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Em Portugal: Começa o desconfinamento

Em Portugal: Começa o desconfinamentoFoto: Pixabay

(crônicas de Portugal #7)

Por Renato Essenfelder - Estadão Conteúdo - 20/05/2020 - 09:31:14

Começou o desconfinamento – ao menos aqui, em Portugal. É mais uma palavra que sacode o pó do vocabulário, logo ao lado de distanciamento social, lockdown , quarentena e descontaminação.

Diários da Covid #7. Tateando o "novo normal"

arte: loro verz

Vamos juntos tateando o novo normal. O novo normal no Jardim do Morro, uma praça com bonita vista para o rio Douro, no Porto, parece bastante natural. Passei por lá nesta semana durante o pôr do sol e vi muitos casais, grupos de amigos e de famílias rindo e bebendo sob o céu azul. Fotografei a cena e mandei para os amigos macambúzios: vejam como é o mundo (com sorte) pós-covid.

Ninguém percebeu muita diferença entre o velho e o novo normal.

O olhar mais atento, contudo, não demora a perceber as particularidades dessa nova normalidade. Os grupos no jardim eram diminutos, com duas, três ou quatro pessoas, e entre eles havia uma distância considerável de pelo menos três metros. Olhando com ainda mais atenção a gente percebia que sobre as toalhas espalhadas pelo gramado havia garrafinhas de álcool em gel, lenços e pequenos sacos plásticos com o novo acessório indispensável da estação, as máscaras. Sem máscara não é possível entrar no metrô, no ônibus, no supermercado.

A coreografia também mudou. São raros os toques, os beijos. Cada um com sua garrafinha ou copo de cerveja em mãos, habilmente desinfectado com gaze e álcool. O encontro e a despedida acontecem sem contato direto.

Talvez tudo isso pareça triste, em comparação à primavera passada, quando a praça tinha muito mais gente e muito mais beijo e muito mais agitação. Mas eu estou feliz. Encostados à grama, com os cotovelos no chão e o pescoço pálido exposto ao sol, os amigos sorriem em silêncio. Aproveitam a luz.

Logo surge um sujeito no canto da praça, sozinho, com um grande saco preto a tiracolo. Encosta a bagagem no chão, tira seu chapéu de abas largas e o deposita na grama cuidadosamente, com a boca virada para cima. Abre o saco, saca um violão. Canta. Um tanto rouco, um tanto desafinado. Será que perdeu o hábito? Persiste.

Não tardam os aplausos. A melodia parece, enfim, encaixar. O repertório, variado, é agradável. Aqui e ali alguém canta junto. Eu também. Todo mundo desafina de vez em quando. Não desistiremos. Vamos juntos tateando o novo normal.«

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