A opinião pessoal do colunista João Zisman: Quando o extraordinário vira rotina

O Distrito Federal produziu, nesta sexta-feira, uma coleção curiosa de notícias

A opinião pessoal do colunista João Zisman: Quando o extraordinário vira rotina
A opinião pessoal do colunista João Zisman: Quando o extraordinário vira rotina

Por João Zisman - 12/06/2026 10:11:56 | Foto: Brasília desponta como um dos destinos turísticos em alta neste ano, sendo considerada ideal para nômades digitais | Anderson Parreira/Agência Brasília

O Lago Paranoá amanheceu coberto por um "tapete verde". O Inmet emitiu alerta para tempestades em pleno mês de junho. O Detran informou que os flagrantes de rachas cresceram quase 30% neste ano. Servidores públicos ganharão liberação antecipada para assistir aos jogos da Seleção Brasileira. Produtores rurais aguardam, depois de anos de incerteza, a regularização definitiva de suas terras. E, nos bastidores da política, o caso Master continua produzindo mais perguntas do que respostas.

Separadamente, parecem apenas fatos do dia. Juntos, porém, revelam algo mais interessante sobre Brasília.

A capital desenvolveu uma impressionante capacidade de absorver o inesperado sem alterar o próprio ritmo.

A chuva fora de época vira boletim meteorológico. O lago tomado por plantas aquáticas é tratado como manejo rotineiro. Corridas clandestinas deixam de ser motivo de espanto para se transformar em estatística administrativa. Escândalos políticos seguem produzindo capítulos sucessivos sem que ninguém consiga prever um desfecho. A indefinição eleitoral é incorporada aos cálculos de todos os atores, como parte natural do jogo.

Nada parece suficientemente extraordinário para interromper o funcionamento da cidade.

E talvez aí resida uma das principais características de Brasília.

Acostumada a viver sob pressão permanente, a capital aprendeu a administrar pendências. Convive com soluções provisórias que se prolongam, crises que se arrastam e impasses que raramente encontram ponto final. Tudo continua funcionando. As agendas seguem. As inaugurações acontecem. As disputas políticas avançam. A máquina pública opera.

Ao mesmo tempo, permanece uma sensação difusa de que quase tudo está em aberto.

O caso Master ilustra bem esse fenômeno. A nova tentativa de colaboração de Daniel Vorcaro foi rejeitada mais uma vez pelas autoridades. O assunto segue ocupando espaço no noticiário, influenciando articulações políticas e alimentando especulações, mas sem entregar à sociedade a clareza que normalmente se espera de episódios dessa magnitude. É uma crise que persiste sem conclusão.

O mesmo pode ser dito da política local. O MDB tenta consolidar o acordo que levaria Ibaneis Rocha ao Senado na chapa de Celina Leão, enquanto a governadora evita antecipar definições. Todos se movimentam. Ninguém fecha completamente as portas. A disputa avança sob a lógica do "vamos ver".

Talvez seja injusto dizer que Brasília se acostumou com o improviso. A cidade continua funcionando, muitas vezes graças à capacidade técnica de servidores, gestores e instituições que mantêm a engrenagem em movimento mesmo em cenários adversos.

Mas existe uma diferença importante entre aprender a conviver com os problemas e perder a capacidade de se indignar com eles.

A normalização do extraordinário pode ser uma demonstração de resiliência. Também pode ser um sinal de acomodação.

E essa é uma fronteira delicada.

No fim das contas, talvez o traço mais marcante do Distrito Federal não seja sua vocação para o poder ou para a burocracia. Talvez seja essa habilidade singular de seguir adiante enquanto tudo parece provisório.

O risco é que, de tanto transformar exceções em rotina, a gente deixe de perceber que algumas coisas não deveriam parecer normais. Afinal, administrar pendências é uma virtude. Desistir de resolvê-las, não.

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