Não estaria de tornozeleira', diz Vorcaro para minimizar conexões políticas
Lucas Marchesini-brasília, Df (folhapress) - 30/01/2026 09:34:23 | Foto: Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa em acareação conduzida pela PF - Reprodução/PF
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, não respondeu à PF (Polícia Federal) se tem bens no exterior.
No depoimento dado à PF no fim de dezembro do ano passado, a delegada Janaína Palazzo pergunta se Vorcaro tem ativos no exterior.
"O banco tem ativos no exterior, estava iniciando [esse processo]. Agora, eu talvez tenha sido uma das pessoas mais escrutinadas do Brasil antes dessa operação. Todos os meus bens estão declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo", respondeu Vorcaro.
O depoimento prossegue e Vorcaro e a PF não tocam mais no ponto. No início deste ano, o liquidante do Banco Master acionou o tribunal de falência dos Estados Unidos para proteger os ativos da instituição financeira no país.
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli liberou nesta quinta-feira (29) o acesso aos vídeos dos depoimentos. Eles estavam em sigilo.
A determinação inicial de Toffoli era de que houvesse uma acareação entre Vorcaro, o diretor de Fiscalização do BC (Banco Central) Ailton de Aquino e o ex-presidente do BRB (Banco Regional de Brasília) Paulo Henrique Costa.
A medida causou estranheza e, diante da pressão recebida, o ministro alterou a sua decisão para que fossem realizados depoimentos com cada um.
A Polícia Federal investiga a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito supostamente fraudadas pelo Master ao BRB. No ano passado, a direção do banco de Brasília informou que os valores foram parcialmente devolvidos -cerca de R$ 10 bilhões haviam sido recuperados.
A Folha de S. Paulo revelou, no entanto, que os ativos repassados pelo Banco Master ao BRB para substituir os créditos fraudados são compostos por fundos que têm em seu patrimônio ações de empresa que perdeu valor, carteiras de crédito inadimplentes (dívidas não pagas ou em atraso) e imóveis da família de Daniel Vorcaro, de baixa liquidez.
Por conta disso, a perda do BRB na operação pode ser ainda maior.
Vorcaro nega no depoimento qualquer crime. "O negócio não foi realizado ao final ,então não existiu ação criminosa. Se tivesse, o banco teria que ter tido alguma vantagem e alguem teria algum prejuízo", afirmou.
Para ele, a questão é administrativa e deveria estar sendo discutida no BC e não com a PF.
Não estaria de tornozeleira', diz Vorcaro para minimizar conexões políticas
LUCAS MARCHESINI-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, minimizou suas conexões políticas durante depoimento à PF (Polícia Federal) realizado no fim de dezembro de 2025.
"Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse.
O questionamento foi feito no quadro da investigação pela PF sobre uma transação de R$ 12 bilhões de créditos fraudulentos entre o Banco Master e o BRB.
A tentativa ocorreu em meio as tratativas para o BRB comprar uma participação no Master.
Apesar de minimizar as conexões políticas, Vorcaro reconheceu que se encontrou com o governador do DF (Distrito Federal), Ibaneis Rocha (MDB), para discutir o assunto porque ele era o controlador indireto do BRB.
O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), levantou nesta quinta-feira (29) o sigilo dos depoimentos prestados à PF pelos banqueiros Daniel Vorcaro, do Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), e do diretor de Fiscalização do BC (Banco Central), Ailton de Aquino. A decisão foi tomada atendendo a pedido do Banco Central.
Os depoimentos foram colhidos pela delegada da PF Janaína Palazzo antes da acareação entre os empresários, determinada pelo próprio Toffoli no âmbito da investigação sobre as fraudes financeiras.
Durante a acareação, Costa e Vorcaro não concordaram sobre a origem dos créditos falsos, calculados em R$ 12,2 bilhões, que o Master repassou ao BRB.
Daniel Vorcaro nega entrega de celular sob alegação de vazamento de audiência no STF
ANDRÉ BORGES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro disse, no início da acareaçao realizada no STF (Supremo Tribunal Federal), que o dono do Banco Master não abriria o sigilo de seu telefone celular, devido a vazamentos ocorridos minutos após sua participação em uma audiência realizada na corte.
