Os acontecimentos das últimas semanas envolvendo a relação entre Brasil e Estados Unidos oferecem um exemplo eloquente desse fenômeno
Por João Zisman - 04/06/2026 11:43:21 | Foto: Divulgação João Zisman
A política brasileira tem uma característica que se repete com frequência preocupante. Antes mesmo que os efeitos de uma crise sejam plenamente compreendidos, ela costuma ser absorvida pela disputa política doméstica e transformada em instrumento de mobilização de grupos, fortalecimento de narrativas e consolidação de projetos eleitorais. O debate deixa de girar em torno da solução do problema e passa a concentrar-se na busca de vantagens políticas decorrentes dele.
Os acontecimentos das últimas semanas envolvendo a relação entre Brasil e Estados Unidos oferecem um exemplo eloquente desse fenômeno. A viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington, os encontros mantidos com Donald Trump e integrantes de seu círculo político mais próximo, a atuação de Eduardo Bolsonaro a partir do exterior, as manifestações do secretário de Estado Marco Rubio e a crescente tensão diplomática entre os dois países acabaram incorporados à dinâmica da polarização brasileira numa velocidade impressionante.
Naturalmente, cada campo político procurou interpretar os fatos de acordo com seus próprios interesses. O presidente Lula encontrou espaço para reforçar o discurso da defesa da soberania nacional e denunciar aquilo que considera tentativas de interferência externa em assuntos internos do país. Trata-se de uma estratégia politicamente compreensível, sobretudo num ambiente em que parcelas significativas da população reagem negativamente à percepção de pressões exercidas por governos estrangeiros.
Por outro lado, também seria simplista reduzir a aproximação da família Bolsonaro com lideranças republicanas americanas a uma mera questão de afinidade ideológica ou de articulação eleitoral. Relações políticas internacionais existem, sempre existiram e continuarão existindo. O ponto que merece reflexão não é a existência dessas relações, mas a circunstância em que elas ocorrem e a mensagem que transmitem quando coincidem com movimentos de autoridades estrangeiras capazes de produzir impactos concretos sobre interesses brasileiros.
É justamente nesse aspecto que a discussão ganha relevância. Os Estados Unidos não formulam sua política externa para favorecer governos ou opositores brasileiros. Donald Trump não orienta suas decisões em função das necessidades da direita nacional, assim como Marco Rubio não constrói suas posições pensando nos efeitos que elas produzirão sobre o governo Lula. Como toda potência, os Estados Unidos agem de acordo com sua própria percepção de interesse nacional, princípio que o próprio Trump sintetizou de forma bastante objetiva ao transformar o slogan America First no eixo central de sua trajetória política.
Não há qualquer razão para surpresa diante disso. O papel de um governante é, antes de tudo, defender os interesses de seu país. O problema surge quando brasileiros parecem esquecer que esse mesmo princípio deveria orientar suas próprias condutas.
As discussões envolvendo eventuais tarifas comerciais, restrições econômicas ou outras medidas que possam ser adotadas contra o Brasil não representam uma ameaça abstrata destinada a atingir este ou aquele grupo político. Caso se materializem, seus efeitos recairão sobre exportadores, produtores rurais, empresas, trabalhadores e consumidores. Em outras palavras, os prejuízos não serão de Lula nem de Bolsonaro. Serão do Brasil.
É exatamente por essa razão que causa desconforto observar a velocidade com que a crise foi incorporada à disputa eleitoral. Enquanto o governo explora politicamente o discurso da soberania e a oposição procura extrair dividendos das dificuldades enfrentadas pelo Planalto, o interesse nacional corre o risco de ocupar um papel secundário numa discussão que deveria tê-lo como elemento central.
Essa constatação não pretende estabelecer equivalências artificiais nem distribuir culpas em partes iguais. O que se procura destacar é algo mais simples e talvez mais importante: nenhum agente político brasileiro, independentemente de sua posição ideológica, deveria agir de forma incompatível com os interesses permanentes do país. A disputa política é legítima. A busca pelo poder faz parte da democracia. O que não parece razoável é permitir que diferenças domésticas criem incentivos para a relativização de princípios que deveriam ser compartilhados por todos.
Trump faz exatamente aquilo que prometeu fazer aos eleitores americanos. Defende os interesses dos Estados Unidos conforme sua visão de mundo. Não é um tutor da política brasileira, tampouco um protetor dos descontentes de qualquer corrente ideológica nacional. As grandes potências apoiam governos, partidos e lideranças enquanto essas relações lhes são úteis. Quando deixam de ser, a realidade costuma se impor com uma frieza que a história registra em inúmeros exemplos.
Talvez a principal lição desse episódio esteja justamente aí. O Brasil precisa desenvolver uma compreensão mais madura de seu lugar no mundo e abandonar a ilusão de que interesses externos podem substituir a construção de consensos internos mínimos em torno da defesa do país. Soberania não é uma palavra destinada a ser utilizada apenas em discursos de ocasião, nem um conceito que possa ser relativizado conforme as conveniências de cada momento político.
Se os Estados Unidos possuem o America First, não há motivo para que o Brasil não seja capaz de cultivar, acima de governos, partidos e lideranças, uma convicção igualmente simples: a de que os interesses nacionais devem vir em primeiro lugar. Não como slogan eleitoral, mas como princípio orientador de uma política externa e de uma cultura política que ainda parecem excessivamente inclinadas a transformar crises em palanques quando deveriam transformá-las em soluções.
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