A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O Brasil das gavetas desarrumadas

Seria fácil concluir que a semana apenas produziu mais notícias do que o habitual

A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O Brasil das gavetas desarrumadas
A opinião pessoal do colunista politico João Zisman: O Brasil das gavetas desarrumadas

Por João Zisman - 06/07/2026 09:22:04 | Foto: Divulgação João Zisman

Confesso que passei boa parte da semana tentando entender o que havia de comum entre fatos que, à primeira vista, pareciam não guardar qualquer relação entre si. Tudo começou com o tarifaço americano e terminou, ontem, com a eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega. No meio do caminho, a família Bolsonaro lavou sua roupa suja em público, Washington entrou na sucessão presidencial brasileira, a inteligência artificial passou a ser tratada como questão de soberania, o crime organizado ganhou dimensão diplomática e o calendário eleitoral começou a impor novos limites à atuação de governos, tribunais e candidatos.

Seria fácil concluir que a semana apenas produziu mais notícias do que o habitual. O difícil é perceber que todas elas apontam para a mesma mudança silenciosa. Não é a política que está mudando, nem a economia ou a tecnologia. O que mudou foi a maneira como todas elas passaram a se relacionar.

O mundo não ficou mais complicado. Apenas deixou de ser separável, e talvez seja justamente aí que esteja a origem de boa parte da nossa dificuldade em compreendê-lo.

Durante muito tempo, foi confortável imaginar que cada assunto tinha a sua própria gaveta. A economia seguia um caminho, a política outro, a diplomacia parecia conversar apenas com a diplomacia, a tecnologia era assunto de especialistas e a família permanecia protegida das disputas públicas. Nunca foi exatamente assim, mas era assim que interpretávamos o mundo. E talvez o maior erro não tenha sido acreditar nessa organização. Tenha sido imaginar que ela continuaria funcionando para sempre.

A semana que passou mostrou que essa forma de olhar a realidade envelheceu. O tarifaço americano deveria ter provocado um debate sobre exportações, competitividade e balança comercial. Em poucas horas, porém, já não se discutiam apenas tarifas, mas patriotismo, soberania, identidade nacional e estratégia eleitoral, como se a economia tivesse atravessado a fronteira da política sem pedir licença. Ao mesmo tempo, a roupa suja da família Bolsonaro deixou de dizer respeito apenas à vida doméstica e passou a interferir na sucessão presidencial, na disputa pelo Senado e na reorganização da oposição, enquanto a inteligência artificial abandonava definitivamente a condição de inovação tecnológica para se transformar em instrumento de poder, disputa geopolítica, segurança nacional e influência econômica.

Nada disso é extraordinário isoladamente. O extraordinário está no fato de que tudo passou a conversar com tudo. A política já não cabe sem a economia, a economia deixou de existir sem a diplomacia, a tecnologia interfere diretamente na soberania, o crime organizado alcança o sistema financeiro e a vida privada produz consequências públicas de enorme alcance. Continuamos procurando a gaveta da economia, da política ou da tecnologia quando a realidade resolveu misturar tudo dentro da mesma casa.

Ontem, a eliminação da Seleção diante da Noruega acabou oferecendo uma última imagem para essa reflexão. Não porque um jogo de futebol seja capaz de explicar um país inteiro, mas porque o futebol sempre ocupou um lugar especial na vida brasileira. Era um dos poucos espaços onde diferenças políticas, sociais, econômicas e regionais aceitavam fazer uma pausa, ainda que por noventa minutos. A derrota faz parte do esporte e continuará fazendo, mas ficou a sensação de que até esse último território de convergência já não consegue nos reunir como antes. Talvez tenha doído menos o placar e mais a impressão de que faltou exatamente aquilo que o brasileiro sempre cultivou nas horas difíceis: a convicção de que o jogo só termina quando termina.

Fiquei com a impressão de que o verdadeiro fato da semana não foi o tarifaço, nem a crise da família Bolsonaro, muito menos a eliminação da Seleção. O verdadeiro fato foi perceber que continuamos tentando entender um mundo novo com as mesmas gavetas que usamos para organizar o século passado.

Talvez seja essa a principal tarefa da política daqui para frente. Menos do que prometer soluções para velhos problemas, ela precisará aprender a governar um país onde os problemas já não chegam separados. E quem continuar procurando a gaveta da economia, da política ou da tecnologia provavelmente passará boa parte do tempo sem perceber que, lá fora, o mundo já misturou tudo.

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