No início da confrontação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, Roberto Podval disse que, naquela primeira audiência, perguntas formuladas pelo ministro do STF Dias Toffoli foram publicadas pela imprensa "apenas 20 minutos após o encerramento do ato judicial".
Segundo o advogado, a rapidez e a precisão da divulgação das informações teriam gerado "insegurança jurídica", tornando inviável o fornecimento de dados privados do investigado às autoridades.
Podval detalhou que, logo após a audiência, em uma sala reservada, a delegada responsável solicitou a abertura do sigilo do aparelho telefônico do banqueiro, garantindo que o procedimento seria protegido por sigilo absoluto. No entanto, o advogado recusou o pedido, justificando que a defesa tinha receio de possíveis vazamentos.
"O sigilo era absoluto, não deu, sei lá, 20 minutos, as questões estavam todas ali colocadas", comentou.
O advogado afirmou que Vorcaro sequer portava o aparelho durante a acareação, para reduzir qualquer risco. "O Vorcaro nem celular trouxe, que era para não ter o risco de nada".
A defesa informou que já havia solicitado a instauração de um inquérito para investigar a origem dos vazamentos e que levaria o novo episódio ao conhecimento do ministro relator do caso no STF, Dias Toffoli.
O dono do Banco Master não respondeu à PF (Polícia Federal) se tem bens no exterior. No depoimento dado à PF no fim de dezembro do ano passado, a delegada Janaína Palazzo pergunta se Vorcaro tem ativos no exterior.
"O banco tem ativos no exterior, estava iniciando [esse processo]. Agora, eu talvez tenha sido uma das pessoas mais escrutinadas do Brasil antes dessa operação. Todos os meus bens estão declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo", respondeu Vorcaro.
O fundador do Banco Master e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, apresentaram versões conflitantes durante a acareação realizada no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a origem de carteiras de crédito consideradas problemáticas e adquiridas pelo banco público, a partir de 2025.
Fazendeiro cobra pagamento de Vorcaros em negócio de carbono na Amazônia
ANDRÉ BORGES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A tentativa da família de Daniel Vorcaro de viabilizar um negócio bilionário de créditos de estoque de carbono na Amazônia envolve um imbróglio que inclui R$ 15 milhões pagos por terras contestadas, promessas de repasses em dinheiro e a entrega de cotas de fundos que, segundo o suposto proprietário da área, "não valem nada".
Marco Antonio Melo, que trava com a União uma disputa pelo título da terra localizada no município de Apuí (AM), afirma que recebeu um "sinal" de R$ 15 milhões para que a área da Fazenda Floresta Amazônica, que alega ser sua, fosse usada como fonte de geração de créditos de estoque de carbono. As árvores, raízes e todo material biológico existente sobre essa fazenda seriam a origem desses créditos.
O projeto, porém, nunca saiu do papel devido à completa ausência de valor desses créditos no mercado real de carbono. Agora, uma das empresas responsáveis pelo pagamento, controlada pelo pai e pela irmã do banqueiro do Master, sinaliza que quer o dinheiro de volta.
À reportagem Melo disse que recebeu o valor por meio de depósitos bancários, em uma transação que teve José Antônio Ramos Bittencourt como intermediário. Ele afirmou ainda que o acordo previa o repasse de novos valores em dinheiro, mas que foram entregues a ele por meio de cotas de participação em fundos gerenciados pela administradora Reag. Esses fundos carregavam valores inflados de ativos de duas empresas, a Global Carbon e a Golden Green, avaliados em R$ 45,5 bilhões.
"O que recebi foram essas cotas de fundos como pagamento, o que é uma vergonha, porque essas cotas não valem nada", disse.
À época do negócio, afirmou Melo, ele não tinha ideia de que a família Vorcaro era quem estava patrocinando o projeto.
"Foi feito um contrato, um negócio firmado por mim e José Antônio Bittencourt, chamado exercício a cumprir, em que foi antecipado para mim um valor de R$ 15 milhões. O contrato foi com o José Antônio, mas quem fez o pagamento foram outras empresas. Recebi depósitos da Alliance e um da empresa chamada ABM Participações", afirmou.
