Freiras do século 16 podem dar dicas para viver no mundo de hoje, dizem escritoras

Todo o histórico as motivou a iniciarem seus doutorados sobre a contrarreforma e as políticas da santidade

Freiras do século 16 podem dar dicas para viver no mundo de hoje, dizem escritoras
Freiras do século 16 podem dar dicas para viver no mundo de hoje, dizem escritoras

Luana Lisboa-são Paulo, Sp (folhapress) - 02/02/2026 11:03:32 | Foto: Divulgação

Para quem vive em um mundo tomado por aluguéis superfaturados, cargas de trabalho excessivas e CEOs de big techs influindo na geopolítica internacional, a vida monástica pode parecer uma afronta à alienação moderna, afirmam Ana Garriga e Carmen Urbita, autoras do livro "A Sabedoria das Noviças", lançado no Brasil pela editora BestSeller.

Talvez isso explique uma crescente obsessão geracional e o aumento no espaço da cultura pop para as freiras, não de forma satírica, mas como um fenômeno estético e social.

Enquanto a hashtag #NunTok fascinava usuários do TikTok durante a pandemia e memes viralizavam com legendas como "mais um ficante premium e eu entro para o convento", as pesquisadoras da Universidade Brown, nos Estados Unidos, já tinham fascínio antigo pela iconografia católica.

Foi muito antes de Chappell Roan e Rosalía trajarem túnica, escapulário e véu que as autoras se interessaram pelas figuras religiosas, no que começou quando, ambas, aos nove anos -e sem se conhecerem- decidiram ser batizadas na Igreja Católica contra a vontade de seus pais agnósticos.

O interesse era tanto pelo magnetismo da ética religiosa quanto pelo despertar de sinais de um "lesbianismo latente" diante de imagens como a de Joana d'Arc, afirmam elas em sua bem-humorada análise sobre a vida das freiras nos séculos 16 e 17.

Todo o histórico as motivou a iniciarem seus doutorados sobre a contrarreforma e as políticas da santidade, em estudos que, acreditavam, se restringiriam apenas à esfera intelectual. Foi durante esse período, numa forma de "clausura acadêmica", que elas acidentalmente encontraram consolo nas vozes dessas mulheres, ao pesquisar extensamente suas cartas e autobiografias.

"A experiência do doutorado pode ser bem solitária. É muito verdade que ler sobre essas freiras e perceber que elas estavam tendo experiências semelhantes nos ajudou muito a processar nossas próprias lutas, eu diria. Mas não tínhamos ideia de que iríamos estabelecer essas conexões quando começamos a ler sobre as freiras", diz Ana Garriga à Folha.

Debruçando-se sobre os diários da agostiniana María de San José, sobre as cartas de Ana de Jesús para Beatriz de la Conceição e sobre processos inquisitoriais de Inés de Santa Cruz e Catalina de Ledesma, encontraram descrições como a angústia de lidar com superiores incompetentes, registros de um intenso amor lésbico à distância e evidências de estratégias financeiras adotadas pelas religiosas.

Constataram, então, que a sabedoria das freiras poderia funcionar como um "kit de sobrevivência", com respostas satisfatórias para males como o burnout, a produtividade tóxica e até transtornos alimentares.

"Nos anos 1980, muitas acadêmicas feministas começaram a reinvindicar o convento como um lugar de resistência. As freiras estavam escrevendo o tempo todo, e muitas escrevendo biografias das outras irmãs, e estavam fazendo isso sendo muito cuidadosas porque sabiam que poderiam ser censuradas e que tinham que prestar muita atenção à Inquisição. Então isso faz com que os textos sejam muito, muito divertidos de ler", diz Garriga.

Embora alguns dos temas sensíveis para a Igreja sejam abordados de forma cômica, as autoras não se preocuparam com a recepção do livro entre o catolicismo. "Estamos pesquisando de um lugar muito respeitoso", afirma Urbita.

Na verdade, as espanholas já haviam conquistado esse público com o podcast "Las Hijas de Felipe". O produto, assim como livro, mescla histórias pessoais das autoras, referências à cultura pop e o mal-estar de hoje com as angústias das freiras.

Ainda assim, foi uma surpresa ver o podcast ser recomendado por uma newsletter jesuíta, diz Urbita. "Por causa da linguagem, dá para perceber que eles realmente nos ouviram. E também mencionaram que muitas freiras continuavam ouvindo nosso podcast todos os dias, e acho que faz muito sentido. Se há um podcast falando sobre sua cultura, você vai ouvir", diz.

Acima de tudo, o livro é bem-sucedido ao trazer para o público uma perspectiva singular: a de que os conventos funcionavam como células de resistência nos séculos 16 e 17, os únicos espaços em que as mulheres podiam evitar um destino de casamento e maternidade.

Apesar da aparência tentadora de refúgio, especialmente em meio ao crescimento da extrema direita, a ideia não é incentivar leitoras a recorrerem a uma vida monástica. "O convento era e é um lugar muito marginal", diz Garriga. "Mesmo que a Igreja Católica seja uma estrutura muito poderosa, as freiras estão sempre nas margens."
"O que tentamos fazer é pegar a ideia do convento portátil, ou seja, o realmente é valioso do convento na idade moderna: a ideia de comunidade, interdependência e viver com pessoas que têm um propósito compartilhado com você."

A SABEDORIA DAS NOVIÇAS: CONSELHOS DO SÉCULO XVI PARA PROBLEMAS DO SÉCULO XXI
- Preço R$ 79,90 (ebook R$ 44,90)
- Autoria Ana Garriga e Carmen Urbita
- Editora BestSeller
- Tradução Débora Landsberg

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