A opinião pessoal do analista de política nacional João Zisman: Agora é com o eleitor

O horário eleitoral termina nesta quinta, as pesquisas se multiplicam até sábado e a campanha entra naquele momento em que falar mais já não significa necessariamente convencer mais

A opinião pessoal do analista de política nacional João Zisman: Agora é com o eleitor
A opinião pessoal do analista de política nacional João Zisman: Agora é com o eleitor

Por João Zisman - 01/10/2026 10:38:08 | Foto: Senado Verifica - Agência Senado

Durante semanas, os candidatos falaram, apareceram, repetiram nomes e números, gravaram programas, ocuparam rádio e televisão, brigaram por segundos, produziram vídeos para as redes e participaram, ou decidiram não participar, dos debates. Nesta quinta-feira, uma parte importante dessa engrenagem começa a ser desligada com o fim do horário eleitoral gratuito e, faltando três dias para a votação, a campanha entra numa fase diferente, menos organizada pelo que os candidatos ainda pretendem dizer e muito mais dependente daquilo que o eleitor conseguiu guardar no meio de tanta informação.

Há uma curiosidade nessa passagem. Ao mesmo tempo em que diminui o espaço formal para falar com o eleitor, aumenta a quantidade de gente querendo saber o que ele pensa. Tem Datafolha previsto para hoje, outros levantamentos registrados para amanhã e nova pesquisa no sábado. Vamos medir o eleitor praticamente até a porta da seção eleitoral e, como acontece sempre nessa altura, cada número será examinado em busca de movimentos, tendências e sinais que podem estar ali ou ser apenas diferenças de método, amostra e margem de erro. Pesquisa ajuda bastante a compreender uma eleição, desde que não se peça a ela o favor impossível de substituir a eleição.

No Distrito Federal, essa reta final encontra candidaturas diante de problemas bastante diferentes. Celina Leão precisa conservar o eleitorado que reuniu, Leandro Grass tenta ampliar o espaço conquistado, enquanto Paula Belmonte, Ricardo Cappelli e Kiko Caputo procuram evitar que a concentração da disputa aperte ainda mais o terreno disponível para as demais candidaturas. Não é necessário transformar isso em previsão para perceber que, quando faltam três dias, campanha também passa a ser administração do que já se tem, do que ainda pode escapar e daquele pedaço do eleitorado que continua olhando tudo sem demonstrar grande pressa em se entregar a ninguém.

E talvez esse eleitor seja mais humano do que as campanhas gostariam. Há quem tenha decidido há meses e agora procure apenas confirmar que fez uma boa escolha, mas há também quem saiba o nome do candidato a governador e ainda esteja tentando lembrar em quem votar para deputado. Desta vez são dois votos para o Senado, há deputado federal, distrital, presidente e governador, números diferentes para guardar e uma quantidade de candidatos que não facilita a vida de ninguém. No meio disso entram afinidade, rejeição, voto útil, conversa de família, indicação de amigo, um vídeo que apareceu no celular, uma entrevista que agradou ou irritou e até aquela escolha feita quase no caminho da seção eleitoral. A ciência política organiza tudo isso em categorias muito interessantes, mas o eleitor tem a saudável indisciplina de não precisar caber perfeitamente em nenhuma delas.

Talvez por isso esses últimos dias sejam tão interessantes. Para quem acompanha política diariamente, a eleição parece ocupar tudo, mas basta sair um pouco desse circuito para perceber que ela acontece no meio da vida e não no lugar dela. Nesta quinta-feira, enquanto candidatos procuram votos, empresas do Distrito Federal precisam se adaptar ao novo padrão nacional da nota fiscal de serviços, a Polícia Civil avança no concurso para delegados, a Justiça organiza a votação nos sistemas prisional e socioeducativo, outubro chega ameaçando chuva depois de semanas de secura e, à noite, tem gente que simplesmente vai ao SESI Lab ouvir música e encontrar amigos.

Esse desalinho entre o calendário da política e o calendário da vida talvez explique mais sobre comportamento eleitoral do que algumas certezas produzidas nesta época. Para as campanhas, faltam três dias e cada hora parece decisiva. Para boa parte dos eleitores, hoje ainda é quinta-feira, amanhã tem trabalho, há conta vencendo, criança para buscar, trânsito, supermercado, conversa no WhatsApp e uma eleição esperando no domingo. É dentro dessa vida bastante comum, e não num laboratório político, que as últimas escolhas vão sendo feitas.

O horário eleitoral termina hoje, mas as campanhas continuarão nas ruas e nas redes, assim como as pesquisas ainda vão produzir números até sábado. Só que, a essa altura, já existe uma diferença importante entre continuar falando e continuar sendo ouvido. Os candidatos passaram semanas tentando encontrar um lugar na cabeça do eleitor. Agora resta saber o espaço que conseguiram ocupar.

E isso, finalmente, já não depende apenas deles.

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