Como revelado pela Folha de S.Paulo, a Alliance é controlada por Henrique Moura Vorcaro, que ocupa a cadeira de presidente, e Natália Bueno Vorcaro Zettel, diretora da empresa e mulher de Fabiano Zettel, alvo de operação da Polícia Federal. Trata-se do pai e da irmã de Daniel Vorcaro, que sempre negou participação no negócio de carbono na região.
Melo não deu mais detalhes sobre a ABM Participações. Dois sócios de uma companhia com este nome aparecem como administradores de empresas ao lado de um primo de Daniel Vorcaro que também foi alvo da PF, no âmbito da Operação Compliance Zero.
Apesar do pagamento de R$ 15 milhões que recebeu, Melo disse que se sentiu enganado, porque, segundo ele, a promessa original de acordo previa que ele receberia 12 parcelas em dinheiro, referentes a uma fatia de 10% dos negócios que seriam feitos com o estoque de carbono.
Esses repasses não ocorreram. Em vez de dinheiro, Melo diz que recebeu cotas de participação em fundos que se apoiavam nos ativos de estoque de carbono, um papel sem valor de mercado e que teve seu preço determinado internamente, pelas próprias empresas.
"Deram somente 10% do total dos créditos pro trouxa da fazenda. Eu não recebi nada. Eles fizeram essa precificação lá, que vale não sei quantos bilhões, mas que não vale nada. Não tinha valor nenhum, não tem e não terá", disse Melo.
CONTRATO
Em agosto de 2022, um contrato de opção de compra e venda foi assinado entre a Alliance, Melo, que aparece como o suposto dono da terra, e José Antônio Ramos Bittencourt, que atuou no negócio como mediador.
Com o acordo, a Alliance passou a ser dona majoritária das unidades de carbono associadas à Fazenda Floresta Amazônica, com 80% do que seria produzido, enquanto Bittencourt ficou com 20%.
As duas empresas controladas por fundos da Reag, a Golden Green e a Global Carbon, passaram a valer R$ 14,5 bilhões e R$ 31 bilhões, respectivamente, mesmo sem vender um único crédito.
Melo disse que, ao saber que a Global Carbon era avaliada, ainda em 2024, por R$ 26 bilhões, ele tinha a expectativa de receber 10% disso em dinheiro, ou seja, R$ 2,6 bilhões. "Era pra ser em dinheiro, mas eles me enganaram, me passaram a perna, me deram em cotas de fundo, dizendo que essas cotas de fundo iam virar dinheiro quando vendesse o crédito (de estoque de carbono)", comentou.
Por meio de nota, a Alliance declarou que, com a opção de compra cedida por José Bitencourt à empresa, Melo recebeu pelo arrendamento de um terreno que, depois, conforme a Alliance, "foi apurada a possibilidade de ser uma terra pública".
"Diante dessa situação, a Alliance deve ser ressarcida não somente pelos valores pagos, mas também pelas perdas e danos causados e já está tomando as medidas legais cabíveis para isso", afirmou a empresa, sinalizando que quer de volta aquilo que pagou.
Melo alega que sua terra é legítima e que tem escritura do imóvel. A sobreposição com área pública do Incra, destinada à reforma agrária, segundo Melo, já seria do conhecimento do intermediário do negócio, José Antônio Ramos Bittencourt, desde 2022.
O Incra diz que se trata de área da União, destinada a Projeto de Assentamento Federal, contendo matrícula e Portaria de Arrecadação dos anos 1980. "Os negócios são irregulares e causam danos à União", afirmou a autarquia à reportagem, acrescentando que "medidas administrativas e judiciais estão sendo adotadas".
O Incra declarou que, para evitar negociações sobre a área, abriu um processo administrativo de fiscalização que vetou o cadastro do imóvel no SNCR (Sistema Nacional de Cadastro Rural), além de ter negado a certificação do imóvel no Sigef (Sistema de Gestão Fundiária).
Bittencourt afirmou, por meio de nota, que "já prestou todas as informações sobre a originação dos ativos ambientais e sua regularização perante a autarquia fundiária".
"O projeto foi interrompido em razão do apontamento fundiário, o que suspendeu todos os pagamentos relativos às fases seguintes - como comprovado em documento de Termo de Compromisso e Suspensão assinado por ele e Melo. Bittencourt não é representante e muito menos sócio da Alliance, e não tem relação com as investigações que envolvem a Reag e o banco Master", declarou sua assessoria.
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