A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O incômodo da juventude

Entre as ruas de 1968 e as manifestações de hoje, a distância histórica é enorme, mas a disposição dos jovens para questionar e incomodar continua sendo um sinal saudável para a sociedade

A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O incômodo da juventude
A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O incômodo da juventude

Por João Zisman - 14/10/2026 09:58:18 | Foto: Divulgação

Depois de tanto ouvir que a garotada vive grudada na tela do celular, não deixa de ser interessante vê-la saindo de casa para ocupar as ruas. No domingo, foi a vez da Avenida Paulista, com manifestações que também aconteceram em outras cidades, e na terça-feira milhares de estudantes caminharam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, numa mobilização que reuniu entidades estudantis, coletivos juvenis, influenciadores e até comunidades de fãs de artistas internacionais. Claro que os celulares continuaram nas mãos, seria até estranho se não estivessem, mas dessa vez ajudaram a juntar gente, organizar grupos e fazer uma coisa que a juventude, quando resolve participar da vida pública, costuma fazer muito bem: incomodar.

É difícil olhar para essas cenas sem lembrar, ainda que de longe, de 1968, quando estudantes tomaram as ruas de Paris, do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades, questionando autoridades, comportamentos e tudo aquilo que parecia estabelecido para durar eternamente. No Brasil, a Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas, intelectuais e trabalhadores contra a repressão da ditadura militar, num ambiente de censura, prisões e violência que, evidentemente, não tem comparação com o que vivemos hoje. Nem os motivos são os mesmos, nem a disposição para o confronto físico, muito menos os riscos enfrentados por quem saía de casa naquela época. Mas existe alguma coisa naquela inquietação juvenil que atravessa as gerações, uma vontade de dizer que não está tudo bem, que há perguntas a fazer e que nem sempre os mais velhos têm todas as respostas.

A comparação, portanto, não pretende transformar as manifestações atuais numa reedição de 1968, até porque seria um disparate histórico, mas chama atenção para algo que andávamos deixando de lado quando falávamos dos jovens. Virou quase um lugar-comum dizer que essa geração perdeu o interesse pela política, que prefere os vídeos curtos, os jogos eletrônicos e a vida dos influenciadores a qualquer discussão sobre o país. Pois é, talvez tenhamos nos apressado um pouco nesse julgamento, porque as mesmas redes que servem ao entretenimento também podem mobilizar, e aqueles grupos que se formam em torno de um cantor, de um artista ou de qualquer interesse comum acabam descobrindo que existem outros assuntos sobre os quais vale a pena conversar. Não quer dizer que estejamos diante de uma geração subitamente politizada, mas é interessante perceber que a distância entre uma postagem e uma manifestação de rua pode ser bem menor do que imaginávamos.

E aqui há uma questão que considero importante, porque não é preciso concordar com as bandeiras desses movimentos, com seus organizadores ou mesmo com os candidatos que eventualmente apoiam para reconhecer o valor dessa disposição de participar. Aliás, seria muito ruim se passássemos a achar que manifestação legítima é apenas aquela que defende aquilo de que gostamos. O estudante que hoje carrega um cartaz com o qual discordamos tem o mesmo direito de estar na rua que aquele que amanhã aparecerá defendendo exatamente o contrário, e talvez seja essa uma das coisas que precisamos reaprender a valorizar numa democracia tão acostumada a dividir as pessoas entre os nossos e os outros. A juventude não precisa pedir licença para pensar diferente, assim como ninguém está obrigado a concordar com ela.

Também não vamos romantizar demais essa história, porque numa manifestação há de tudo um pouco, desde quem conhece profundamente a causa que está defendendo até quem resolveu acompanhar os amigos, seguir um influenciador ou participar de alguma coisa que lhe pareceu interessante. E qual é o problema? A política nunca exigiu que alguém estudasse ciência política antes de entrar numa passeata, assim como ninguém precisa ter uma convicção formada sobre todos os problemas nacionais para começar a se interessar pelo que acontece à sua volta. Muitas vezes é justamente essa convivência, a conversa no caminho, a discordância com o colega ou alguma experiência vivida no meio da multidão que desperta uma curiosidade maior. Se depois disso o jovem vai se tornar militante, eleitor mais atento ou simplesmente voltar à rotina, ninguém sabe, mas a experiência de participar já lhe permite enxergar a vida pública de uma maneira diferente.

É claro que partidos e lideranças políticas vão tentar tirar proveito dessa movimentação, e isso também não é novidade alguma, porque sempre houve quem enxergasse nas ruas uma oportunidade de ampliar sua influência. O cuidado é não confundir uma manifestação com a adesão permanente de uma geração a determinada corrente política, como se milhares de jovens pudessem ser contabilizados de uma vez só no patrimônio eleitoral de alguém. A mesma garotada que hoje se mobiliza por uma causa pode amanhã estar envolvida em outra, ou até mudar completamente de opinião, e isso faz parte de uma idade em que experimentar, questionar e mudar de ideia não deveria ser tratado como defeito.

Talvez seja essa a lembrança mais interessante que 1968 nos oferece, sem saudosismo e sem a pretensão de colocar épocas tão diferentes no mesmo pacote. A juventude daquele tempo tinha suas razões, seus excessos, suas contradições e também seus enganos, como certamente acontece com a de agora, mas havia nela uma disposição de não aceitar passivamente tudo o que lhe era apresentado como definitivo. Gosto de pensar que existe algo de saudável quando uma nova geração resolve entrar na discussão sobre os rumos do país, mesmo que a gente discorde de boa parte do que ela está dizendo, porque uma sociedade que ainda consegue despertar a inquietação dos seus jovens tem razões para olhar o futuro com algum otimismo. Preocupante mesmo seria vê-los inteiramente conformados, convencidos de que nada lhes diz respeito e de que o melhor a fazer é deixar a política por conta dos outros.

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