Dois investigados faltam a depoimentos sobre Master e um não responde a perguntas
Leonardo Vieceli E Nicola Pamplona-rio De Janeiro, Rj (folhapress) - 27/01/2026 07:23:38 | Foto: Banco Master/Divulgação
O Ministério Público de pelo menos seis estados investiga aplicações de fundos de previdência estaduais ou municipais em títulos do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Existem apurações em curso em Alagoas, Amapá, Amazonas, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. Após suspeitas de fraudes em suas operações, o Master foi liquidado pelo BC (Banco Central) em novembro.
Dados do Ministério da Previdência Social divulgados à época apontaram que institutos de aposentadoria de servidores estaduais ou municipais aplicaram R$ 1,8 bilhão em letras financeiras do banco de Vorcaro sem garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) no período de outubro de 2023 a dezembro de 2024.
RIO DE JANEIRO
O caso mais emblemático é o do estado do Rio de Janeiro. O fundo de previdência dos servidores fluminenses, o Rioprevidência, investiu cerca de R$ 970 milhões nos títulos do Master. É o maior valor da lista do Ministério da Previdência Social.
Na sexta (23), a PF (Polícia Federal) fez operação de busca e apreensão em endereços ligados a executivos do Rioprevidência.
Após a ação, Deivis Marcon Antunes foi exonerado do cargo de diretor-presidente da autarquia estadual -ele negou irregularidades em carta de demissão encaminhada ao governador Cláudio Castro (PL).
Logo após a liquidação do Master, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu um procedimento para apurar o caso, recomendou a exoneração de executivos responsáveis e, em conjunto com o Rioprevidência, foi à Justiça suspender repasses ao banco de Vorcaro.
Os repasses são de pagamentos de empréstimos consignados tomados por aposentados e pensionistas. O Ministério Público avalia que as aplicações em "volume excessivo" expuseram o fundo a risco de crédito "desproporcional e incompatível com os parâmetros de segurança exigidos para investimentos dessa natureza".
O Rioprevidência disse em nota que "todos os investimentos efetuados pela autarquia observaram rigorosamente a legislação vigente e as normas dos órgãos de controle". Declarou ainda que está resguardado pela decisão judicial que determinou a retenção dos repasses ao banco.
SÃO PAULO
O Ministério Público de São Paulo também afirmou que há apurações relacionadas ao Master.
O primeiro caso envolve investimentos do São Roque Prev, do município de São Roque, que aplicou R$ 93 milhões em letras financeiras. O segundo, do Araprev, de Araras, que investiu R$ 29 milhões.
A Prefeitura de Araras e o Araprev disseram em nota que uma sindicância foi aberta para apurar as operações, feitas em 2024, e que "estão sendo tomadas medidas cabíveis para resguardar os interesses dos aposentados e pensionistas do serviço público municipal".
O São Roque Prev já afirmou monitorar a liquidação extrajudicial do Master e declarou ter adquirido os títulos seguindo ritos legais e técnicos, com pareceres de assessoria de investimentos, aprovação de comitê de investimentos, ciência e homologação de conselhos fiscal e deliberativo.
AMAPÁ
No Amapá, a Amprev (Amapá Previdência) direcionou R$ 400 milhões para letras financeiras do banco. O Ministério Público do Estado afirmou que uma apuração anterior à liquidação do Master verifica a "compatibilidade" das aplicações com a política de investimentos do órgão.
"As novas informações que surgirem, a partir das investigações em andamento, também serão objeto de análise", disse o MP. O caso tramita em sigilo.
O Governo do Amapá afirmou que a Amprev mantém situação financeira "sólida e segura".
Isso, de acordo com a gestão estadual, garante o pagamento das cerca de 6.000 aposentadorias e pensões sob responsabilidade da autarquia, com equilíbrio projetado até 2059.
"Nesse contexto, o investimento de R$ 400 milhões no Banco Master representa apenas 4,7% do patrimônio total da Amprev, sem qualquer risco à sustentabilidade do regime", disse.
Ainda de acordo com o governo, o fundo obteve autorização judicial para reter valores referentes a empréstimos consignados que seriam repassados ao banco.
AMAZONAS
Também na região Norte, o Ministério Público do Estado do Amazonas instaurou investigação para apurar possíveis irregularidades em investimentos do Amazonprev (Fundo Previdenciário do Amazonas), o que inclui aplicações na instituição de Vorcaro. O procedimento tramita em sigilo.
