Do livro, De notícias e não notícias faz-se a crônica: Tempo de Drummond, eterno como Vinícius

O livro, De notícias e não notícias faz-se a crônica, reúne textos originalmente publicados no Jornal do Brasil entre o final dos anos 60 e a primeira metade da década de 70

Do livro, De notícias e não notícias faz-se a crônica: Tempo de Drummond, eterno como Vinícius
Do livro, De notícias e não notícias faz-se a crônica: Tempo de Drummond, eterno como Vinícius

Por João Zisman - Portal De Notícias Notibras - 31/05/2026 10:20:52 | Foto: João Zisman - Texto e Imagem

Comprei recentemente, num sebo de Curitiba, um livro de crônicas de Carlos Drummond de Andrade. Desses encontros casuais que parecem pequenos no instante em que acontecem, mas acabam permanecendo na memória por muito mais tempo do que imaginávamos.

O livro, De notícias e não notícias faz-se a crônica, reúne textos originalmente publicados no Jornal do Brasil entre o final dos anos 60 e a primeira metade da década de 70. E talvez seja impossível falar dessas crônicas sem lembrar o papel civilizatório que os jornais exerceram durante décadas no Brasil.

Havia um tempo em que os jornais não eram apenas veículos de notícia. Eram espaços de formação, reflexão e instrução sentimental do brasileiro. O Jornal do Brasil , especialmente, ajudou gerações inteiras a aprender não apenas sobre política, economia ou cultura, mas sobre linguagem, sensibilidade e interpretação do mundo.

E foi justamente naquele ambiente de alta densidade intelectual que Drummond produziu algumas de suas crônicas mais humanas.

Ao reler “O pai, hoje e amanhã”, chama atenção não apenas a beleza do texto, mas sua impressionante atualidade. Mais de meio século depois, Drummond continua descrevendo o Brasil emocional de hoje com precisão desconcertante.

Nos dois parágrafos centrais da crônica, ele percebe algo que atravessaria gerações: a dificuldade permanente de convivência entre pais e filhos diante das mudanças aceleradas do mundo.

Drummond escreve que “não adianta ao pai desconhecer um comportamento individual que espelha o movimento de massas juvenis compactas e crescentes no mundo inteiro”. E ali, numa frase aparentemente simples, eterniza um conflito que jamais deixou de existir.

O pai de ontem estranhava cabelos longos, contestação e ruptura de costumes. O pai de hoje tenta compreender um universo dominado por telas, ansiedade digital, hiperexposição e relações instantâneas. Mudaram os objetos da inquietação. Permaneceu intacta a sensação de desencontro entre gerações.

Mas talvez exista em Drummond uma grandeza silenciosa que o tempo ajudou a revelar ainda mais.

Ele se impõe o esforço de compreender os filhos, seus hábitos e o novo tempo que chega. Mas parece assimilar com serenidade até mesmo a incompreensão dos filhos diante dele próprio.

E isso é de uma sofisticação psicológica impressionante.

O jovem frequentemente acredita inaugurar um novo tempo, como se o mundo começasse um pouco nele mesmo. Há beleza e arrogância nisso. Talvez sejam inseparáveis.

O curioso é observar como avançamos tanto em determinadas sensibilidades sociais e permanecemos quase primitivos em outras.

Vivemos uma época que exige vigilância rigorosa sobre o politicamente correto, mas trata o etarismo com uma displicência quase naturalizada. Como se envelhecer fosse o único preconceito ainda socialmente autorizado.

O velho vira meme. Vira impaciência. Vira interrupção. Vira aquele ser tolerado entre o café e a sobremesa.

Freud provavelmente enxergaria nisso menos crueldade do que medo. O desconforto diante da velhice talvez nasça justamente da dificuldade humana de lidar com a própria passagem do tempo.

E talvez resida aí a eternidade de Drummond.

Ele não escrevia apenas sobre seu tempo. Escrevia sobre aquilo que nunca deixa completamente de existir dentro das famílias, das relações humanas e da alma brasileira.

Crônica “O pai, hoje e amanhã”, publicada originalmente no Jornal do Brasil e reunida na obra De notícias e não notícias faz-se a crônica: histórias, diálogos, divagações, de Carlos Drummond de Andrade. 10ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record.

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