Vou lhe contar uma história do Rio Grande do Norte
Por João Zisman - 12/07/2026 10:33:10 | Foto: João Zisman
No começo dos anos 1980, o ministro da Indústria e Comércio, Camillo Penna, desembarcou em Mossoró para cumprir agenda oficial. De lá seguiria de helicóptero para uma plataforma da Petrobrás em Galinhos, numa daquelas visitas em que o protocolo precisava funcionar como um relógio suíço.
Dias antes, surgiu uma preocupação curiosa.
Um assessor avisou ao governo do estado que o ministro tinha deficiência auditiva em um dos ouvidos. Era importante saber de que lado as autoridades deveriam conversar com ele.
A resposta veio imediatamente.
O governador Lavoisier Maia tinha exatamente o mesmo problema.
Restava apenas combinar os lados.
Os assessores fizeram as contas, orientaram o cerimonial e concluíram que estava tudo resolvido. Bastava cada um falar no ouvido bom do outro.
Parecia um plano perfeito.
Até o avião pousar.
Na pista havia banda de música, turbinas ligadas, hélices do helicóptero girando e um barulho capaz de atrapalhar até quem ouvia perfeitamente.
Foi nesse cenário que ministro e governador se encontraram.
Camillo Penna aproximou-se do ouvido bom de Lavoisier para explicar o atraso da viagem.
O governador, sem entender uma única palavra, imaginou que o ministro perguntava sobre a região. Então respondeu com toda boa vontade... falando justamente no ouvido surdo do ministro.
Apontava para um lado, depois para o outro:
"Ali fica a fazenda de melão de Tarcísio. E daquele lado é Mossoró."
O ministro não ouviu nada.
Tentou explicar novamente.
O governador respondeu outra vez.
Sempre no ouvido errado.
Durante alguns minutos, os dois conversaram animadamente sem que nenhum deles escutasse absolutamente nada do que o outro dizia.
Ao redor, assessores, jornalistas e autoridades assistiam à cena sem coragem de interromper o diálogo entre um ministro de Estado e um governador.
A conversa só terminou quando ambos embarcaram no helicóptero e alguém, finalmente, percebeu que o problema não era o protocolo.
Era o ouvido.
A política brasileira continua produzindo cenas parecidas.
Mudam os governos, mudam os partidos e mudam as autoridades.
Mas continua sendo comum ver gente falando com absoluta convicção... exatamente no ouvido errado.
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História registrada por Valério Mesquita na coluna "Folclore Político", publicada no jornal Tribuna do Norte (Natal-RN), em 20 de maio de 2025.
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