Wellington Luiz quer mudar a Lei Orgânica para continuar na presidência da Câmara Legislativa, enquanto Eduardo Pedrosa e Rôney Nemer entram nas articulações de uma disputa que começou antes mesmo do fim do segundo turno
Por João Zisman - 10/10/2026 09:47:26 | Foto: Divulgação
A eleição para o Governo do Distrito Federal ainda não terminou, mas os deputados distritais já estão envolvidos em outra disputa, a da presidência da Câmara Legislativa. Enquanto Celina Leão e Leandro Grass procuram conquistar os votos do segundo turno, os bastidores da Casa estão movimentados por conversas e uma proposta que promete esquentar o ambiente político: mudar as regras para permitir que Wellington Luiz, do MDB, continue no comando do Legislativo.
Wellington já foi reconduzido à presidência e, pelas regras atuais, não pode disputar uma terceira eleição consecutiva para o mesmo cargo. A alternativa discutida por seus aliados é modificar o artigo 66 da Lei Orgânica do Distrito Federal, que permite uma única reeleição para os integrantes da Mesa Diretora. Não se trata de uma alteração do Regimento Interno, mas de uma mudança que exige votação em dois turnos e aprovação de pelo menos 16 dos 24 deputados distritais.
A tentativa não é inédita e já encontrou resistência anteriormente. Agora, o assunto retorna no encerramento da legislatura, quando o eleitor já escolheu os parlamentares que tomarão posse em janeiro. E é nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas uma questão de interesse político e passa a envolver o respeito à nova composição da Câmara.
Dos 24 deputados eleitos, 17 conseguiram renovar seus mandatos e sete não fazem parte da atual composição. Entre eles estão seis estreantes e Rôney Nemer, que retorna à Câmara depois de já ter exercido mandato. Isso significa que quase 30% dos parlamentares da próxima legislatura não poderão participar de uma eventual votação realizada agora para modificar as regras da eleição da Mesa Diretora.
A atual Câmara tem competência para deliberar até dezembro, naturalmente, mas uma coisa é ter respaldo legal e outra é considerar a conveniência de alterar uma regra dessa importância no encerramento dos mandatos. Há um casuísmo evidente na proposta de modificar uma norma para permitir a candidatura de quem já ocupa o cargo, especialmente quando os novos representantes, escolhidos pelo eleitor, não terão oportunidade de participar da decisão. É, no mínimo, uma descortesia política.
O MDB, partido de Wellington, terminou as eleições proporcionais com três deputados reeleitos, depois de uma legislatura em que chegou a reunir cinco integrantes. Wellington, Jaqueline Silva e Hermeto conservaram suas cadeiras, mas a legenda terá de reorganizar sua atuação numa Câmara em que outras forças partidárias conquistaram espaço.
O PL terá a maior bancada, com cinco deputados, enquanto a Federação União Progressista contará com quatro. Republicanos, MDB e Federação Brasil da Esperança terão três representantes cada. Essa distribuição não define quem será presidente, mas altera o ambiente das negociações, porque qualquer candidato precisará reunir apoios que ultrapassem os limites de seu partido.
Nesse cenário aparece Eduardo Pedrosa, do União Brasil, reeleito com 50.833 votos, a segunda maior votação para deputado distrital no DF, atrás apenas de Max Maciel, do PSOL. Pedrosa já demonstra interesse na presidência e chega à disputa com uma votação expressiva, embora saiba que os mais de 50 mil votos recebidos nas urnas não garantem os apoios necessários entre os colegas.
Rôney Nemer, do PP, também tem interesse na presidência da Câmara Legislativa e, embora só assuma o mandato em janeiro, já tem um problema político para resolver. Vai assistir de braços cruzados à tentativa de Wellington Luiz de mudar a Lei Orgânica, ainda nesta legislatura, para continuar no comando da Casa? Ou vai começar desde já a conversar com os deputados que podem barrar a emenda? Nemer não tem voto até dezembro, mas conhece bem os corredores da Câmara. E Wellington sabe que, nessa disputa, até os amigos podem trabalhar contra seus planos.
A presença de Nemer acrescenta uma particularidade à disputa porque ele pertence ao partido de Celina Leão e integra o grupo político que trabalha pela vitória da governadora no segundo turno. Isso não significa rompimento entre aliados, mas mostra que a unidade construída para disputar o Buriti não elimina as diferenças de interesse quando o assunto é o comando da Câmara Legislativa.
A disputa pode começar antes mesmo da eleição da Mesa, com os deputados decidindo se alteram ou não as regras que definirão quem poderá concorrer. E a negociação não se limita à presidência, porque vice-presidência, secretarias e espaços de influência na organização legislativa também entram nas conversas. As composições podem reunir parlamentares que estiveram em lados diferentes durante a campanha, já que a dinâmica interna da Câmara nem sempre acompanha as alianças eleitorais.
O resultado do segundo turno terá influência sobre essas articulações, porque qualquer governo precisará construir uma relação com o Legislativo para discutir orçamento, aprovar projetos e enfrentar questões importantes, entre elas a situação do BRB e o financiamento dos serviços públicos. Mas os deputados já demonstram que pretendem conduzir suas negociações independentemente do calendário eleitoral do Buriti.
Não há nada de extraordinário em começar essas conversas agora. A política exige articulação, e a escolha da Mesa Diretora é importante para o funcionamento da Câmara. A questão é outra: existe uma diferença considerável entre negociar candidaturas e tentar modificar as condições da disputa antes que os novos deputados assumam seus mandatos.
Wellington tem o direito de defender sua permanência, Pedrosa pode apresentar sua candidatura e Nemer também poderá disputar a presidência quando assumir. Outros parlamentares poderão entrar no jogo, formar alianças ou negociar composições. O que merece questionamento é a conveniência de aprovar, no fim da legislatura, uma mudança que afeta diretamente a organização da Câmara que começará a funcionar em janeiro.
Se a alteração da Lei Orgânica é considerada necessária para o bom funcionamento da instituição, não há razão evidente para impedir que os sete parlamentares eleitos que hoje estão fora da Casa participem dessa discussão. Eles receberam votos para representar a população e terão as mesmas responsabilidades dos colegas reeleitos quando assumirem seus mandatos.
O eleitor renovou quase um terço da Câmara Legislativa e espera que seus representantes participem das decisões que organizarão a próxima legislatura. A atual composição possui autoridade legal para continuar trabalhando até dezembro, mas isso não elimina a necessidade de respeitar politicamente o resultado das urnas.
Enquanto o Distrito Federal ainda decide quem ocupará o Buriti, os distritais já discutem quem comandará a Câmara Legislativa. É uma disputa legítima, mas a pressa em alterar a Lei Orgânica antes da posse dos novos parlamentares merece uma explicação objetiva: por que uma mudança destinada a valer na próxima legislatura precisa ser aprovada pela atual?
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