O Governo do Amazonas chamou de "significativo" o valor de R$ 50 milhões investido em letra financeira do Master, mas disse que a quantia representa menos de 0,5% do total de aplicações do Amazonprev.
Segundo a gestão estadual, o órgão obteve lucro de cerca de R$ 1,1 bilhão de janeiro a outubro de 2025.
"Hoje, o fundo tem recursos para pagar todas as aposentadorias e pensões -incluindo os benefícios futuros dos servidores que hoje ainda estão na ativa- por toda a vida, sobrando ainda R$ 1,7 bilhão", acrescentou.
ALAGOAS
Outra investigação está em estágio inicial em Maceió. Segundo os dados do Ministério da Previdência Social, o instituto de previdência da capital alagoana aplicou R$ 97 milhões em letras financeiras do Master.
O Ministério Público do Estado de Alagoas afirmou que um procedimento preparatório de investigação tramita na 14ª Promotoria de Justiça da Capital.
Um ofício foi enviado à Prefeitura de Maceió solicitando informações no final do ano passado. O município respondeu ao documento, e o material está sendo analisado pelo MP.
O Maceió Previdência afirmou que a investigação é uma "excelente oportunidade" para demonstrar a regularidade dos investimentos em papéis do Master.
O fundo disse que, em resposta ao Ministério Público, já detalhou que todas as exigências necessárias foram cumpridas e que está adotando medidas cabíveis para recuperar os valores investidos.
"No documento, a autarquia também assegura que os pagamentos a todos os aposentados e pensionistas estão absolutamente garantidos e que não haverá majoração das contribuições dos mesmos", acrescentou.
Conforme a prefeitura, o patrimônio do Maceió Previdência é de R$ 1,5 bilhão atualmente.
GOIÁS
O Ministério Público do Estado de Goiás confirmou uma investigação em andamento em Aparecida de Goiânia, na região metropolitana de Goiânia. O fundo do município aplicou R$ 40 milhões no Master.
Em dezembro, representantes do AparecidaPrev foram chamados para prestar esclarecimentos na Câmara Municipal. A Folha tentou contato com a prefeitura e o fundo, mas não teve retorno.
Dois investigados faltam a depoimentos sobre Master e um não responde a perguntas
JOSÉ MARQUES E CONSTANÇA REZENDE-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Dois dos quatro investigados no caso do Banco Master que prestariam depoimentos nesta segunda-feira (26) à Polícia Federal se ausentaram, e um terceiro decidiu não responder a perguntas e fez apenas uma manifestação inicial.
As defesas deles comunicaram às autoridades que não tiveram acesso aos autos da investigação, e solicitaram que as audiências fossem remarcadas para depois que isso acontecesse.
Esse pedido de remarcação dos depoimentos tem de ser feito pela PF ao ministro Dias Toffoli, que é o relator do inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal).
Não compareceram aos depoimentos desta segunda o dono da consultoria Tirreno Henrique Souza e Silva Peretto e o diretor da consultoria e ex-funcionário do Master André Felipe de Oliveira Seixas Maia.
O ex-funcionário do Master Alberto Felix de Oliveira Neto manteve silêncio durante a audiência e fez apenas uma declaração para afirmar que não tinha poder de deliberação no banco, e apenas cumpria ordens.
Os depoimentos aconteceram em sessões fechadas na sede do STF, de forma presencial ou por vídeo, e as duas ausências e a falta de manifestação foram confirmadas pela reportagem com pessoas que acompanham as apurações.
A Tirreno é uma empresa que as investigações apontam ser de fachada e que foi usada na tentativa de venda do Master ao BRB (Banco de Brasília).
O Master é suspeito de ter fraudado carteiras de crédito no valor de R$ 12,2 bilhões vendidas ao BRB, que foram adquiridas da Tirreno e teriam origem em operações de empréstimo consignado firmadas por meio de associações de servidores públicos da Bahia.
Investigações do Banco Central, do MPF (Ministério Público Federal) e da PF apontaram indícios de que os créditos haviam sido forjados e foram utilizados para inflar o balanço do banco de Vorcaro, que repassou a carteira ao BRB num momento em que a instituição enfrentava dificuldades de liquidez.
O Master adquiriu créditos de dívidas da Tirreno "sem realizar qualquer pagamento", segundo as investigações, e os revendeu ao BRB.
