A judicialização cresce na disputa presidencial, enquanto o Distrito Federal tenta manter sua eleição local distante da polarização nacional
Por João Zisman - 13/10/2026 08:40:37 | Foto:
O segundo turno foi ganhando um personagem que ninguém escolheu na urna, mas que, de repente, começou a ocupar espaço demais na campanha: o Tribunal Superior Eleitoral, envolvido numa sequência de decisões, recuos, contestações e leituras cruzadas que transformaram aquilo que deveria ser arbitragem em assunto político de primeira grandeza.
A história do canal “Exército do Lula” ajuda a entender como chegamos até aqui. Kassio Nunes Marques determinou a suspensão do grupo, Ricardo Villas Bôas Cueva restabeleceu o canal e, depois, a própria área técnica do TSE informou que não encontrou, no material analisado, as informações falsas apontadas pela campanha de Flávio Bolsonaro, embora tenha feito ressalvas sobre o tom das mensagens e o ambiente de confronto. Ou seja, um caso que poderia ter ficado restrito ao exame de conteúdo acabou virando discussão sobre rito, competência, proporcionalidade e, como sempre acontece em campanha apertada, sobre intenção.
É aí que a coisa começa a ficar meio torta, porque Lula passa a dizer que ministro não pode ter lado, Flávio reage dizendo que há favorecimento do outro lado, cada decisão ganha leitura eleitoral própria e o tribunal, queira ou não, termina no meio da roda. O risco não está apenas no que decide, mas no fato de cada movimento passar a ser interpretado como gol de um lado ou defesa do outro.
Enquanto isso, o país tem coisas um pouco mais importantes para discutir. Previdência voltou à mesa, a conta fiscal continua sem fechamento convincente, a escala 6x1 vai para votação em pleno segundo turno, segurança pública continua pedindo mais do que slogan e os dois candidatos ainda devem ao eleitor uma explicação mais clara sobre o governo que pretendem montar a partir de janeiro.
No Distrito Federal, essa confusão nacional entra pela porta com facilidade, talvez até demais, porque aqui tudo parece acontecer perto. A nova Quaest colocou Celina Leão com 61,5% dos votos válidos e Leandro Grass com 38,5%, uma distância que muda bastante a natureza da disputa local. Celina precisa cuidar para que a vantagem não produza aquela preguiça eleitoral que costuma aparecer quando todo mundo começa a achar que a eleição já terminou, enquanto Grass precisa fazer o contrário, mostrar que ainda há uma eleição viva e, sobretudo, dizer por que alguém deveria mudar de voto agora.
Só que o DF corre um risco conhecido: virar cenário da eleição presidencial e esquecer que também está escolhendo governador. Lula aparece, Flávio aparece, Michelle aparece, ministros do Supremo aparecem, o TSE aparece, e a cidade vai ficando em segundo plano justamente quando deveria estar no centro da conversa.
E a cidade tem assunto de sobra. Saúde, transporte, Metrô, habitação, segurança, mobilidade, relação com o Entorno, obras, funcionamento da máquina, tudo isso afeta muito mais a vida de quem mora no Distrito Federal do que boa parte das brigas nacionais que ocupam os grupos de WhatsApp durante o dia inteiro.
Brasília tem essa mania de acreditar que vive apenas da política grande porque convive com ela na esquina, no restaurante e no elevador, mas o eleitor que espera atendimento numa UPA, perde tempo no trânsito ou reclama do transporte não está pensando no próximo voto do Supremo. Ele está pensando na vida que leva aqui.
Talvez por isso esta reta final possa ficar interessante, desde que as campanhas locais consigam escapar um pouco da sombra nacional. Grass precisa evitar que sua candidatura pareça apenas uma extensão da campanha de Lula, enquanto Celina também precisa mostrar que sua vantagem e sua relação com Flávio não substituem um programa próprio para o DF.
No plano nacional, o TSE ainda terá de encontrar uma maneira de exercer autoridade sem transformar suas próprias divergências em mais um capítulo da eleição. No plano local, Celina e Grass precisam fazer algo mais simples e talvez mais difícil: lembrar ao eleitor que estão disputando o Buriti.
Porque, no fim, Brasília pode até respirar política nacional, mas ninguém pega o Metrô, procura médico ou espera obra pública em nome da República.
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