A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Entre a Política e a Cidade

O noticiário desta quinta-feira mostrou que, enquanto a sucessão de 2026 continua ocupando os bastidores, a administração pública segue respondendo diariamente por uma cidade que não pode esperar o calendário eleitoral

A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Entre a Política e a Cidade
A opinião pessoal do colunista de politica João Zisman: Entre a Política e a Cidade

Por João Zisman - 25/06/2026 10:32:38 | Foto: Céu de Brasília: desde o nascer do dia ao cair da tarde, espetáculo visual é uma das marcas da cidade | Anderson Parreira/Agência Brasília

Durante boa parte das últimas semanas, a impressão transmitida pelo noticiário era a de que Brasília respirava exclusivamente eleições, alianças partidárias, pesquisas, especulações e bastidores. A sucessão ao Palácio do Buriti passou a ocupar tamanho espaço que qualquer outro assunto parecia destinado a um plano secundário. Não porque a administração pública tivesse reduzido seu ritmo, mas porque o ambiente político produzia um volume de acontecimentos capaz de monopolizar a atenção dos veículos de comunicação.

A leitura das notícias publicadas nesta quinta-feira oferece uma mudança de perspectiva que merece atenção. A movimentação do MDB em torno da sucessão permanece relevante e continua indicando que o tabuleiro eleitoral está longe de uma definição. Ainda assim, ela deixou de organizar sozinha o noticiário. Em seu lugar surgiram temas que, isoladamente, talvez não produzissem grandes manchetes, mas que, reunidos, revelam aquilo que realmente ocupa a rotina de qualquer governo.

As agências do trabalhador abriram quase mil vagas de emprego. A Secretaria de Saúde realizou etapas regionais da Conferência Distrital de Saúde para discutir prioridades do SUS. O Governo do Distrito Federal apresentou novas obras e investimentos distribuídos pelas regiões administrativas. A Neoenergia executou manutenções preventivas na rede elétrica. O Detran voltou a alertar motoristas sobre golpes praticados por meio de páginas falsas. A Polícia Militar recuperou veículos roubados. O Ministério Público discutiu políticas voltadas à localização de pessoas desaparecidas.

À primeira vista, trata-se de uma sequência de notícias sem conexão. Observadas em conjunto, porém, elas revelam uma característica que frequentemente passa despercebida quando a temperatura política aumenta. A administração pública não acompanha o ritmo das disputas eleitorais. Ela continua produzindo decisões, executando obras, prestando serviços e respondendo às demandas da população independentemente da intensidade do debate político.

Existe uma tendência natural de associar governo apenas às grandes decisões, aos conflitos partidários e aos movimentos eleitorais. Entretanto, a experiência cotidiana do cidadão costuma ser moldada por outro conjunto de ações, muito menos espetaculares, mas infinitamente mais frequentes. É a manutenção que impede a interrupção de um serviço essencial, a obra que melhora o acesso a um bairro, a vaga de emprego colocada à disposição de quem procura trabalho, a operação policial que recupera um veículo ou a discussão que ajuda a definir prioridades para a saúde pública.

Esse tipo de atividade raramente monopoliza manchetes. O jornalismo, por natureza, volta sua atenção para aquilo que rompe a normalidade. A administração pública, ao contrário, tem como principal missão impedir que a normalidade seja interrompida. Quando consegue cumprir esse papel, sua atuação quase desaparece do noticiário. Quando falha, transforma-se imediatamente em notícia.

É justamente essa inversão que torna a leitura desta quinta-feira particularmente interessante. A redução do ruído político permitiu enxergar uma realidade que nunca havia deixado de existir. Enquanto Brasília discutia chapas, alianças e estratégias eleitorais, a cidade continuava exigindo manutenção, segurança, saúde, mobilidade, emprego e obras públicas. Nenhuma dessas demandas entrou em compasso de espera porque o calendário eleitoral começou a ganhar velocidade.

Essa talvez seja a principal conclusão oferecida pelo conjunto das notícias desta manhã. A política continuará ocupando espaço crescente até as convenções partidárias e, depois delas, durante toda a campanha. Faz parte da democracia e do processo eleitoral. Mas existe uma cidade funcionando paralelamente a esse debate, e ela continuará exigindo respostas muito depois que as urnas forem fechadas. É exatamente nesse ponto de encontro entre a política e a cidade que se mede, todos os dias, a qualidade de um governo.

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