sobre o negócio BRB-Master seja remetido à Justiça de primeiro grau, a investigação envolvendo políticos continuaria sob supervisão do STF.

Nas últimas semanas, uma articulação foi iniciada por ministros do Supremo para que o caso seja remetido à Justiça de primeiro grau. O objetivo era reduzir a pressão sobre o tribunal, principalmente depois de revelações sobre conexões de integrantes do tribunal com negócios do Master.

O movimento passou a ser descrito como uma saída honrosa para o ministro Dias Toffoli, relator do inquérito no Supremo, que tem sua conduta questionada por manter um alto grau de sigilo sobre o caso e pela sociedade que dois de seus irmãos mantiveram com um fundo controlado pelo cunhado de Vorcaro no resort Tayayá, no Paraná.

Com o desgaste do STF e a pressão da opinião pública, o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo, chegou a afirmar ao G1 que havia "uma tendência, pelo que se verifica até agora" de que o caso saísse do tribunal.

A menção aos políticos encontrada na investigação, no entanto, deve levar a um ajuste de rota, com parte das investigações enviadas à instância inferior e uma nova frente aberta no STF.

A investigação que pode ser enviada ao primeiro grau, que envolve a fabricação de carteiras pelo Master, está avançada e deve ser concluída rapidamente, segundo agentes envolvidos no caso. A PF deve produzir um relatório final e apontar os indícios de crime que teriam sido praticados pelos principais suspeitos.

A preocupação de pessoas envolvidas no caso, ouvidas pela Folha, é com o risco de as investigações contra políticos não avançarem no STF por pressões sobre a corte.

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