A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O prejuízo não fica onde nasceu

Os casos Master e Digimais mostram que, quando uma instituição financeira rompe seus próprios limites, os efeitos ultrapassam seus balanços e acabam distribuídos por toda a economia

A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O prejuízo não fica onde nasceu
A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O prejuízo não fica onde nasceu

Por João Zisman - 28/06/2026 11:41:57 | Foto: Divulgação João Zisman

Os desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Digimais acrescentaram um novo capítulo a uma sequência de episódios que o sistema financeiro brasileiro certamente preferiria tratar como casos isolados. Primeiro veio o Banco Master, depois surgiram os reflexos sobre instituições e operações a ele vinculadas, agora aparece o Digimais e, a cada nova investigação, a sensação é de que as autoridades estão puxando um fio cujo alcance ainda não é plenamente conhecido.

É natural que o debate inicial se concentre nas suspeitas de fraudes contábeis, na superavaliação de ativos, nas responsabilidades dos administradores e nas medidas adotadas pelo Banco Central. Tudo isso é indispensável e deve seguir o curso das investigações. O problema é que, se a análise permanecer restrita aos fatos de cada processo, talvez deixemos de perceber aquilo que realmente merece atenção: a sucessão desses episódios passou a revelar características do próprio sistema e não apenas das instituições investigadas.

Uma das primeiras conclusões é que bancos dessa natureza não possuem a capilaridade de um Itaú, Bradesco ou Banco do Brasil. São instituições que atuam em nichos específicos, captando recursos junto a investidores atraídos por remunerações superiores às praticadas pelos grandes bancos e estruturando operações muito mais sofisticadas do que aquelas conhecidas pelo correntista comum. Enquanto tudo funciona, permanecem praticamente invisíveis para a maior parte da sociedade. O problema surge quando deixam de funcionar. Nesse momento, o prejuízo deixa de ser privado e passa a irradiar efeitos para todo o sistema financeiro.

É justamente aí que reside a principal reflexão. O banco pode ser pequeno, mas os mecanismos que o conectam ao restante do mercado dificilmente são. O caso Master demonstrou que uma instituição financeira não opera isoladamente. Ela mantém relações com fundos de investimento, carteiras de crédito, corretoras, distribuidoras e diversas outras estruturas que compartilham ativos, operações e riscos. Quando uma dessas engrenagens entra em colapso, a investigação naturalmente percorre essas conexões, revelando um efeito em cascata que ultrapassa em muito os limites da instituição originalmente atingida.

Essa característica explica por que episódios como esses interessam também a quem jamais manteve uma conta ou uma aplicação em qualquer desses bancos. O Fundo Garantidor de Créditos precisa honrar compromissos com investidores protegidos por lei. Os bancos passam a contribuir mais para recompor esse patrimônio coletivo. As exigências regulatórias tendem a aumentar. O crédito torna-se mais seletivo. Os custos de captação se elevam. Em pouco tempo, o sistema inteiro incorpora despesas que nasceram em uma única instituição e, como acontece em qualquer atividade econômica, esses custos acabam distribuídos pela sociedade por meio de juros mais elevados, menor oferta de crédito e redução da concorrência.

Essa constatação leva inevitavelmente a uma segunda reflexão. O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, um sistema de supervisão financeira reconhecido internacionalmente por sua solidez técnica. O Banco Central consolidou prestígio exatamente porque conseguiu atravessar diferentes crises preservando a estabilidade do sistema bancário nacional. Justamente por isso, causa perplexidade que operações capazes de produzir distorções patrimoniais relevantes permaneçam ativas durante tanto tempo antes de serem interrompidas. Essa observação não constitui acusação contra quem quer que seja, mas impõe perguntas que uma democracia madura não pode deixar de formular. Os mecanismos atuais de supervisão continuam suficientes para acompanhar estruturas financeiras cada vez mais complexas? Existem lacunas regulatórias que precisam ser corrigidas? A velocidade da fiscalização permanece compatível com a velocidade da inovação financeira? E, por mais remota que pareça essa hipótese, a sociedade também tem o direito de perguntar se ambientes que deveriam ser absolutamente blindados permanecem efetivamente protegidos contra qualquer tipo de influência indevida. Questionar não significa condenar. Significa compreender que a credibilidade das instituições também depende da disposição para enfrentar perguntas difíceis.

Talvez o maior erro seja imaginar que essas investigações terminam quando um banco é liquidado ou seus administradores respondem perante a Justiça. Os prejuízos financeiros podem ser quantificados. Os processos judiciais um dia chegam ao fim. O efeito econômico, entretanto, continua produzindo consequências muito depois de encerradas as manchetes. O sistema torna-se mais caro, mais cauteloso e menos disposto a assumir riscos. Quem paga essa conta raramente é apenas quem escolheu investir naquela instituição. Ela acaba diluída entre empresas, consumidores e milhões de brasileiros que talvez jamais tenham ouvido falar do banco que deu origem ao problema.

É por isso que o Digimais talvez não seja a principal notícia desta semana. A verdadeira notícia é que o Brasil voltou a descobrir que, no sistema financeiro, os prejuízos podem nascer dentro de um banco, mas quase nunca morrem dentro dele. E se a repetição desse roteiro passou a deixar de ser exceção para se transformar em recorrência, talvez tenha chegado o momento de discutir não apenas o comportamento das instituições que falharam, mas também se os mecanismos criados para impedir que elas chegassem a esse ponto continuam respondendo, com a mesma eficiência de antes, aos desafios de um mercado cada vez mais sofisticado e interligado.

Comentários para "A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O prejuízo não fica onde nasceu":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório