Da medicina até aos palcos: Fadista Katia Guerreiro atua na China

Do estetoscópio aos palcos: uma escolha de vida.

Da medicina até aos palcos: Fadista Katia Guerreiro atua na China
Da medicina até aos palcos: Fadista Katia Guerreiro atua na China

Por Zhang Rong - Diário Do Povo Online - 28/08/2025 11:30:00 | Foto: Katia Guerreiro. - divulgação dos organizadores

No dia 7 de setembro, o Forbidden City Concert Hall, em Beijing, irá receber o Festival do Fado. O público chinês poderá assistir à atuação de Katia Guerreiro, uma das vozes mais consagradas deste estilo de música tradicional portuguesa, e descobrir o encanto singular da guitarra portuguesa.

Antes de regressar à China, a fadista concedeu uma entrevista exclusiva ao Diário do Povo Online, na qual abordou a sua trajetória entre a medicina e a música, partilhou a sua visão sobre fado e falou das experiências marcantes na sua carreira.

Do estetoscópio aos palcos: uma escolha de vida

Quando começou a cantar, em 2000, Katia Guerreiro estava simultaneamente a terminar o curso de medicina, profissão que exerceu durante 12 anos. Mais tarde, muitos diriam que, de dia, curava o corpo, como médica, e à noite, curava almas com a sua voz.

"Eu comecei a cantar e a exercer medicina exatamente ao mesmo tempo", recordou. Durante anos, acreditou que poderia manter as duas carreiras em paralelo, mas acabou por se deixar conquistar pelo fado. "Foi um ano depois da morte de Amália Rodrigues, e isso mudou a minha vida, mas eu achava que ia ser uma coisa muito temporária".

O nascimento da filha foi decisivo: "O nascimento da minha filha é que me fez acabar por decidir em deixar de exercer a medicina de uma forma profissional". Ainda assim, continua a contribuir, ainda que discretamente, colocando o seu "olho diagnóstico muito apurado" ao serviço de quem precisa.

Fado: emoções universais e poesia portuguesa

Apresentações anteriores. Foto: fornecida pelo entrevistado.

A cantora sublinha que o fado lhe abriu novas formas de compreender o mundo: "Podemos estar em Portugal, na China, Itália ou no México. Apesar de ter hábitos sociais e culturas diferentes, no que toca às emoções mais profundas, mais íntimas, o ser humano é exatamente igual".

O fado surgiu em meados do Século XIX nos bairros de Lisboa, como expressão das vivências e sentimentos populares. É frequentemente associado à ‘saudade’, uma forma de sentir muito própria da cultura portuguesa. No entanto, para Katia, a saudade não se resume à tristeza: "É uma mistura entre a tristeza de não ter e a alegria de ter tido".

Para a fadista, o fado é também um veículo privilegiado da poesia portuguesa: "O fado é, de facto, a música que melhor expressa a alma portuguesa e que, no fundo, se impõe nacional e internacionalmente, sempre com a poesia portuguesa". Citando um amigo dela, acrescenta: "O fado é a poesia ajudada com a música".

Segundo Katia, este género musical fala "de amor, de saudade, de tristeza, de alegria, de coragem e de esperança", refletindo toda a complexidade das emoções humanas.

25 anos de carreira, reconhecimento internacional e impressões da China

Opera de Vichy. Foto: fornecida pelo entrevistado.

Foi em 2000 que Katia Guerreiro "verdadeiramente entregou a sua alma, a sua luz, a sua voz e o seu canto ao fado". Vinte e cinco anos depois, é reconhecida como uma das mais importantes fadistas do novo milénio e, acima de tudo, como uma embaixadora do fado e de Portugal nos mais diversos círculos culturais internacionais.

Apresentou-se em salas prestigiadas de todos os continentes e nos mais relevantes festivais de música do mundo. Em Portugal, foi condecorada pelo presidente português com a Ordem do Infante D. Henrique, uma das mais altas distinções nacionais atribuídas a quem promove a cultura e os valores portugueses. Em França, recebeu o título de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras, honraria que reconhece contribuições relevantes às artes e à literatura.

É hoje considerada uma das mais notáveis representantes da cultura portuguesa globalmente e uma das mais brilhantes cantoras da sua geração.

"Essa beleza da partilha fez-me manter esta vontade de continuar, de querer manter-me em cima dos palcos e aprofundar o meu conhecimento pelo fado. Defender esta cultura que é tão especial de Portugal e que me levou a conhecer o mundo de uma forma muito bonita", sublinhou.

Katia já esteve várias vezes na China, vivendo experiências marcantes, como um concerto em Macau com acompanhamento da orquestra chinesa, ou a visita à Cidade Proibida, integrada na comitiva do ex-presidente Cavaco Silva: "Termos uma visita guiada muito especial e intensa foi muito bonito para conhecer um pouco mais da história milenar da China".

Além da música, Katia gosta de explicar a dinâmica do fado aos públicos estrangeiros: "Eu sou uma comunicadora e gosto muito de explicar o que é que é o fado tradicional. De falar dos autores, dos poetas e de resumir, naturalmente, o tema que vou cantar".

No concerto, os espectadores terão também a oportunidade de conhecer melhor a guitarra portuguesa, "um instrumento tão particular e tão identitário" da cultura do seu país.

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