A opinião de João Zisman: As ruas não votam por transferência

mobilização petista e estudantil ganha espaço nas ruas em apoio a Lula, mas não se traduz em avanço de Leandro Grass no Distrito Federal, onde Celina Leão mantém ampla vantagem nas pesquisas

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Por João Zisman - 15/10/2026 11:54:07 | Foto: Divulgação

As manifestações de apoio ao presidente Lula estão ganhando presença nas ruas de Brasília, acompanhando um movimento que também se espalha por outras cidades brasileiras. A militância petista e os movimentos estudantis têm estimulado essas mobilizações, que reúnem tanto participantes ligados às organizações políticas quanto jovens que comparecem por iniciativa própria. A grande manifestação de terça-feira, na Esplanada dos Ministérios, foi um dos momentos mais visíveis desse processo, mas não um acontecimento isolado. O movimento vem se repetindo, com diferentes dimensões e formatos, e apresenta uma particularidade interessante no Distrito Federal: a demonstração de apoio a Lula não está produzindo o mesmo efeito na candidatura de Leandro Grass ao Governo do Distrito Federal.

Grass não consegue transformar essa movimentação em crescimento eleitoral. Embora participe das atividades e procure aproximar sua candidatura das bandeiras defendidas pelos manifestantes, a presença da militância nas ruas não encontra correspondência nos levantamentos de intenção de voto. O apoio ao presidente Lula aparece com intensidade nas manifestações, mas não se transfere automaticamente para o candidato petista ao Buriti.

Os números ajudam a compreender essa diferença. O Datafolha registrou Celina Leão com 60% dos votos válidos, contra 40% de Grass. O Real Time Big Data, divulgado na quarta-feira, apresentou a mesma divisão. A distância continua expressiva, sem indicação de aproximação entre os candidatos nesses dois levantamentos. O movimento de rua pode ter significado político para a campanha presidencial, mas não há evidência de que esteja alterando a disputa local na mesma direção.

Essa separação não chega a ser uma novidade no comportamento do eleitor brasiliense. A identificação com um candidato à Presidência não determina necessariamente a escolha para governador. É perfeitamente possível que alguém participe de uma manifestação em defesa de Lula, concorde com as reivindicações apresentadas e, ainda assim, tenha outra preferência para a administração do Distrito Federal. As duas eleições acontecem ao mesmo tempo, mas não obedecem obrigatoriamente à mesma lógica.

Enquanto a militância petista mantém suas atividades, Celina Leão continua percorrendo as regiões administrativas, mobilizando apoiadores e procurando consolidar a vantagem registrada nas pesquisas. A governadora e Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, mantêm apoio recíproco. Nesse mesmo campo político estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas para o Senado, além de Damares Alves, que já exerce mandato. É uma composição com presença nacional e influência na política local, embora a avaliação da administração distrital também tenha peso próprio na escolha do eleitor.

Celina terminou o primeiro turno com 49,93% dos votos válidos, a uma distância mínima de encerrar a disputa em 4 de outubro. Esse resultado, somado à vantagem que continua apresentando nas pesquisas, ajuda a explicar por que sua campanha procura manter a mobilização e evitar qualquer acomodação. O segundo turno existe, os votos ainda serão depositados nas urnas e nenhum levantamento substitui a decisão do eleitor, mas o quadro atual é de uma vantagem expressiva da governadora.

O que se observa em Brasília, portanto, é a convivência de dois movimentos políticos que não se anulam, mas também não se alimentam necessariamente. A militância petista consegue levar estudantes e apoiadores às ruas em defesa de Lula, enquanto Grass permanece distante de Celina nas pesquisas. A campanha da governadora, por sua vez, mantém uma presença própria nas regiões administrativas, sem depender exclusivamente da mobilização presidencial de seu campo político.

E há uma ironia nessa história. Celina chegou ao segundo turno com 49,93% dos votos válidos, quando poderia ter encerrado a disputa na primeira votação. Entre os erros de comunicação da campanha, um foi particularmente grosseiro: não fixar suficientemente o número 11 da governadora, permitindo que parte do eleitorado confundisse seu número com o 22 de Flávio Bolsonaro. Foram cerca de 26 mil votos anulados para governador com a digitação de um número que sequer correspondia a um candidato ao Buriti. Evidentemente, ninguém pode afirmar que todos esses votos seriam de Celina, mas é bastante razoável considerar que uma comunicação mais eficiente poderia ter evitado parte da confusão e garantido os poucos votos que faltaram para liquidar a eleição no primeiro turno. Uma falha elementar para uma campanha que chegou tão perto de vencer.

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