Maia e Peretto são dois dos quatro investigados que seriam ouvidos nesta segunda pela PF na sede do Supremo, de forma presencial ou por vídeo.
Peretto foi responsável por aumentar o capital social da Tirreno, que saiu de R$ 100 para R$ 30 milhões. Para a PF, esse aumento é incompatível com a operação regular da Tirreno e foi feito para dar uma falsa aparência de capacidade econômica e ocultar sua finalidade como empresa de fachada.
Já o ex-funcionário Alberto Félix de Oliveira Neto foi signatário do contrato de parceria entre o Master e a Tirreno, além de outros contratos sob investigação. Ele é investigado sob suspeita de diversos crimes contra o sistema financeiro nacional.
Em sua manifestação inicial, ele disse que não teve acesso às investigações e negou ser diretor do Master, como diz a investigação, mas apenas um funcionário sem poder de deliberação.
Também afirmou que assinou alguns contratos por procuração como era comum acontecer no Master quando os funcionários eram requisitados. De acordo com Alberto Félix, precisava haver um quórum de dois funcionários para assinar um contrato e, quando não havia diretor presente, eles eram solicitados a assinar.
Procurada, a defesa de André Felipe afirmou que está sem acesso aos autos e, dessa forma, não há como prestar esclarecimentos. A defesa de Alberto Felix não se manifestou .Os advogados de Peretto não foram localizados.
Pela manhã, foi ouvido presencialmente pela PF o ex-diretor financeiro do BRB Dario Oswaldo Garcia Júnior.
Ele é investigado junto com o ex-presidente do banco Paulo Henrique Costa por suspeita de gestão fraudulenta e associação criminosa, pela tentativa de salvamento do Banco Master.
Segundo as investigações, sua atuação teria viabilizado aportes do banco público para socorrer o Master em sua crise de liquidez. Ele era responsável por garantir que as informações enviadas ao Banco Central estivessem em conformidade com as normas legais.
Dario foi ouvido pela PF e respondeu todas as perguntas feitas pelos investigadores.
Estavam previstos oito depoimentos nesta segunda e terça-feira (27).
A expectativa era a de que mais pessoas fossem ouvidas pela PF, que havia intimado, inclusive, o dono do banco, Daniel Vorcaro, para novo depoimento. Porém, o ministro Toffoli determinou a redução do prazo para oitivas, de seis dias para dois dias, e a PF apresentou um novo cronograma sem o ex-banqueiro.
Em 30 de dezembro, Vorcaro foi ouvido no mesmo no STF, além do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino.
Em seguida, Vorcaro e Costa, do BRB, participaram de uma acareação, que tratou de divergências sobre a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo os investigadores, do Master para o BRB.
Em declarações públicas, as defesas dos investigados têm negado que cometeram irregularidades.
Dono do Master tem participação de R$ 30 mi em liga de futebol que detém direitos do Corinthians
LUCAS MARCHESINI-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, detém participação de R$ 30 milhões na Liga Forte União, entidade que negocia os direitos de transmissão de jogos de futebol de 35 times brasileiros, sendo 13 da primeira divisão. Entre eles estão Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo e Cruzeiro.
A participação do ex-banqueiro no negócio se dá por meio de uma debênture conversível em ações detida pelo fundo Astralo 95. Esse tipo de papel oferece uma remuneração fixa mais um adicional a depender do desempenho da empresa que recebeu o aporte. Depois de um prazo, o dono da debênture pode converter o valor em ações da empresa.
O Astralo 95 faz parte da rede de fundos suspeitos de integrarem o esquema de fraude de Vorcaro, conforme revelou a Folha de S. Paulo.
Apesar de ser um negócio legítimo e não estar relacionado à investigação da Polícia Federal e do Banco Central, seus valores estarão entre os bens que serão liquidados para o pagamento dos credores do Master.
Procurados, nem a Liga Forte União e nem Vorcaro comentaram.
Os direitos de transmissão são da Sports Media, uma empresa que formou um condomínio com os clubes participantes da liga.
Para se capitalizar, a empresa captou dinheiro por meio de três fundos. Dois deles têm sociedade na Sports Media e seus acionistas são conhecidos pela direção da liga e da Sports Media.
O terceiro é o fundo que levantou recursos no mercado a partir da emissão de debêntures, vendidas por parceiros comerciais. Foi por meio da compra de um desses papéis que Vorcaro entrou no negócio. Ao todo, são cerca de 8.000 cotistas.
