Fundador da revista piauí questiona apoio empresarial a Flávio Bolsonaro e aponta riscos à democracia

Para Salles, a continuidade política declarada entre pai e filho torna esse episódio relevante para avaliar o significado do atual projeto presidencial

Fundador da revista piauí questiona apoio empresarial a Flávio Bolsonaro e aponta riscos à democracia
Fundador da revista piauí questiona apoio empresarial a Flávio Bolsonaro e aponta riscos à democracia

São Paulo, Sp (folhapress) - 02/10/2026 09:15:38 | Foto: João Moreira Salles ( cale/divulgação)

Em artigo publicado na quinta-feira (1º) na revista piauí, seu fundador, João Moreira Salles, sustenta que parte da elite econômica brasileira está disposta a relativizar os riscos à democracia e a valores institucionais para se aproximar da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), movida sobretudo por preocupações com a situação fiscal do país e pela perspectiva de uma agenda econômica mais alinhada aos próprios interesses.

O argumento central do texto é que o problema não estaria na falta de informação desses empresários, banqueiros e investidores, mas no fato de que, segundo Salles, muitos deles conhecem o histórico político de Flávio Bolsonaro e do grupo familiar a que o candidato pertence e, ainda assim, decidiram estabelecer relações públicas com o senador.

"Como se restaura um mundo em que se aceita a existência de um torturador? Como um regime de exceção ressurge como alternativa política? Como se começa a minar uma democracia? Como se prepara um país para o retorno dos tiranos?", escreve.

Para Salles, essa elite econômica não deseja necessariamente "o fim do frágil experimento democrático brasileiro", mas tomou "a decisão de desviar os olhos". Em seguida, cita quem seriam esses empresários e executivos, incluindo entre eles Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú, banco do qual a família Moreira Salles é sócia.

"Ao como, então, vale a pena acrescentar o quem. Flávio Rocha (varejo de moda). Marcelo Kayath (mercado financeiro). André Esteves (banco de investimentos). Eduardo Bartolomeo (mineração). Eduardo Fischer (publicidade). David Feffer (papel e celulose). Roberto Campos Neto (mercado financeiro). Fernando Marques (indústria farmacêutica). Rubens Ometto (energia e infraestrutura). Emmanuel Hermann (mercado financeiro). Paulo Skaf (indústria). Luiz Carlos Trabuco (setor bancário). Fábio Barbosa (gestão empresarial e finanças). Alexandre Ostrowiecki (eletrônicos). Mario Araripe (energia renovável). Milton Maluhy Filho (setor bancário). Helio Seibel (madeira e materiais de construção). Christian Egan (mercado de capitais). Roberto Dagnoni (criptomoedas). Pedro Parente (energia e infraestrutura). Daniel Goldberg (investimentos). Fábio Ermírio de Moraes (indústria e investimentos). Fabio Carvalho (varejo e mídia). Richard Gerdau (siderurgia). Gilson Finkelsztain (setor bancário). José Galló (varejo). Fernando Simões (logística e infraestrutura). João Camargo (articulação empresarial)."
Salles recorda que Jair Bolsonaro (PL), no voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como responsável por torturas durante o regime militar, e destaca que Flávio Bolsonaro nunca repudiou a homenagem. Ao contrário, defendeu o pai.

Para Salles, a continuidade política declarada entre pai e filho torna esse episódio relevante para avaliar o significado do atual projeto presidencial.

"O problema, aqui, parece ser de ordem de valores: do que se admite negociar e daquilo que não se negocia. Existem determinados absolutos que não admitem acomodação. A tortura certamente é um deles."
Na interpretação de Salles, encontros privados de integrantes do setor empresarial e financeiro conferem ao candidato uma forma de legitimidade política.

O texto reconhece a gravidade da situação fiscal brasileira e menciona críticas de agentes do mercado aos gastos públicos, à dívida e à condução econômica do governo Lula. Mas questiona a conclusão de que esses problemas justificariam a aproximação com o candidato do PL.

O texto lembra que o governo Bolsonaro também enfrentou controvérsias fiscais e argumenta que crises econômicas, embora possam ser graves, são em princípio reversíveis, enquanto danos institucionais provocados por rupturas democráticas podem ter efeitos duradouros.

"Nada disso significa uma adesão ao atual presidente", diz Salles, mas "a eleição brasileira de 2026 pôs diante do eleitor alternativas que, a meu ver, jamais foram equivalentes".

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