O mais curioso é que o fio que conecta todos esses acontecimentos não está necessariamente em Washington. Está aqui mesmo, entre nós
Por João Zisman - 05/06/2026 10:40:07 | Foto: Divulgação João Zisman
Poucas vezes assuntos tão diferentes ocuparam simultaneamente o centro do debate nacional. Em questão de dias, o Brasil passou a discutir PCC, Comando Vermelho, terrorismo, Donald Trump, Marco Rubio, tarifas comerciais, Pix, big techs, soberania nacional e sucessão presidencial. À primeira vista, parece apenas mais uma dessas semanas agitadas que alimentam o noticiário. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que existe algo mais profundo acontecendo.
O mais curioso é que o fio que conecta todos esses acontecimentos não está necessariamente em Washington. Está aqui mesmo, entre nós.
Desde a visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos e da intensa movimentação política de Eduardo Bolsonaro junto ao entorno de Donald Trump, a temperatura da relação entre Brasília e Washington mudou de forma perceptível. Vieram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, os novos questionamentos americanos sobre práticas comerciais brasileiras, as discussões envolvendo tarifas, o ambiente regulatório das plataformas digitais e, para surpresa de muitos, até o Pix foi arrastado para o meio da turbulência.
Seria irresponsável afirmar que uma coisa provocou a outra. Os fatos não autorizam uma conclusão tão simplista. Mas também seria ingenuidade fingir que a sequência dos acontecimentos não produziu uma atmosfera política peculiar. Afinal, não é todo dia que segurança pública, comércio exterior, tecnologia, diplomacia e eleição presidencial passam a dividir o mesmo palco.
O que chama atenção não é apenas o comportamento de Washington. Os Estados Unidos fazem o que sempre fizeram: defendem seus próprios interesses. O que merece reflexão é a reação de parte do debate político brasileiro, que parece enxergar nessas pressões externas uma espécie de atalho para resolver disputas internas.
Talvez estejamos diante de uma das cenas mais curiosas da política recente. Durante décadas, setores da direita criticaram a esquerda por buscar referências internacionais para interpretar o Brasil. Agora, observa-se parte desse mesmo campo político depositando em Washington expectativas que sequer deposita em Brasília, como se Donald Trump pudesse influenciar a política brasileira com mais eficiência do que os próprios atores que disputam espaço dentro do país.
Trata-se de uma aposta estranha e, a meu ver, profundamente equivocada. Tarifas comerciais não atingem presidentes, atingem países. Uma sobretaxa imposta sobre produtos brasileiros não desembarca no Palácio do Planalto para constranger Lula. Ela chega às empresas exportadoras, aos contratos internacionais, às cadeias produtivas, aos investimentos e aos empregos. O prejuízo não escolhe filiação partidária. Ele se espalha pela economia real.
A mesma lógica vale para o restante da crise. Quando a relação bilateral se deteriora, quando cresce a insegurança regulatória ou quando instrumentos estratégicos brasileiros passam a ser questionados, o impacto não recai sobre um governo específico. Recai sobre o Estado brasileiro e sobre sua capacidade de competir, negociar e crescer.
É justamente nesse ponto que o episódio do Pix assume relevância política muito maior do que parece.
O Pix talvez seja uma das poucas unanimidades produzidas pelo Estado brasileiro nos últimos anos. Não pertence a Lula, Bolsonaro, Temer ou qualquer outro governante. Foi concebido por técnicos do Banco Central, atravessou governos de orientações distintas e transformou a vida econômica de milhões de brasileiros. Tornou-se referência internacional de eficiência, inclusão financeira e inovação.
Por isso causou tanta perplexidade ver Eduardo Bolsonaro sugerir, em meio à escalada de tensões com os Estados Unidos, alternativas americanas como o Zelle para substituir ou rivalizar com um sistema criado e consolidado no Brasil. Não porque seja proibido discutir tecnologia ou concorrência. Sistemas competem, evoluem e são permanentemente comparados. O episódio produz estranheza pelo contexto em que surge. Enquanto governos estrangeiros questionam uma ferramenta criada pelo Estado brasileiro e reconhecida internacionalmente por sua eficiência, parte do debate nacional parece mais interessada em enaltecer soluções importadas do que em compreender o valor estratégico daquilo que foi desenvolvido dentro de casa. Talvez seja apenas mais um capítulo de uma tendência que se tornou visível nesta semana: a crescente disposição de alguns setores em procurar fora do país os instrumentos políticos que não conseguem construir dentro dele.
Porque uma coisa é dialogar com governos estrangeiros. Outra, bem diferente, é alimentar a expectativa de que pressões externas possam produzir internamente os resultados que não foram alcançados pelas vias tradicionais da democracia.
Democracias maduras convivem naturalmente com esse tipo de interlocução. Governos conversam com governos, lideranças oposicionistas mantêm canais internacionais e diplomatas constroem pontes permanentemente. O problema surge quando parte da classe política passa a enxergar pressões externas como instrumento legítimo para produzir internamente aquilo que não conseguiu conquistar pelas vias tradicionais da democracia.
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, os novos movimentos comerciais americanos, os questionamentos sobre plataformas digitais, as discussões envolvendo o Pix e a escalada verbal entre Brasília e Washington são temas sérios demais para serem tratados como capítulos de uma torcida organizada contra ou a favor de Lula.
Aliás, a tese segundo a qual Trump estaria simplesmente se vingando de Lula talvez seja uma das explicações mais frágeis em circulação. Os Estados Unidos não formulam sua política externa para favorecer ou prejudicar presidentes brasileiros. Formulam-na para defender interesses americanos. O problema é que alguns brasileiros parecem ter começado a enxergar esses interesses como se fossem também os seus.
E talvez esteja aí o aspecto mais inquietante de toda essa história.
Como acontece com todos os protagonistas da política, Lula, Bolsonaro, Trump e Marco Rubio acabarão deixando o centro do palco. O mesmo não ocorre com as consequências de decisões comerciais, financeiras, tecnológicas e diplomáticas, que costumam permanecer muito depois que os personagens desaparecem do noticiário.
Talvez a maior estranheza desta semana não esteja em Washington, nem nas declarações que vieram da Casa Branca ou do Departamento de Estado. Talvez ela esteja na crescente disposição de alguns brasileiros em acreditar que os interesses nacionais podem esperar, desde que o desgaste chegue primeiro ao adversário político.
Essa lógica não fortalece a direita nem a esquerda. Não enfraquece Lula nem fortalece Bolsonaro. Ela apenas corrói uma ideia que deveria ser comum a todos os campos políticos: a de que os interesses permanentes do Brasil valem mais do que as conveniências transitórias de qualquer eleição.
E essa é uma ideia perigosa demais para ser ignorada.
Leia outras colunas O Estado das Coisas aqui .
Comentários para "A opinião pessoal de João Zisman sobre política: A estranha ideia de importar adversários":