A Sports Medida investiu R$ 2,2 bilhões na operação, que busca replicar a liga de clubes da Primeira Divisão Inglesa, a Premier League.
Esse não é o único negócio de Vorcaro no futebol. Ele detém uma participação de cerca de 20% no Atlético-MG, time do qual é torcedor, a partir do fundo Galo Forte, cujo cotista é o Astralo 95. Ao todo, Vorcaro investiu cerca de R$ 300 milhões no negócio.
Com isso, obteve uma cadeira no conselho do clube, do qual foi afastado em novembro após ser preso em uma operação da PF (Polícia Federal).
Vorcaro é alvo de investigações da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Deflagrada pela primeira vez em 18 de novembro de 2025, ela apura um esquema bilionário de fraudes financeiras que teria usado estruturas do mercado de capitais para desviar recursos do Banco Master e mascarar prejuízos.
Na primeira fase, ocorrida em novembro, o alvo foi a venda de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado fraudulentas ao BRB (Banco de Brasília).
Na segunda fase, deflagrada na última quarta-feira (14), a PF mirou o uso de fundos de investimentos para a compra de "ativos podres", como certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina).
Esses ativos inflavam artificialmente o patrimônio dos fundos, que eram usados para desviar dinheiro do Master, segundo os investigadores. A ciranda financeira permitia ainda retroalimentar o patrimônio do banco, possibilitando a instituição seguir vendendo CDBs no mercado.
A ideia original era deflagrar as duas operações ao mesmo tempo, mas a demora na Justiça impediu isso de acontecer, como revelou a Folha de S. Paulo.
O pedido da primeira fase foi feito a um juiz de Brasília com base em denúncia apresentada ao MPF (Ministério Público Federal) pelo BC sobre a venda de carteiras falsas de crédito ao BRB (Banco do Distrito Federal).
Já o pedido para a operação de busca e apreensão de provas com pessoas envolvidas nas fraudes dos fundos de investimento foi feito para a Justiça Federal de São Paulo. A solicitação foi feita em outubro do ano passado.
Diretor da PF diz que caso Master tramita sob 'regularidade absoluta' com Toffoli
JOSÉ MARQUES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, disse nesta segunda-feira (26) que o inquérito sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master tramita sob "absoluta regularidade" com Dias Toffoli, apesar dos questionamentos a respeito da atuação do ministro e de conflitos com a própria Polícia Federal.
Andrei foi questionado por jornalistas sobre o tema em evento de solenidade de abertura do curso de formação de agentes da PF, no Teatro de Arena, em Brasília.
O diretor-geral disse que não entraria em detalhes operacionais sobre operações em andamento, mas afirmou que o processo é regular. No mesmo evento, estava o ex-ministro da Justiça e ministro aposentado do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski.
"O ministro Lewandowski comentou na sua aula magna sobre o papel do juiz em todos os casos e esse é mais um deles, em absoluta regularidade, que nós seguimos instruindo conforme as determinações dos magistrados", disse Andrei.
Em sua fala, o diretor também destacou o papel da Polícia Federal como instituição de Estado, e disse que sua autonomia "tem sido garantida desde o primeiro dia da nossa gestão pelo governo federal".
Desde o início, Toffoli tem tentado acelerar procedimentos da investigação do caso Master, enquanto mantém controle completo sobre os seus rumos, o que já causou atritos com a PF.
Uma acareação que ocorreu em 30 de dezembro entre Daniel Vorcaro, dono do Master, e o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa, por exemplo, foi marcada antes de serem tomados os depoimentos dos investigados.
Toffoli acabou definindo que os dois fossem ouvidos pela delegada do caso nas horas que antecederam a acareação. Ele também determinou que ela fizesse ao banqueiro mais de 80 perguntas elaboradas pelo seu próprio gabinete.
Nas últimas semanas, Toffoli também decidiu que a PF, que pretendia tomar outros depoimentos do inquérito nas semanas entre o final de janeiro e o início de fevereiro, resumisse esse procedimento a dois dias. O cronograma ficou definido para esta segunda (26) e terça (27).
Além disso, o ministro definiu, por conta própria, os peritos que vão analisar as provas obtidas na última fase da Compliance Zero, o que fez a própria PF pedir ajuda ao governo para questionar a decisão. A associação de delegados da corporação disse que as decisões do ministro são uma "afronta às prerrogativas" da categoria.
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