Tenho a impressão de que o Brasil é um dos poucos lugares do mundo onde a próxima eleição começa antes que a anterior tenha saído completamente do noticiário
Por João Zisman - 08/06/2026 09:32:45 | Foto: Divulgação João Zisman
Mal termina a apuração, os vencedores ainda estão recebendo cumprimentos, os derrotados ainda procuram explicações e já aparece alguém discutindo pesquisas, alianças, rejeições e cenários para a disputa seguinte. É um fenômeno curioso. A política brasileira parece ter desenvolvido uma dificuldade crônica de permanecer no presente. A eleição termina, mas a campanha continua vivendo dentro da nossa cabeça.
Talvez isso não aconteça por acaso. Com exceção do Distrito Federal, escolhemos um modelo em que o país é chamado às urnas de dois em dois anos. Quando termina uma eleição municipal, a presidencial já surge no horizonte. Quando termina a presidencial, logo começam as articulações para as disputas locais. Aos poucos, fomos nos acostumando a viver em permanente estado eleitoral. A campanha deixou de ser um período específico da vida política e passou a funcionar quase como uma estação do ano que nunca termina completamente.
Não vejo problema algum em discutir eleições. Democracias vivem disso. O que me chama atenção é outra coisa. Quanto mais o debate público se dedica à próxima disputa, menos parece interessado em conversar sobre o país que continuará existindo quando ela acabar. Gastamos uma energia enorme tentando descobrir quem vai ganhar e uma energia muito menor tentando entender o que deveria ser feito depois que alguém ganhasse.
Talvez seja porque campanha seja mais interessante do que governo. Campanha tem emoção, suspense, pesquisas, discursos, estratégias e a permanente sensação de que estamos diante de um momento decisivo. Governar costuma ser menos empolgante. Exige prioridades, orçamento, escolhas difíceis e uma convivência diária com limitações que os palanques raramente gostam de mencionar.
Acontece que a realidade não costuma demonstrar muito respeito pelo calendário eleitoral. Ela continua andando enquanto as campanhas acontecem. Os desafios do país não entram em recesso porque começou a temporada de pesquisas. A educação continua precisando melhorar. A economia continua precisando crescer. A infraestrutura continua precisando de investimentos. A segurança continua exigindo respostas. E a transformação tecnológica continua avançando numa velocidade que independe das conveniências da política.
Talvez aí esteja uma das consequências menos percebidas desse calendário eleitoral permanente. Os ciclos da política são cada vez mais curtos. Os desafios do país, não. Educação não melhora em dois anos. Infraestrutura não se transforma em dois anos. Ganhos de produtividade, inovação, qualificação profissional e desenvolvimento econômico costumam exigir persistência, continuidade e uma visão que sobreviva a mais de uma campanha.
Mesmo assim, boa parte das discussões acaba sendo engolida pela lógica da disputa. Não importa se estamos falando de economia, segurança pública, política externa, tecnologia ou decisões da Justiça. Antes de compreender o problema, alguém já está calculando quem saiu fortalecido e quem saiu enfraquecido. O fato deixa de ser analisado pelo que representa para o país e passa a ser avaliado pelo seu potencial de produzir vantagem para um lado ou desgaste para o outro.
Confesso que, às vezes, observo certos debates e fico com a sensação de que estamos discutindo o campeonato do ano que vem sem ter terminado de jogar o atual. Falamos muito sobre candidatos, alianças e estratégias. Falamos menos sobre produtividade, competitividade, qualidade da educação, envelhecimento da população, inovação, infraestrutura e o lugar que o Brasil pretende ocupar num mundo que se tornou mais competitivo, mais complexo e menos tolerante com improvisações.
Talvez seja justamente por isso que algumas discussões soem tão rasas. Vivemos cercados por narrativas que frequentemente parecem desenhadas para produzir reação imediata. Algumas são sofisticadas. Outras chegam a ser grosseiras. Mas quase todas compartilham uma característica comum: ajudam a organizar torcidas, mas ajudam muito pouco a organizar ideias. Produzem calor com facilidade. Produzem luz com bem menos frequência.
A experiência também ensina que nenhuma eleição resolve, por si só, os problemas que a antecedem. Depois de acompanhar tantas campanhas ao longo da vida, a gente aprende que a urna escolhe governantes, mas não substitui planejamento, competência, seriedade ou capacidade de execução. O voto é indispensável. Mas ele não constrói estradas, não melhora escolas, não reduz a criminalidade e não aumenta a produtividade da economia por geração espontânea. Tudo isso continua dependendo de decisões tomadas depois que a festa da vitória termina.
Talvez o maior paradoxo da política brasileira esteja justamente aí. Nunca falamos tanto sobre eleições. Nunca consumimos tanta informação política. Nunca tivemos tantas pesquisas, análises, projeções e comentários. E, ao mesmo tempo, raramente dedicamos a mesma atenção à pergunta que deveria vir antes de todas as outras: afinal, que país queremos construir?
Não se trata de descrença na democracia. Muito pelo contrário. Continuo acreditando que as eleições são uma das maiores conquistas de uma sociedade livre. Mas justamente por acreditar nelas, considero legítimo esperar algo além de uma sucessão permanente de campanhas. Afinal, vencer uma eleição é importante. O problema é que a vida real começa exatamente quando ela termina.
Em algum momento os palanques serão desmontados, as pesquisas desaparecerão das manchetes e os vencedores ocuparão seus gabinetes. Nesse dia, o Brasil continuará precisando enfrentar os mesmos desafios que hoje disputam espaço com as narrativas eleitorais. Continuará precisando crescer, educar, inovar, gerar oportunidades e encontrar soluções para problemas que não cabem em slogans, vídeos curtos ou frases cuidadosamente produzidas para viralizar.
As urnas responderão quem venceu. O que elas não responderão é algo muito mais importante: o que esperamos encontrar no país que surgirá depois delas?
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